Sete dias de escuridão

Fechou os olhos, como se fechasse as portas para a vida, numa vã tentativa de apagar das retinas todas as imagens e os acontecimentos do dia. A noite chegava de mansinho, escondendo o sol por trás das cortinas e deitando seu manto negro sobre o mundo.

Recostou o corpo cansado na poltrona lentamente, com sua almofada favorita nas costas. Apoiou os pés sobre um belo banquinho estofado de couro, ajeitou um copo de conhaque sobre a mesa de centro, tomou o cachimbo em uma das mãos, pronto para ser aceso pelo isqueiro que segurava na outra.

O aparelho de som tocava sua ópera favorita, os instrumentos e as vozes lavavam de sua alma todas as mazelas do cotidiano. O dia no escritório o havia consumido, e sua rotina de cafezinhos e almoços com clientes se tornara um verdadeiro pesadelo entediante. E isso o levava à outra rotina, de bebidas, charutos ou outros fumos, jantares silenciosos com sua esposa, além de tentativas frustradas de satisfazê-la na cama.

Ele bem desconfiava que ela estava tendo um caso, pois há meses sequer o procurava ou lhe dirigia palavras doces. Ou então, pensava, ela cansou de tentar, já que era comum o homem adormecer antes que a esposa chegasse a se deitar.

O homem tão orgulhoso jamais se entregaria aos remédios ou admitiria que era velho ou impotente. Mesmo com os fios de cabelo e os pelos do corpo tingidos de branco, mesmo com o princípio da calvície e todos os outros sinais que o organismo exibia.

Os filhos o procuravam apenas para resolver seus problemas, pedir dinheiro emprestado – que nunca devolviam – ou para solicitar que ele exercesse sua influência política e comercial.

Mas, ali, naquele momento, só existia ele, a ópera, a sala vazia, o escuro abrigo da noite e o seu cachimbo adocicado. Todas as suas preocupações se transformavam em nuvens de fumaça exaladas com um gemido longo e cansado.

O tenor cantava, com sofrimento, força e veemência, e suas mãos, com o cachimbo na esquerda e o conhaque na direita, balançavam no mesmo ritmo, como as de um maestro regendo uma orquestra em silêncio. Permaneceu assim, de olhos cerrados, por um bom tempo, perdido nas lamentações de um homem que perdeu o amor após uma doença.

Ópera é uma coisa triste, pensou, enquanto tomava um gole quente do conhaque e o pousava, com precisão, sobre a mesinha de centro, com os olhos ainda fechados. Tentou abri-los. Não conseguiu. Suas pálpebras estavam grudadas, como se alguém tivesse lhe pregado uma peça, passando uma cola poderosa enquanto ele apreciava a solidão esfumaçada de sua ópera e recarregava as energias.

Levantou da poltrona com urgência, tropeçando no maldito banquinho, que tombou para o lado e levou consigo a mesa de centro, o copo, o conhaque importado. Não podia enxergar nada, apenas a meia-luz do abajur que trespassava a pele encobrindo seus olhos. Ouviu passos no corredor, e uma voz inquirindo sobre o acontecido.

Pelo amor de Deus, mulher, não consigo abrir os olhos, venha logo. Ela, segurando o riso, recolheu o copo caído e ajudou o marido a se acalmar, tomando-o pelos braços e levando-o até o outro cômodo. Até que era gracioso observar aquele homem prepotente aceitando sua ajuda, para variar. Ele era bem grande, um homem sério e carrancudo, mas, por vezes, parecia um menino emburrado, principalmente quando algo dava errado.

Assim, os dias se passaram. Ele, sem conseguir abrir os olhos, ela finalmente sentindo que o marido a valorizava. Como não podia enxergar, ele passou todo o tempo ao seu lado, em casa, coisa rara antes da perda da visão. Ela preparava o café, o almoço, o banho, o jantar, a cama, a ópera, e ele agradecia com os gemidos que outrora expressavam apenas o cansaço e o tédio. Agora, eram de prazer.

Ela não precisava preparar o conhaque, pois ele já não sentia mais tanta necessidade daquela solidão e dos fumos. Gostava de precisar da ajuda da mulher. Os filhos, preocupados e intrigados, faziam visitas diárias, acompanhavam o pai ao médico e aos laboratórios para realizar todos os exames que o dinheiro podia pagar.

Era como se ele, ao perder a visão, tivesse se tornado visível para os outros mais uma vez. Deixou o seu assistente encarregado de todos os negócios e, pela primeira vez em anos, não sentiu aquela pontada no estômago por se preocupar com o que poderia dar errado. Isto o surpreendeu.

Ao final da semana, ao meio-dia, quando a mulher o ajudava a se preparar para o almoço, ele a convidou para um passeio no parque. Aquele, em que nos conhecemos. Ela, eufórica, calçou os melhores sapatos, vestiu o seu vestido preferido, perfumou-se e beijou o esposo com paixão. Ali mesmo, ele a despiu com cuidado, e, dessa vez, ela não se irritou. Antes, provavelmente o xingaria, “onde já se viu querer fazer isso na hora do almoço, e logo agora que eu acabei de me arrumar?” Mas naquele instante quente, não abriria a boca.

Fizeram amor no banheiro, ignorando a voz da empregada que anunciava a refeição. Ela, feliz como nunca, chorou de felicidade e viu no semblante do esposo o mesmo amor do dia em que se conheceram. Eu te amo. Também te amo.

Vestiram-se às pressas e após o almoço, ela o viu piscar. Mulher, eu consegui. Estou de olhos abertos. Silêncio. Uma pitada de tristeza em seus semblantes.

Após tantos dias sem olhar para o que o cercava, ele viu o quanto era feio o seu rancor pela existência. Era escuro, lodoso. Uma praga que aos poucos encontrou no amor e no cuidado o seu antídoto.

A mulher não estava tendo um caso, como ele suspeitava. Os filhos, como ele pôde perceber, se importavam com ele mais do que podia imaginar. O assistente era competente, e relatava todos os acontecimentos do dia com detalhes ao visitá-lo no final do expediente.

Ele entendeu que sua infelicidade não estava fora, e sim dentro. Seu olhar é que estava desfocado. Mas a partir de então, ele passou a enxergar a vida de verdade. Com os olhos de um coração curado.

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