Neuras universais

Uma atmosfera mística se forma quando duas ou mais mulheres se reúnem para confidenciar, falar sobre coisas que só nós sabemos, refletir sobre o mundo, trocar ideias e palavras a respeito de qualquer coisa, inclusive roupas, maquiagens e essas coisas que costumam fazer parte do nosso universo. Eu não tenho mais muitos desses encontros, graças à distância que me separa das amigas de infância e adolescência, que estão espalhadas pelo Brasil e pelo mundo, e, na maioria das vezes, essas reuniões costumam ocorrer no ambiente familiar – com a irmã, as primas, tias, cunhadas, mãe, sogra, avó. Embora pareça mais fácil se abrir com os membros do nosso clã, nem sempre é o que acontece. Ainda assim, parece ser bem fácil falar sobre o corpo, o que é ser mulher, os clichês que nos cercam e acabam por nos definir em nossas vidas cotidianas, as neuroses, inseguranças e os problemas comuns.

Hoje tive uma dessas experiências inusitadas. Uma amiga da minha cunhada trouxe roupas para vender no churrasco que fizemos, e fomos todas provar as peças no quarto, um típico clube da Luluzinha, composto por mulheres muito diferentes entre si, mas todas com uma neurose em comum: os fantasmas do peso e dos padrões de beleza. Dentre todas nós, certamente eu poderia dizer que sou a pessoa mais fora do comum, com o cabelo roxo, tatuagens e com muitos quilos extras, mas, estranhamente, acho que fui a única a não reclamar (tanto) da gordura, das roupas que não serviam, da dificuldade em emagrecer, e essas coisas que nos assolam quando olhamos no espelho para nos analisar.

por mais que a gente tente, parece que nunca está bom demais.
por mais que a gente tente, parece que nunca está bom.

Porque é bem isso que acontece, a gente não olha no espelho só para ver se está tudo combinando, a gente disseca o nosso corpo até não poder mais. Acredito que a grande maioria das mulheres, incluindo aí as bem-resolvidas e que se aceitam na maior parte do tempo, quando para em frente ao espelho, passa por momentos de tensão. Sempre há algo que podemos ou queremos melhorar, esticar, puxar, reduzir ou aumentar, alisar, esconder, salientar – justamente porque sempre existem dedos invisíveis apontando as nossas imperfeições e nos fazendo desejar um photoshop para o mundo real. É um processo de inspeção minucioso, no qual tiramos uma foto mental e a comparamos com todos os modelos de “mulher ideal” que circulam pelos meios de comunicação e no inconsciente coletivo, e é aí que mora o perigo, porque ninguém é igual a ninguém e tentar padronizar as pessoas é, além de improdutivo, cruel e injusto. Mas isso é assunto para outra postagem.

Voltemos àquele quarto, às roupas espalhadas na cama, ao espelho cruel e acusador. Conforme íamos escolhendo as belas peças que nossa amiga nos apresentava, o pânico de constatar que a peça não cabia, que somos inadequadas, menos perfeitas do que deveríamos, pairava no ar. Uma de nós dizia que os seios são grandes demais, outra reclamava por ter quase nada para rechear o decote, outra dizia que os seios não eram mais os mesmos após amamentar dois filhos. O assunto revolveu exaustivamente em torno de estrias, celulite, dietas, tratamentos de beleza, exercícios físicos e, por último, como gostaríamos de conseguir nos livrar dessa neura toda – ou, então, como seria legal termos nascido perfeitas. Na verdade, nós somos, apenas não conseguimos enxergar isso direito.

Os vestidos, as blusas, as calças, se confundiam às nossas inseguranças, e nos apontavam os defeitos que todo o resto do mundo aponta: gorda demais, magra demais, peituda demais, despeitada demais, rugas demais, cabelos de menos, pelos demais. Somos sempre demais ou de menos, quando se trata de medidas corporais e atributos físicos. E essa sensação de inadequação permeia todas as esferas da nossa vida, desde o ambiente de trabalho até a vida doméstica.

Vestir-se de acordo com o código aceito nas empresas pode ser algo complicado. Aquela blusa é muito transparente, esse vestido é muito curto, eu não usaria essa calça no trabalho, talvez para sair, mas também não sei, minha bunda é grande demais, olha só minhas pernas como são gordas, minha canela é muito fina, meus braços são flácidos, eu queria ter a sua bunda, ai como eu queria ter o seu cabelo. Caramba, como é exaustivo simplesmente existir, se olhar no espelho e vestir uma peça de roupa! Talvez esse não seja um drama exclusivo do sexo feminino, porém, como sou mulher, é essa a experiência que vivo praticamente toda vez que abro o guarda-roupa para sair de casa – e toda vez que converso com uma mulher, percebo que não estou só.

Ficamos ali no quarto por muito tempo, talvez uma hora, num frenesi de informações e desabafos que foi interrompido pelo marido da nossa amiga, que trouxe consigo o filho que já sentia a falta da mamãe. Foi irônico ele aparecer ali instantes após sua esposa confidenciar que não tinha tempo para si mesma e isso a frustrava um pouco, porque ela não sabia como equilibrar os cuidados com o filho de cinco anos, o filho de nove meses, que demanda toda a sua atenção por ser uma criança muito especial – cuja história certamente merece um livro – os cuidados com a casa, o casamento, sua vida, seu trabalho e sua saúde. Aquela mulher merecia um prêmio de super-heroína, uma mulher-maravilha de carne e osso e sem roupas coladinhas sensuais. Uma mulher a se admirar.

Após experimentar vários vestidos e blusas, enquanto me vestia com minhas roupas já um pouco batidas, olhei para todas elas com um sentimento de sororidade que jamais sentira por mulheres que, embora sejam da minha família, não têm o mesmo sangue que eu. Eu olhei para cada uma delas, tão lindas, fortes, corajosas, inteligentes, pensei em suas conquistas, todo o caminho que trilharam até ali, todas as vezes que, como eu, choraram por se sentirem inadequadas ou inferiores, e a minha vontade foi dizer “eu amo vocês”. Acho até que disse em voz alta, mas talvez não tenha sido ouvida, porque o ruído que zumbia em nossos ouvidos era “feia, feia, feia, imperfeita, demais, de menos”. Tive vontade de abraçá-las, mostrar-lhes como aquele espelho era ridículo, ou até mesmo quebrá-lo, num gesto libertário de revolução. Dizer o quão perfeitas elas são, nós somos, e como a verdadeira beleza que todas nós temos nenhum espelho é capaz de mostrar – a beleza de sermos únicas, diversas, incríveis, admiradas.

Da próxima vez, vou deixar a neurose de lado e tentar ser o contraponto nesse redemoinho de inseguranças que nos consome. E se você que está lendo isso sofre com essas aflições, saiba: você é perfeita, sem tirar nem por. Nem mais, nem menos.

Acredite!
Acredite!

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