Ringo

Existem pessoas que são mais do que seres humanos, são personagens, entidades que conferem vida e cor às paisagens mais feias e cinzentas das nossas cidades. Elas se confundem às árvores, aos prédios, sobretudo às calçadas, onde geralmente passam a maior parte do tempo. Esses indivíduos acabam passando despercebidos por alguns de nós, talvez por se mesclarem tão bem ao cenário, ou por sua habilidade de se tornarem invisíveis para fugir das opressões do difícil cotidiano que enfrentam, mas, de quando em quando, eles tentam chamar a nossa atenção. Não necessariamente para pedir dinheiro, porque, apesar da falta de recursos materiais, para muitos falta mesmo é amor, compaixão, um olhar atento.

Na cidade de São Paulo, num cruzamento próximo à Av. Tiradentes, um lugar feio, barulhento, fedido, conheci um senhor muito simpático, sorridente e alegre, que passeia pelos carros estendendo a mão em busca de uns trocados. Ele não pede, acho que nunca o vi pedir, não como quem mendiga ou chora ou clama por migalhas, ele simplesmente sorri, cumprimenta e espera pela bondade ou generosidade automática que costumamos oferecer aos pedintes que nos abordam nas ruas. Da primeira vez que o vimos, há cerca de três anos, estávamos em nosso fusca 1983, o qual meu marido carinhosamente batizou de Ringo (o quarto Beatle, pois esse é o quarto fusca dele), e em cuja porta há uma pintura com os dizeres “Ringo. Vintage. The Fourth Beatle”. E, com muita alegria, sorrindo, esse senhor aproximou-se da janela do carro dizendo “Ringo! Ringo! Hello my friends!”. Após pronunciar algumas palavras em inglês – e não num inglês tosco, mas com certa fluência espantosa para um morador de rua, ele estendeu a mão, não para pedir, mas para cumprimentar meu marido. Demos algumas moedas a ele e, quando o semáforo abriu, ele se despediu com um caloroso “Goodbye, my friends!”, enquanto seu corpo desaparecia no espelho retrovisor. 

A partir de então, toda vez que passamos por essa rua, esperamos encontrá-lo, já preparados para oferecer alguns trocados. Um de nossos encontros mais engraçados foi quando, após ofertarmos a nossa ajuda em dinheiro, ele nos presenteou com uns objetos estranhos – os quais certamente encontrou em suas andanças pela cidade. No amontoado de coisas, havia cartões postais em branco, um pingente estranho, um broche de caveira e um anel meio retorcido. Tesouros que provavelmente fizeram companhia a esse andarilho bilíngue tão intrigante e peculiar.

Às vezes ele desaparece por vários períodos, e ficamos nos perguntando se está tudo bem com ele, onde estará, se está precisando de alguma coisa, assim como questionamos internamente quando não conseguimos entrar em contato com um amigo. Felizmente, ele sempre ressurge e nos presenteia com sua alegria contagiante e que sempre me faz refletir sobre a minha ingratidão em relação às coisas que tenho, aos confortos dos quais desfruto, e até mesmo em relação às pessoas com quem me relaciono. Imagino que deve ser uma vida bem solitária a desse senhor. Gostaria de saber sua história, de onde vem, por que vive nas ruas, se tem um lugar para dormir quando chove ou está frio.

E esses sentimentos são estranhos, porque ele é uma pessoa estranha, que sequer sabe o meu nome. E nem eu sei o nome dele. Passamos a chamá-lo de Ringo, graças à calorosa saudação com que ele nos brinda. Já faz alguns meses que não vamos mais de fusca para São Paulo e, ainda assim, o encontramos e ele nos saúda com muita alegria, ainda que sem nos reconhecer. É como se ele dissesse: “Bem-vindos à minha casa, a rua. Mais especificamente, essa esquina”. Hoje, quando o vimos ali passeando entre os carros, ele vestia um chapéu estranho, um blazer bem maior que ele, empunhava nas mãos encardidas e calejadas seu fiel companheiro, o cajado de madeira, e levava uma lanterna- não uma lanterna portátil, mas algo que se assemelhava a um holofote de chão, ou algo assim, não consegui decifrar direito, pois chovia e estava bem escuro. Só sei que, quando demos a ele os trocados de costume, ele quis nos dar essa lanterna em troca, num gesto de gratidão, como da outra vez com os badulaques e os cartões postais. E, enfim, ele nos reconheceu e disse “Ah, só podiam ser vocês!”.

Aquilo me deixou muito comovida. Como somos capazes de fazer conexões profundas com completos desconhecidos, com os quais nos encontramos tão rapidamente quanto o intervalo de um semáforo fechado, como perdemos tanto da vida ao passar em nossas bolhas pelos irmãos que caminham nas ruas e que, por vezes, só precisam de uma mão estendida, um olhar um pouco mais afetuoso, um acolhimento. E isso vai muito além de dar esmolas ou ajudar com bens materiais, mesmo porque esse princípio se aplica não só aos pedintes, mas a todas as pessoas que cruzam o nosso caminho. Os gestos de gentileza e caridade são como ondas, se espalham e podem transformar tudo.

Pode ser difícil conseguir não sentir medo dos moradores de rua na situação atual de violência e desconfiança, porém é preciso que os enxerguemos. Acho que aqui cabe o clichê não julgue o livro pela capa. Esses homens e mulheres invisíveis são pessoas como nós, com vivências, emoções, sonhos, virtudes, habilidades, e, no entanto, o que vemos é apenas um fragmento do que são, uma imagem deteriorada pelas desventuras da vida. Certamente, se os víssemos em roupas bonitas, perfumados e elegantes sentados numa mesa de um restaurante ou na fila do cinema, não os julgaríamos como vagabundos ou marginais, ao passo que existem muitos ladrões engravatados por aí e sequer olhamos torto para eles, os cumprimentamos com admiração, sem conhecer a sua verdadeira natureza, tomando-os por pessoas de bem só por se encontrarem em uma situação financeira confortável.

Enquanto estou aqui relatando essa experiência, recordo de todos os Ringos que já conheci, de todas as lições que esses irmãos me ensinaram. A mais importante delas é: faça o bem, sem olhar a quem. Pode não parecer muito, mas para aqueles que vivem sem ser reconhecidos como seres humanos, é um grande gesto.

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