Pequenos grandes ensinamentos

Hoje fui assistir à animação do consagrado “O Pequeno Príncipe”, um livro tão simples, mas que cativou incontáveis fãs em todo o mundo. É incrível como um texto tão singelo, com desenhos pouco elaborados e linguagem pouco erudita, foi capaz de ganhar tanto espaço na cultura ocidental e permanecer vivo por tanto tempo.

Talvez seja justamente pela simplicidade profunda de sua mensagem mais importante: O essencial é invisível aos olhos. 

uma das lições mais belas do Pequeno Príncipe
uma das lições mais belas do Pequeno Príncipe

O livro está todo pautado na premissa do que não se vê, desde o desenho da cobra até o carneiro invisível dentro da caixa, que o aviador desenha para o principezinho. E tantas outras metáforas, tão atuais, comprovando que não é necessário ser um mestre das letras para escrever algo que toque ao coração das pessoas.

E, meu Deus, como estamos precisando disso. De coisas que nos toquem, nos movam e nos ajudem a sonhar novamente.

O filme não trata somente da história do livro, é mais uma história dentro da outra. A narrativa é delicada e precisa, os elementos são muito bem escolhidos, inclusive as técnicas de animação utilizadas para diferenciar a história escrita pelo aviador – a original do livro – e a história principal da adorável menina que voltou a ser criança, graças a essa mesma história. Presa em uma vida de tarefas e expectativas impostas pela mãe, a menina se encanta pelo atrapalhado vizinho sonhador, que deseja reencontrar o Pequeno Príncipe.  E ela transforma a vida do aviador idoso, e vice-versa. É um filme lindo, que merece ser visto e revisto, assim como esse livro, que merece ser lido e relido de tempos em tempos.

Em meio às pipocas, as risadas, ao falatório das crianças que enchiam a sala de cinema, eu me vi novamente com oito anos de idade, talvez mais, ou menos, quando entrei em contato com o principezinho pela primeira vez. Não através das letras, mas do musical lançado no fim dos anos 1970, que, de uma forma muito sagaz, coloca todos os personagens como pessoas. Exceto pela rosa, que é uma rosa, com a imagem de uma mulher projetada em sua face.

Lembrei-me da doçura do pequeno menino loirinho que interpreta o Príncipe nesse clássico, do Gene Wilder interpretando a raposa, de como eu me diverti e absorvi todas aquelas mensagens, mesmo sem saber. E ali, no escuro, sentada em minha confortável poltrona e ouvindo as crianças sorrirem na fileira de trás, senti uma pitada de vergonha por ter me irritado com elas no início da sessão.

Eu era a adulta que não entendia nada, que cresceu e se esqueceu, como os adultos fazem geralmente. Que precisa de explicações para tudo. Que não tem tempo para nada. 

Essa foi a primeira vez que chorei durante a exibição. Em seguida, foi como se uma grande torneira de emoções tivesse sido aberta e eu me vi com dificuldade de enxergar em meio às lágrimas. Sem exagero. Olhei para os lados e vi um menino no corredor, girando com os braços abertos, viajando no seu mundinho de imaginação e simplesmente sendo criança.

Novamente, a vergonha, por pensar que era um absurdo a mãe desse menino não repreendê-lo, que se fosse meu filho talvez levasse alguma bronca, e a vergonha se duplicou pela recordação de uma cena de alguns minutos atrás, em que uma mãe gritava ensandecidamente com o filho, que não a obedecia. Que tipo de mãe eu seria, comecei a indagar, já envolta nessas preocupações ridículas de “o que vão dizer se meu filho não me obedecer”, entre outras.

Meu coração se encolheu quando pensei em como estamos perdendo a capacidade de sermos crianças. E não no sentido da imaturidade, mas de conseguir perceber as coisas que são essenciais, porém que não podemos ver com os olhos. A beleza de uma borboleta, de um por do sol, dos momentos compartilhados com quem amamos.

Só se vê bem com o coração. Será que nos tornamos assim tão cegos?

Só se vê bem com o coração....
Só se vê bem com o coração….

O Pequeno Príncipe me ensinou a olhar uma rosa e pensar “essa é a minha rosa” e amá-la com todas as forças, mesmo que existam milhares de rosas por aí, porque essa é a minha rosa, e o fato de eu ter cuidado dela e a regado e amado e protegido é o que a torna tão especial. É o tempo que gastamos amando as pessoas que as tornam tão especiais, que criam os laços e vínculos duradouros. No entanto, somos vaidosos, como o homem que só queria aplausos, ou então somos orgulhosos, como o rei que desejava súditos, ou gananciosos, como o homem de negócios.

E o que estamos fazendo com o nosso tempo, especialmente com relação às crianças? A mentalidade materialista diz: ocupem as crianças! Transformem esses pequenos seres em adultos em miniatura, para que sejam produtivos e essenciais à sociedade. Ensinem essas pequenas pessoas a obedecerem, a se conformarem, a caminharem em fila e sentarem em cubículos, cumprirem tarefas, gastarem todo seu tempo com coisas.

Na enorme tela do cinema, a menina está prestes a ser obrigada a crescer, mas é salva pelo Pequeno Príncipe. Ela e o aviador se tornaram grandes amigos, e isso me faz chorar de novo. Perdi a noção do tempo e retornei à minha adolescência, na primeira vez que li o livro e me senti como a menina da história. Olhei para o lado e minha enteada, como eu, estava chorando. Foi um daqueles momentos mágicos em que você pensa, eis aqui uma metáfora materializada. Coloquei meus braços ao redor dela, acariciei seus cabelos, como se dissesse em silêncio “eu te entendo”. É muita coisa para uma menina de onze anos processar.

Ao final da sessão, saí meio triste, meio feliz, meio transformada. Lembrei-me do diálogo entre o Príncipe e a Raposa, em que ela diz:

Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens também. E isso me incomoda um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. Os teus me chamarão para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim não vale nada. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos dourados. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará com que eu me lembre de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo….

E também sobre como temos a necessidade de cativar e de sermos cativados, e como é importante se lembrar, sempre, de que é necessário perder tempo, todo o tempo do mundo, se for preciso, para cativar alguém. E que, embora a gente cresça, e embora seja inevitável nos tornarmos adultos, o importante é não nos esquecermos da simplicidade das coisas, sobretudo da importância daqueles que nos cativam e dos que cativamos ao longo do caminho.

O essencial é invisível aos olhos
Por causa da cor do trigo….

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