Estranha terra natal

As nuvens carregadas de chuva se derramavam sobre o para-brisa do carro com um presságio de que uma tarde morna e úmida nos aguardava ao fim da estrada. Quando chegamos no início da descida da serra, na Rodovia dos Imigrantes, senti um misto de empolgação e apreensão. Como se eu tivesse me esquecido como era pisar na terra onde nasci, um sentimento semelhante a quando vamos viajar para um lugar desconhecido pela primeira vez.

Saí de Santos há oito anos, bastante contrariada, por achar, como todo bom santista, que não existia vida fora desta cidade. Devo admitir que é um lugar lindo, com praias bem agradáveis, estrutura de cidade grande, várias opções de entretenimento, porém Santos está longe de ser o centro do mundo.

Demorei tempo demais para me libertar da mentalidade provinciana e bairrista que me aprisionava e impedia de seguir em frente e explorar outros lugares, com medo de não ser tão feliz, ou de perder as memórias que cultivei ao longo da maior parte da minha vida.

Sair da cidade onde nasci parecia um sacrilégio, uma negação das minhas raízes. O mais engraçado é que, quando era adolescente, eu sempre pensava em como seria ótimo sair dali, morar em São Paulo ou no exterior, pois já estava cansada dos mesmos lugares, das pessoas, de tudo. A grama do outro lado sempre parece um pouco mais verde, não é mesmo? 

Foram vite e seis anos nos quais descobri os meus cantinhos preferidos da cidade, os tesouros escondidos, as lojinhas de bairro, o horário ideal para caminhar na praia sem ficar torrada e sem aquela multidão de pessoas, acumulando amigos, aromas, memórias. Por outro lado, foram muitas as decepções, principalmente envolvendo o jeito malandro e ostentador de muitos de meus conterrâneos.

Acho que essas coisas me magoaram e decepcionaram tanto que, no fim das contas, a mudança se tornou menos dolorosa. É fácil abandonar um cenário quando tudo o que você sente é tristeza por não pertencer àquele mundo, àquele estilo de vida.

Apesar disso, no geral, eu sinto falta de muitas coisas, especialmente de caminhar pelas ruas planas e arborizadas do bairro onde morava, ouvindo música e observando as nuances do cotidiano. Sinto falta das tardes de chorinho na livraria Realejo, que ficava embaixo do prédio onde morei sozinha, na Praça da Independência.

Tenho saudades de me refrescar com uma água de coco no quiosque do canal 6 (que nem existe mais hoje em dia) nas noites de verão. Do cheiro do Cine Iporanga 3 (que também já não existe há tempos), uma mescla de pipoca, perfume, cigarros e carpete velho. Do Cine Arte Posto 4. Da Concha Acústica, que servia de abrigo pros nossos luaus em noites de chuva. Da feirinha da praça do Sesc, dos churros e caldos de cana.

Das tardes em que íamos caminhar na praia, eu, minha mãe e minha irmã, e todos os peixinhos dançavam nas ondas límpidas do mar morno. De catar conchas na beira do mar. De assistir os blocos da Banda Mole e Segura no Bagre da sacada do prédio da minha melhor amiga, tomando cerveja. De pegar a barquinha e ir até a praia do Góes e seguir as trilhas até as praias escondidas.

E eu sinto uma saudade inexplicável de sentar num dos bancos do calçadão e simplesmente contemplar o mar, a imensidão do horizonte, as montanhas, os navios entrando e saindo do porto…

E, conforme nos aproximávamos da entrada da cidade, passando por Cubatão, conforme os prédios desgastados pelo tempo se fundiam aos guindastes e containers, e os edifícios modernos se mesclavam às construções abandonadas e aos monumentos históricos cobertos de musgo, meu coração santista mergulhou em profunda melancolia. Instantes depois, isto se transformou em estranhamento e confusão.

Eu não sabia onde estava. Não fazia tanto tempo assim desde minha última visita, acho que foi no início do ano, e, no entanto, vários pontos de referência, que eu tinha como imutáveis e perenes, foram simplesmente arrancados do horizonte e substituídos por imponentes prédios comerciais, shoppings, condomínios de luxo. Isso é algo que já vinha acontecendo desde muito antes de eu vir para o interior, mas agora a coisa parece ter saído do controle de uma vez por todas.

Passamos pela rua onde morávamos, meu pai ao volante do carro, minha mãe e minha avó ao meu lado, no banco do passageiro, mostrando ao meu marido os lugares que faziam parte da nossa história. E nos entristecemos por ver que muitos deles já não estavam mais lá.

O bairro onde moramos por vinte anos, por onde passamos para comprar pão na deliciosa padaria vizinha ao nosso antigo prédio, parecia um local desconhecido. Eu poderia me perder facilmente naquelas ruas que, antes, eu conhecia como a palma da minha mão.

Durante o restante da tarde e a noite, enquanto festejávamos com a família, com o calor úmido do litoral castigando nossa pele acostumada à secura do interior, minha mente divagou sobre como era estranho estar ali, dividida entre a sensação de nunca ter saído de Santos, e o estranhamento de agora ser uma turista na minha própria cidade natal.

As minhas lembranças permanecem, mas será impossível reproduzir grande parte delas, pois muitos dos locais onde elas se formaram já não existem mais. E, por mais natural que isso seja, parece que sou como uma árvore arrancada, que assiste o jardim onde vivia se transformando num estacionamento cinza e estéril.

Ao final da noite, voltando para casa, enfrentando novamente a estrada que, antes, eu percorria para ir ao trabalho, ou para visitar os amigos e parentes, senti um nó na garganta. A minha terra foi sequestrada, já não é aquela terra de todos os santos onde eu costumava caminhar.

Enquanto observava a cidade diminuir pela janela traseira do carro,  tentei pensar em uma palavra para expressar essa sensação bizarra de não pertencer mais ao lugar onde nasci, e adormeci sem encontrar uma resposta. Sonhei com a praia, o chá mate gelado, a areia grudando nos pés molhados do mar, a única certeza que me aguardará sempre que eu retornar.


Imagem: Canal Estuario Santos | Benedicto Calixto

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