Por que é necessário amar o seu corpo agora

Há algum tempo, li um texto no blog The Militant Baker, no qual, após revisitar alguns retratos antigos, Jes Baker relata como foi chocante observar sua mudança de perspectiva a respeito de sua aparência. A blogueira em questão, que espalha uma mensagem positiva de amor próprio pela blogosfera, exibe nessa postagem diversas fotos suas de quando era mais nova, e relembra como se sentia àquela época.

Ela diz que foi estranho notar como hoje ela era capaz de se ver muito mais magra e bonita do que conseguia enxergar quando os autorretratos foram tirados, e que ficou perplexa ao lembrar de como se sentia infeliz, tinha ódio de si mesma e vivia em depressão.

Jes não se amava, percebia seu corpo como uma fonte de desgraças e, basicamente, sentia vontade de mudar tudo a seu respeito. Trocaria de corpo, se fosse possível.

É uma coisa muito triste e horrível de sentir, esse ódio todo voltado ao nosso corpo, que não faz nada além de trabalhar para que possamos existir.

Quem de nós nunca se sentiu assim, em algum momento da vida? Se você disser que nunca teve vontade de mudar nada em seu corpo, provavelmente está mentindo – ou então você atingiu um nível de iluminação realmente invejável.

Seja como for, a verdade é que a grande maioria dos seres humanos não está feliz com a pele em que habita, pelos mais variados motivos, não importa o peso, a idade, a cor, o gênero, o estilo de vida.

E não se trata apenas de insatisfação com uma parte do corpo que você deseja melhorar – uma cirurgia cosmética, perda ou ganho de peso ou músculos, essas coisas que são bastante válidas e que não têm nada de condenáveis.

Muitas vezes, a falta de aceitação nos impede de experimentar a vida como algo completo, e até mesmo de sermos felizes, não importa quantas vezes nossa aparência seja alterada para melhor.

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Queria ser magra como eu era quando achava que era gorda – quem nunca pensou assim?

Ao ler o texto da Jes, imediatamente pensei em mim mesma, quando tinha meus dezesseis anos, mais ou menos, e em como eu deixava de fazer as coisas por causa do meu corpo.

Eu me sentia traída por ele, por não responder aos meus esforços para ser igual às meninas mais populares, por acumular mais gordura do que deveria, por não me permitir ser a pessoa que eu queria ser.

Quero deixar claro que esse texto não é um desabafo de autopiedade ou algo assim, porque hoje eu tenho maturidade suficiente para ter uma relação saudável comigo mesma e fazer o que gosto sem me importar com o que o espelho, a balança, ou a sociedade tem a dizer a meu respeito.

Acontece que, vinte anos atrás, eu era apenas uma adolescente ingênua que acreditava que meu corpo era a única coisa capaz de determinar o meu valor. E é aí que mora o problema, ou o perigo.

É fato que a aparência é um fator muito importante na nossa sociedade. Sempre foi. E, por mais legal que você seja, por mais incrível, brilhante, carismático, generoso, por mais adjetivos positivos que você seja capaz de enumerar após o seu nome, no fim das contas o que prevalece é como você se apresenta ao sair de casa e encarar o mundo.

Não adianta negar, é assim que as coisas são.

Falando friamente, você pode passar a vida toda tentando se enquadrar às expectativas do resto do universo e nunca atingir a felicidade plena em relação à sua aparência. Pelo menos, foi assim comigo.

Ao terminar de ler esse texto, fiz o teste e revisitei o passado olhando fotos antigas. Eu era muito linda quando jovem, e hoje consigo enxergar o que meus pais e amigos diziam sobre mim. Àquela época, eu me odiava e só conseguia enxergar meus defeitos.

E o ódio por mim me levou a fazer coisas ruins e autodestrutivas contra o meu corpo, como tomar remédios bizarros para emagrecer ou fazer dietas malucas em vez de cuidar da saúde, de fato.

Eu achava que jamais ninguém gostaria de mim, porque eu era horrorosa e nojenta, por isso não deixava ninguém se aproximar muito. E eu nem era tão gorda assim, apenas me sentia enorme e odiava tudo a meu respeito.

Rebobinando as fitas da minha memória, eu desejei ter vivido num tempo em que alguém tivesse me dito o que li nesse texto da Jes. “É necessário amar o seu corpo AGORA”.

Quando me lembro de todas as experiências empolgantes que perdi, as viagens que deixei de fazer com a turma do colégio, as fotos que não tirei porque tinha vergonha de aparecer gorda e desforme, das vezes em que não me abri para o mundo porque a depressão tomou conta e eu achava que não seria nunca boa o suficiente, penso que tudo isso poderia ter sido evitado se eu me amasse e aceitasse o meu corpo.

E não estou falando aqui de ficar sentada no sofá comendo chocolate e encarando a obesidade como algo natural, mesmo porque eu nunca fiz isso na vida, sempre fui uma pessoa ativa, controlando a alimentação, e todas essas coisas. A grande sacada da autoaceitação é entender o seu corpo, parar de se comparar com os outros e dizer “eu te amo, corpo“.

Isto certamente permitirá um maior cuidado, maior atenção às necessidades desse mesmo corpo, e não um ciclo constante de “eu te odeio, corpo, e vou fazer de TUDO para te transformar em algo que você não é“. E era isso que eu fazia com dezesseis anos, quando eu era linda, magra, e infeliz.

O que tudo isso significa? Que o nosso corpo não é uma coisa horrível para ser detestada, ou uma inesgotável fonte de infelicidade. Certamente, o amor que sentimos por nós mesmos não deveria, nunca, ser limitado a quão ajustado ele é ao padrão aceitável ou normal.

Tudo o que nós vivenciamos e experimentamos nessa vida só acontece e é possível porque temos um corpo que nos movimenta, nos sustenta, nos permite sentir prazer, emoção, alegria, a chuva gelada no rosto, o toque das ondas do mar, o abraço de um ente querido, as cores, os perfumes, o som da nossa música preferida. É impossível odiar algo que pode fazer coisas tão incríveis!

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