Lights off!

Acompanhando o ritmo apressado das horas que parecem durar apenas quarenta minutos, as nuvens correm no céu, escuras, pesadas, piscando em relâmpagos e estremecendo os ouvidos das pessoas aqui embaixo.

O vento, soprando agudo e reverberando em todas as vidraças do condomínio, traz a massa cinza e densa mais para perto, puxando-a de trás das montanhas para o centro da avenida. Finas gotas se transformam em rios turbulentos percorrendo o asfalto e descendo a ladeira.

Depois, tudo seca, e o vento prossegue o seu trabalho de trazer novas tempestades. Água que começa serena e culmina em terror e caos, seguidos pelo silêncio e pelo azul. A intermitência de um dia nublado com chuvas esparsas, de acordo com a previsão do tempo.

A dança das nuvens se estende por todos os minutos ocupados da minha jornada de trabalho. Faço alguns planos, durante o breve almoço, a fim de preencher o dia assim que terminasse o serviço. Limpar a casa, ir à padaria e ao supermercado, depois voltar, preparar uma sopa quente, talvez assistir a um filme ou ler, enquanto o marido cria suas obras de arte. Um futuro próximo agradável, com certeza.

A pressa dos ponteiros do relógio é tanta que, num piscar de olhos, já não estou mais na mesa, almoçando, e sim de volta ao escritório, em frente ao computador, e já são três e meia da tarde. Os trabalhos já estão todos finalizados e entregues, e a impressão é a de que meu plano terá sucesso, enfim.

Já consigo sentir o gosto da sopa de legumes, o cheiro do pão quentinho, a sensação de dever cumprido e de tranquilidade, enquanto me aninho no edredom confortável em frente à TV, assistindo, ao mesmo tempo, a um filme e ao processo criativo das aquarelas do meu esposo.

Essa divagação me custa vinte minutos e, ao olhar para o relógio do computador, vejo exatamente quando os números três e cinquenta e nove se transformam em quatro zero zero. Ajeito as coisas no escritório e vou buscar os instrumentos para o segundo round de trabalho: aspirador de pó, rodo, panos, baldes, produtos de limpeza. Todos enfileirados aguardando serem convocados para suas tarefas específicas, as quais eles desempenham muito bem ao longo de três cômodos do apartamento.

Mais uma vez, o vento, agora estrondoso como nunca, causa uma agitação frenética nas janelas que balançam e produzem um ruído semelhante a um assovio diabólico, misturado ao vidro se chocando contra o ferro dos batentes. Dou pouco crédito a esse sinal, penso que é algo passageiro, e esse desdém logo se transforma em apreensão quando noto os pesados e imensos pingos manchando o vidro da sacada.

Maciças nuvens negras, aglomeradas, se dirigem com urgência até o outro lado da avenida, marchando imponentes no horizonte. Produzindo um espetáculo feroz e ao mesmo tempo assustador, a tempestade varre a cidade em questão de minutos, com ventos de mais de cem quilômetros por hora, segundo os noticiários. A luz começa a oscilar, vencida pela força dos raios e perde a batalha exatamente às cinco horas e doze minutos, quando olho no relógio da cozinha – movido a pilha e, por isso, ainda funcionando.

A essa altura, a sacada do apartamento parece uma cachoeira, assim como todas as outras janelas da casa. Com os pés encharcados e o rodo nas mãos, luto contra a água que escorre sem trégua por todos os orifícios disponíveis, corro loucamente em busca de toalhas e panos para conter o alagamento. Após muito esforço, desisto desta tarefa e passo a me preocupar com a escuridão que já toma conta de todo o apartamento.

Acendo todas as velas disponíveis, e somente após conseguir enxergar o estrago é que retomo a vã tentativa de colocar as coisas em ordem. Só Deus sabe o quanto detesto quando tudo está caótico.

Uma hora se passa. Duas, três, quatro, e nada de eletricidade. Tento ocupar o tempo com coisas relaxantes, tocando um pouco de violão, tomando um café, penso em ler, mas com aquela pouca luz e meus olhos cansados do computador seria mais cansativo do que prazeroso. Já são quase dez horas da noite, e ainda não temos como fazer nada além de aguardar – mesmo porque dormir sem tomar banho está completamente fora de cogitação.

Quando, enfim, meu marido profere a frase “Desisto, Zam, vou dormir“, magicamente todas as luzes se acendem e nós rimos por longos minutos. Se ao menos tivéssemos dito isso antes, talvez tivéssemos aproveitado a noite de outra maneira.

Ao longo das horas que se arrastam no escuro, reflito sobre como somos dependentes da eletricidade e como é difícil nos entretermos sem artifícios acionados por botões e ligados na tomada. Chego à conclusão de que não quero mais depender do abastecimento de energia feito por terceiros, e que, quando eu morar numa casa, vou montar um sistema de geração de eletricidade independente.

Nisso, uma pergunta me ocorre: por que precisamos pagar tanto pela eletricidade, se a luz solar é de graça, e é uma fonte de energia limpa e abundante, se não perene? Graças à ganância do ser humano, ficamos à mercê de todas essas coisas e essa noção me deixa com muita raiva.

Pondero a respeito da nossa dependência absurda de todos os tipos de tecnologia e, enquanto isso, um cenário se repete em minha mente. Um apocalipse zumbi. Não, melhor, uma catástrofe natural, como naqueles filmes 2012 ou O Dia Depois de Amanhã, que são mais prováveis que um bando de zumbis correndo soltos pelo mundo.

Acho que a maioria de nós pereceria, não por falta de recursos como água, comida e medicamentos, mas sim por não sabermos lidar com a falta da tecnologia, especialmente essa nova geração que não consegue nem acender um fósforo sem a ajuda do smartphone.

A humanidade seria extinta por falta de redes sociais, televisão, geladeiras, chuveiro quente, e não por um vírus mortal ou uma horda de seres sobrenaturais. Ficaríamos todos no escuro, sem saber como nos comportar, como homens primitivos fariam na frente de um computador.


Imagem: Anton Belashov

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