Turbilhão

Agosto foi um mês deveras turbulento. No geral, as coisas ocorreram dentro da normalidade, teve trabalho triplicado, teve cansaço, teve alegria, sim, mas a turbulência não se refere à minha vida pessoal, no sentido prático. Ela se formou no campo mais abstrato e impalpável, o plano das ideias, do pensamento, da busca pelo conhecimento. Apesar de eu não ter produzido o tanto de textos que gostaria, de não ter tido, ainda, a coragem de divulgar em larga escala o meu projeto e essa jornada de oitenta e poucos textos, sinto-me viva como nunca, uma corrente elétrica faiscando entre as nuvens no meio de um tufão. Li muitas coisas, me aventurei pelo campo das ciências, voltei a digerir os livros como devem ser, com calma, com apreço e sede de conhecimento, enquanto, dentro de mim, os novos lampejos de criatividade se multiplicam exponencialmente.

Desde que me voltei para dentro de mim e passei a dar atenção àquilo que penso, que retornei ao reino das palavras, permitindo que minha mente vagasse livre pelo universo das ideias, a viagem tem sido tortuosa. É como se todos os pensamentos, questionamentos, divagações, tudo que ficou trancafiado esse tempo todo na minha mente estivesse jorrando sem parar, num contínuo fluxo desordenado de palavras, ideias, projetos, textos, personagens. E eu não tenho controle algum sobre isso, embora desprenda, também, muito tempo tentando buscar uma maneira de fazê-lo.

Muita coisa a dizer, e tão pouco tempo...
                                  São muitas as palavras esperando para serem colhidas….

Antes eu reclamava que não tinha inspiração, que me faltavam temas, ou mesmo experiências que me levassem a escrever, agora não tenho tempo para desenvolver os intermináveis sopros da Musa, que tem sede de ser ouvida. Release the Kraken, ela diz, e me dá coragem para ousar dizer qualquer coisa que julgar necessário – inicialmente, para mim, e segundo o meu critério, já que não sou paga para isso e tenho toda a liberdade criativa do mundo. A princípio, pensei que seria fácil, que seria uma maré tranquila, um processo bem lógico de sentar em frente ao computador e escrever o que viesse à cabeça, ou algum tópico pré-estabelecido, sem nenhum tipo de consequência, mas engana-se quem acredita que escrever é um ato meramente mecânico e objetivo. Ou, ao menos, não é assim que funciona para essa que vos escreve. Quando escrevo, é como se algo dentro de mim morresse um pouco, ou se tornasse mais vivo ainda do lado de fora, não sei bem discernir. Conheço-me mais a cada frase que completo, a cada texto, publicado ou não, a cada linha mal-escrita nos cadernos outrora esquecidos.

Todos os músculos do meu corpo trabalham incessantemente quando estou aqui concentrada nessa tarefa exaustiva. Os pensamentos não me dão descanso, me despertam  no meio da noite e me obrigam a tomar notas, com as quais não consigo trabalhar no dia seguinte, porque o momento passou. Cheguei a cogitar ceder a esses chamados, e até ousei tentar desenvolver algumas linhas de raciocínio que me acordaram na madrugada, mas as palavras também pregam peças e nesse momento, dizem: “te peguei!” e voltam a dormir, enquanto meu corpo se debate na cama, tentando esquecer que faltam poucas horas para um novo dia. E, quando amanhece, me percebo afogada em outro turbilhão de informações, conceitos, revelações, e o tempo é escasso para digerir tudo isso e colocar no papel, ou no blog, ou em arquivos do word. no fim das contas, acabo escrevendo qualquer coisa, o que é um crime. Certas epifanias precisam ser muito bem digeridas.

Dia desses, estava conversando com meu marido sobre as maravilhas do mundo da física – que tem me interessado fortemente nos últimos tempos – e, sorrindo, ele me disse como achava legal a minha empolgação a respeito dessas coisas novas, que era como se eu estivesse envolta num turbilhão, ou algo assim. Sem querer, ele acertou em cheio. Sinto-me perdida em meio à constante enxurrada que transborda o meu ser, tanto das ideias que fluem para dentro de mim quanto aquelas que se apressam para sair. É um sentimento que beira a loucura e que me assombra toda vez que estou em algum estado de repouso – e, por repouso, quero dizer “quando não estou trabalhando”, incluindo aí os momentos que antes me serviam de higiene mental, como a corrida ou assistir a algum filme.

O que, aliás, tem se tornado igualmente turbulento. Já não consigo mais assistir a nenhum programa de televisão ou filme ou documentário sem que as ideias comecem a martelar nos recônditos do meu crânio, pulsantes e febris, desejando serem destrinchadas, esmiuçadas, elaboradas de forma inteligível. É uma verdadeira viagem e, dentro dela mesma, acabo me perdendo um pouco mais. Me pego, às vezes, pensando sobre o próprio ato de pensar, vivo coisas que não vivi, na realidade, ao longo do dia, através dos personagens que brotam e dizem “Estamos prontos para nascer”. Eu lhes suplico por paciência, no entanto eles costumam ter o pavio bem curto e só me deixam em paz quando ganham vida. Seria fácil, então, acabar com esse furacão, esse vento impetuoso – bastava parar e escrever até os dedos caírem. E, honestamente, se eu tivesse condições para isso, eu o faria, sem pestanejar.

Comecei a ler algumas biografias de escritores, relatos sobre o ato de escrever, e percebi que não estou sozinha. Mas a maioria dos escritores contemporâneos possui processos muito específicos, organizados e metódicos, e eu fico imaginando como serei capaz de transformar esse meu impulso de escritora amadora em algo digno desse título, se será através da organização ou do caos. Quando divago sobre os grandes pensadores, os escritores geniais de nossos tempos e do passado, não canso de me perguntar se sofrem da mesma maldição de se sentirem o tempo todo esmagados por uma muralha abstrata.

Esse turbilhão, essa torrente que, hoje, me parece inesgotável, composta por tudo aquilo que ainda irei desenvolver, os textos em processo de amadurecimento, o conhecimento que tenho adquirido, as vivências, a maturidade, os projetos, os sentimentos, os pontos de partida, os gatilhos para reflexões, todo esse universo que fervilha e borbulha dentro de mim, é algo que tenho esperado há muito tempo. É um sopro de vida, uma nascente no meio do deserto.

E, embora às vezes seja difícil me segurar à realidade, a fim de não ser sugada por tudo isso e viver no isolamento, eu espero que esse turbilhão não seja assim tão passageiro.

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