Redes antissociais

Resolvi dar um descanso para a minha mente nesse mês que termina hoje, no dia do tradutor/dia da secretária. Não me ligo muito nessas datas, mas costumo pensar nos pioneiros de nossa profissão, e elevo minhas boas energias para que eles sejam abençoados e protegidos, onde quer que se encontrem. Graças a eles, estamos aqui na era digital com glossários e dicionários online e ferramentas que nos permitem correr contra os prazos e tornar as coisas mais eficientes.

Já escrevi sobre algo parecido aqui, e não vou me estender nesse assunto. Hoje, a pauta é o afastamento do mundo, ou como estou me tornando uma pessoa mais feliz por não me importar tanto com a ausência dos amigos e o isolamento, causados pela minha opção de não acessar mais as redes sociais.

Em outubro, completo trinta e três anos, e, embora eu não esteja em crise com a idade ou com o fato de estar ficando mais velha, em si, dentro de mim têm surgido questões muito fortes e graves a respeito das relações que tenho com o mundo. Ou da minha vontade de não interagir, que toma conta de mim toda vez que penso em como as nossas interações têm se tornado quase vazias, quando não convivemos, de fato, com as pessoas.

Dica: falar com a pessoa pelas redes sociais não substitui encontros pessoais ou participar ativamente da vida.

Dizem por aí que a ignorância é uma bênção, que é o mesmo que dizer “quanto menos você sabe, mais você sorri”. Claro, não me refiro aqui ao conhecimento intelectual, este que, ao contrário, nos eleva e nos permite viver de forma mais liberta e independente, embora também torne nossos sorrisos um pouco mais escassos. A ignorância, nesse caso, alude a não saber o que está acontecendo no mundo, não me envolver em polêmicas, nem absorver o veneno destilado nas redes sociais e nos sites de notícias.

É tudo tão tóxico, efêmero, coisas irrelevantes ganham proporções gigantescas, boatos absurdos são propagados com um alcance assustador e as únicas coisas dignas de compartilhamento acabam sendo, de fato, compartilhadas, porém se perdem em meio a tanta besteira e futilidade. Uma coisa incrível é compartilhada hoje, e esquecida no dia seguinte, quando, na verdade, deveria ser guardada com carinho na memória.

Não existem culpados nesse contexto, isso é apenas um reflexo das relações superficiais que desenvolvemos com o mundo e com as pessoas nessa era em que tudo passa muito rápido, nada persiste, tudo parece ser intrinsecamente substituível. Inclusive os seres humanos.

Tenho refletido bastante sobre minha relação com a vida online e a vida real e a conclusão a que cheguei é que a internet, embora seja uma ferramenta maravilhosa, é um lugar onde as máscaras se transformam no indivíduo, e isso é perigoso, a meu ver, pois o nível de agressividade e intolerância demonstrado pela grande maioria, especialmente no Facebook, Instagram, Twitter e correlatos, reflete exatamente o comportamento desses mesmos sujeitos no mundo concreto. É assustador. É o contrário do que deveria existir, na nossa era de instrução e esclarecimento.

Entretanto, esse texto não tem o intuito de analisar esse ponto, em especial. Comecei falando sobre minhas pseudo-férias do ambiente virtual, e incluí o pseudo porque todo o meu trabalho é realizado nessa esfera, todas as comunicações que mantenho com os clientes, a empresa onde trabalho, os colegas, tudo é feito através da Internet.

Eu não trocaria o home office por outro tipo de serviço, não após quatro anos acostumada a essa rotina, mas a verdade é que, às vezes, eu sinto falta da interação com outros seres humanos além da minha família. Pode parecer meio deprimente, mas o que fazer?

Outra coisa que percebi após deixar as redes sociais de lado é que tenho a sensação de estar excluída do mundo, sem exageros. As redes sociais nos tornam antissociais no mundo real, mas estar longe delas é quase como ser invisível.

Os amigos simplesmente não aparecem, não ligam, não mandam mensagens, e até mesmo a família parece preferir o Whatsapp e as outras formas cibernéticas de contato do que fazer uma visita para um chá ou telefonar/visitar no dia do aniversário. Quando decidi não deixar o Whatsapp conectado diariamente, recebi uma chuva de críticas de amigos que dizem que eu sumi.

Mas eu continuo aqui, em carne e osso, vivendo muitas coisas das quais nenhum deles tomará conhecimento, pois não fazem parte da minha vida.

E, no fim das contas, também não faço parte da vida deles, que se importam mais em publicar os acontecimentos através de fotos ou postagens incontáveis, do que reservar um tempinho para colocar o papo em dia em um café, uma reunião na casa de alguém, essas coisas. Nas raras vezes em que esses encontros acontecem, é impossível fazê-lo sem a interferência de selfies, postagens, dedos deslizando nas telas dos smartphones.

Estamos juntos, mas não realmente juntos. É muito triste.

E eu me sinto assim, ausente. Não quero me aproximar virtualmente, talvez por medo de admitir que a vida se resuma a essas relações de amizade sem o mínimo de profundidade, que não evoluem, desfeitas com um clique do mouse por causa de desentendimentos ou falta de interpretação de texto. Vidas que se tocam apenas na esfera dos bytes, fotos curtidas automaticamente, momentos desperdiçados com selfies e cabeças baixas na frente de telas brilhantes.

E eu não sei bem por que motivo, perdi também um pouco da vontade de escrever. As ideias flutuam à minha frente, eu as abraço, mas, quando se trata de colocá-las em palavras, aqui ou onde quer que seja, eu me sinto egoísta. Como quando decido não postar fotos ou comentários de momentos especiais nas redes sociais.

Eu estou ausente. Eu sumi. Para mim, é um momento de renascimento e reflexões, sobre o que é válido publicar e compartilhar, sobre a efemeridade da vida e dos instantes que experimentamos.

Se for necessário renunciar à vida virtual para ser uma pessoa mais presente no mundo real, acho válido o sacrifício. Trinta e três anos, a idade de Cristo – um número bem simbólico para ressurgir e caminhar por essa vida de uma forma menos individualista e egocêntrica.


Imagem: Unsplash

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