Cinco Minutos

O dia está quase chegando ao fim e penso comigo nos cinco minutos que faltam para as cinco da tarde, os quais posso preencher da maneira que eu bem entender, e, de súbito, estou imersa num mar de possibilidades que certamente não se enquadram nesses trezentos segundos livres, por demandarem mais ou menos tempo.

É incrível como o tempo é algo relativo – cinco minutos podem parecer uma eternidade ou passar num piscar de olhos, dependendo da situação em que nos encontramos.

Mais uma vez, estou perdida na questão do tempo, o que fazer com ele, esse material abstrato, infinito, que não posso dobrar e guardar no bolso, como uma nota de cinco reais – e esse paralelo é interessante, porque cinco minutos valem tanto ou tão pouco quanto esse valor em dinheiro.

Com cinco reais, eu consigo comprar pão e leite, macarrão e molho, mas não dá para comprar uma bandeja de ovos ou fazer uma viagem de ida e volta com o ônibus circular da cidade. Com cinco minutos, não consigo assistir a um pouco de TV, pois as estórias demoram bem mais que isso para serem contadas, posso assistir a um vídeo, a uma palestra no estilo TED Talks, porém a minha busca informa que todos os títulos pelos quais me interesso têm duração maior ou menor que os tais minutos que tenho de sobra.

Eu não poderia escrever um texto em cinco minutos. Bem, poderia, aliás, eu deveria tentar fazer isso algum dia. Mas não hoje. Os cinco minutos de hoje merecem algo especial, são meus, são raros e eu preciso aproveitá-los de uma forma ímpar.

Ler um texto nesse breve período me parece uma afronta, porque não gosto de apressar as coisas que merecem ser feitas a seu tempo, sem correr. A corrida também poderia ser uma ótima maneira de desfrutar desses minutos economizados no dia, não fosse pelo fato de que eu levo mais que cinco minutos apenas para me arrumar e sair de casa, tornando toda a proposta totalmente inválida.

Decido recorrer à fonte de toda a sabedoria dos tempos atuais, o mecanismo de indexação mais poderoso, o pai dos desinformados, e digito em sua caixa de busca “o que fazer em cinco minutos”. O Google demora menos de um minuto para me responder, em cerca de um milhão de resultados, o que eu posso fazer nesse tempo. 15 tarefas para fazer em cinco minutos.

Uau! Parece bem produtivo, mas conforme olho a tal lista de coisas percebo que são tarefas que já incluo na minha rotina, como escrever para mim mesma, comunicar-me com um ente querido, rever as fotos que tenho no celular, ler, ouvir música, saborear uma xícara de café.

Nenhuma grande novidade. Parece haver milhares de listas de coisas para se fazer nesse espaço de tempo, desde penteados, receitas, exercícios físicos. Os links seguintes são mais do mesmo, até que me deparo com uma matéria do site da Uol a respeito de um site chamado 5min Life Videopedia, que reúne vários tutoriais em vídeo sobre praticamente tudo.

É bastante promissor, mas ao entrar no site, não dou muita sorte. O servidor não está funcionando e provavelmente já perdi mais que cinco minutos só fazendo tudo isso, entre a busca e os acessos.

Ou seja, foi tudo em vão. Ou nem tanto. Durante esses minutos vagos, encontrei um vídeo de cinco minutos sobre a dor crônica e como fazer para aliviar essa sensação horrível. O que é bem útil para mim, que passo muito mais do que poucos minutinhos sentindo dores nos braços.

Basicamente, o cérebro é uma máquina de produzir dor, no meu caso, e a única coisa a fazer é parar e alongar os músculos até a dor passar. Mas ela volta. E eu teria que parar de cinco em cinco minutos para cumprir esse ritual de descanso, o que seria ótimo, porém totalmente inviável na minha rotina maluca.

Talvez eu deva parar por mais tempo ao longo do dia e pegar mais leve. 

Volto a pensar nos cinco reais e sigo o mesmo caminho, procurando por respostas do que fazer com essa ínfima quantia de dinheiro que, há vinte anos, era o suficiente para assistir a um filme no cinema, incluindo a pipoca. Bons tempos. Dez reais eram quase uma fortuna e eu conseguia até comprar uma porção de batata frita e tomar um suco se decidisse sair com os amigos.

Mas, hoje, cinco reais não valem tanto. Decido fazer uma outra pesquisa, dessa vez no Mercado Livre, e, para minha surpresa, tem gente vendendo notas de cinco reais por quinze reais, e até uma cédula com erro de impressão por cem reais. Após uma leve explosão mental, passo alguns minutos tentando compreender por que alguém compraria uma nota que ainda está em circulação, com defeito, de uma moeda que não é antiga.

Colecionadores são pessoas estranhas. Mais estranho ainda é pensar que o dólar está custando quase isso. Ou que eu ganho pouco mais que isso por hora de trabalho no meu emprego.

Meu tempo vale tão pouco aos olhos de quem me paga para trabalhar, mas para mim ele é tão precioso quanto uma nota de cinco reais defeituosa para um colecionador. Mais ainda, cinco efêmeros minutos me fizeram refletir sobre a vida, sobre o valor do dinheiro, sobre todas as coisas que o tempo pode fazer por mim, e eu com ele, e que talvez, só talvez mesmo, eu esteja gastando muitos minutos da minha vida com coisas que só me fazem perder ainda mais tempo.

Se o tempo fosse, de fato, igual a dinheiro, como diz o lema sagrado do capitalismo, quanto valeriam esses minutos que tenho – ou tive – de sobra hoje? Não vou me ater a esse cálculo, pois certamente será motivo para ressentimento.

Se eu ganhasse cinco reais a cada cinco minutos trabalhados, aí sim seria um cálculo interessante. Se fosse possível economizar cada um dos cinco minutos livres dos meus dias, da mesma maneira como é possível economizar cinco reais por dia num cofrinho, e materializar a economia do tempo em dias, como fazemos ao retirar as moedas desse mesmo cofre, contando-as uma a uma, seria também um cálculo muito interessante. E eu poderia ter férias várias vezes ao ano.

Por ora, decido que vou gastar esses cinco minutos livres, todos eles, sempre que se apresentarem, com outras tantas reflexões. Pensar é transformar o tempo em riqueza para a alma.

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