A utopia, ao contrário

Parece que a distopia é a grande febre do momento – e, por momento, eu me refiro ao nosso século – retratando realidades quase impossíveis, uma humanidade despedaçada tentando se restabelecer e reconstruir, buscando talvez a própria definição de humanidade. Desde 1984, de George Orwell, até os mais recentes DivergenteJogos Vorazes, a literatura distópica tem se tornado uma presença forte nas prateleiras das livrarias e no imaginário de todos os amantes de livros e cinéfilos – sem falar nos vídeo-games, que também nos apresentam mundos totalmente distópicos.

A princípio, podemos imaginar que esse gênero não passa de um subgênero dentro da própria ficção científica, e que deveria ser tratado como tal, principalmente em casos de filmes como MatrixMad Max. No entanto, a literatura distópica, e, por conseguinte, os filmes que abordam essa temática, vão muito além da simples fantasia e promovem não só um entretenimento com base na imaginação e no extraordinário, tal qual o faz a ficção científica. As distopias nos levam a questionar a sociedade, os governos, o modo como nos organizamos e relacionamos com o ambiente em que vivemos e com as pessoas, principalmente com as autoridades. Esses mundos destroçados nos ajudam a olhar para a nossa realidade e indagar se estamos mesmo tão distantes assim, ou então o quão perto estamos de vivenciar uma experiência como a retratada nessas narrativas.

As máscaras de Guy Fawkes em V de Vingança. Mas poderia ser também uma passeata dos Anonymous.
As máscaras de Guy Fawkes em V de Vingança. Mas poderia ser também uma passeata dos Anonymous.

Distopia significa exatamente o contrário de Utopia que, por sua vez, quer dizer mais ou menos “um bom lugar que não existe”. A Utopia é tudo aquilo que gostaríamos de vivenciar, em se tratando de sociedade, a saber: paz, igualdade, justiça, segurança, fartura, educação, esperança, conforto, etc., ao passo que a Distopia é o contrário de tudo isso, ela seria um “lugar ruim que não existe”, repleto de caos, violência, manipulação de massas, opressão, injustiças, fome, escassez de recursos, pessimismo, etc, tudo ao extremo. Da mesma forma que o discurso utópico nos ensina a vislumbrar a realidade que desejamos e, com isso, nos capacita a exercitar a esperança e o otimismo, como se pintando um quadro de um mundo ideal pudéssemos construí-lo com o esforço coletivo, a distopia, retratando uma improvável realidade sombria, estabelece parâmetros do que não fazer, tendo como um dos principais pontos de reflexão o papel de cada um de nós frente a uma autoridade totalitária e tirana.

Se pararmos para pensar, globalmente falando, a distopia não foge muito à realidade de algumas nações e, a meu ver, é por isso que se diferencia da ficção científica. Embora o discurso distópico seja a antítese da utopia, sabemos que o que é utópico está bem distante de tudo o que conhecemos. Já o distópico se apresenta bem mais real, se levarmos em conta a trajetória da humanidade. Quando lemos um livro como V de Vingança, por exemplo, ou até mesmo o 1984, identificamos elementos de regimes como o nazismo ou o fascismo, que foram bem reais e mancharam de sangue as páginas dos nossos livros de história. Para aqueles que sofreram nas mãos de Hitler ou de Mussolini, essas narrativas trazem más recordações de uma realidade bastante palpável e possível, enquanto para nós, que vivemos no conforto de nossas sociedades democráticas, essas narrativas talvez sejam um tanto quanto exacerbadas.

Ainda assim, essas histórias distópicas dialogam intimamente com o nosso medo de perdermos a liberdade, a fartura, o conforto de que desfrutamos, enquanto consumidores de literatura e cinema. É impossível, na minha opinião, se deparar com um filme ou livro dessa temática e não cair numa reflexão profunda sobre como alguns cenários seriam bem possíveis caso as variáveis que regem nossa sociedade se transformassem só um pouquinho. Para um espectador desatento, Mad Max pode ser apenas um filme maluco que narra a história de um personagem vivendo num mundo bem diferente do nosso.  Entretanto, basta uma leitura um pouco mais crítica para concluir que o universo do Mad Max é o mesmo em que vivemos, e as lutas e os conflitos que seus personagens enfrentam são bem semelhantes ao que vemos nas manchetes dos jornais, especialmente nas regiões mais pobres do planeta. No caso de Matrix, embora a ideia de máquinas escravizando os humanos, ou até mesmo a noção de que essa realidade não é, de todo, real, nos pareçam coisas absurdas, o advento do filme parece ter fomentado muitos debates sobre tecnologia, inteligência artificial, realidade virtual, conhecimento da verdade, universos paralelos, entre tantos outros.

Isso era para ser um alerta, e não um manual!
Isso era para ser um alerta, e não um manual!

No universo de 1984, um governo totalitário utiliza vários meios para controlar a população, inclusive o mais óbvio de todos: o monitoramento. Sabemos que recentemente o governo dos EUA utilizou sua agência de segurança para monitorar todas as atividades de comunicação de indivíduos, empresas e até mesmo outros governos, não só dentro de seu território, como também em várias partes do mundo. A primeira coisa que pensei quando começaram a surgir as notícias a respeito dessa tremenda invasão de privacidade disfarçada de “questão de segurança nacional” foi que o Obama deve ser um grande fã de Orwell, tanto que está tentando colocar em prática o lema “Big Brother is Watching You”.

Piadas à parte, a nossa realidade tem se mostrado cada vez mais próxima das distopias e talvez esse seja o motivo do sucesso desses livros e filmes. Estamos tentando compreender o nosso mundo, constantemente e, mesmo que sejamos apenas leitores em busca de entretenimento, o mistério que paira sobre os universos distópicos é tão desconhecido quanto familiar.

A grande pergunta que insiste em martelar dentro de mim sempre que leio um livro ou assisto a um filme distópico é: quando? Para pessimistas como eu, um mundo distópico está sempre batendo à porta, basta uma leve alteração em alguma das variáveis da nossa vida em sociedade para que a utopia seja, cada vez mais, uma realidade muito distante e improvável. Olhe ao redor, finja que está orbitando em volta da Terra e assistindo, como num programa do Big Brother, a todas as coisas absurdas que já acontecem no nosso mundo, e reflita: estamos mais próximos de uma utopia, como o Paraíso bíblico, ou de Mad Max1984DivergenteJogos Vorazes…?

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