Medicina sem noção

O que está acontecendo com os médicos dos nossos tempos? Essa é uma pergunta que parece não ter muita resposta, ou cuja solução é uma verdade que ninguém quer nos contar, pois talvez não estejamos preparados para ouvir.

Certamente, visitar um consultório médico é uma das coisas mais chatas que existe, desde procurar um bom doutor que atenda o seu plano de saúde, até conseguir marcar uma consulta e, em seguida, a consulta em si. Ficamos horas na sala de espera e, quando entramos, a visita dura menos do que o tempo em que ficamos lá fora lendo revistas ou jogando tetris no celular. E, é claro, não podemos nos esquecer dos exames, que costumam ser bastante desagradáveis. Muitas pessoas torcem o nariz quando precisam fazer um checkup de rotina ou quando a saúde enfraquece e a visita ao médico se torna inevitável, e eu acho que me incluo nessa categoria de pessoas que não gostam muito dessa experiência. E os médicos e enfermeiros não têm ajudado muito nesse sentido.

Marcou pras dez horas? Te vejo às dez e quarenta e cinco.
Marcou pras dez horas? Te vejo às dez e quarenta e cinco.

Confesso que não tenho tido muita sorte nessa área e todos os doutores com quem me consultei nos últimos cinco anos têm me mostrado um novo patamar de ignorância e falta de empatia. Tive que enfrentar uma médica que não tolerava um minuto de atraso da minha parte, embora ela mesma se atrasasse mais de quarenta minutos para me atender todas as vezes. Sem quase olhar para minha cara, sem fazer os exames ginecológicos preventivos, os quais eu solicitei, sem nenhum tato, essa médica me mandou voltar apenas quando tivesse conseguido fazer um exame para o qual ela não me deu uma guia válida, e que eu só podia fazer com um médico específico que tinha uma fila de espera de três meses. Tentei insistir um pouco para que ela fizesse pelo menos o papanicolau, que já fazia mais de um ano, porém ela se recusou mais uma vez e disse que não era obrigada a perder seu tempo comigo se eu não tinha feito os exames que ela pediu. Conclusão: estou à procura de uma nova ginecologista, e não está fácil achar aqui na minha cidade uma médica decente, que seja do meu plano de saúde.

Uma coisa bem desagradável já aconteceu com meu primo que, após um fim de semana de excessos, sentiu muita dor de barriga, enjoo e febre, e, no pronto atendimento, o diagnosticaram com apendicite quando, na verdade, ele só estava com o organismo saturado de tanto comer besteira. Se a minha tia não tivesse interferido, é bem provável que o tivessem operado e tirado um apêndice totalmente saudável (embora desnecessário), e toda a cirurgia teria sido em vão. Atentem para o detalhe de que esse diagnóstico de apendicite foi feito sem nenhum exame de sangue ou ultrassom.

Em contrapartida, fiquei sabendo de um caso em que uma adolescente, por falta de diagnóstico correto, está internada há dois meses no hospital, com falência múltipla nos órgãos. Ela apareceu com dores no abdômen no pronto-socorro municipal e, após um exame de dois minutos, o médico disse que era virose e receitou uns remédios quaisquer. Como a menina não melhorava, a mãe a levou em um médico particular, pagou pela consulta, e teve a triste notícia. Não sei o que aconteceu com ela, mas desconfio que o desfecho não tenha sido lá dos melhores.

Vem aqui, vou consertar você #sóquenão
Vem aqui, vou consertar você #sóquenão

Essas são apenas algumas amostras de como a medicina, embora muito avançada em nossos tempos, está longe de ser eficaz. A falta de noção, ou de atenção, de muitos médicos acaba afastando os pacientes das consultas preventivas, o que dificulta os diagnósticos das doenças mais graves nos estágios iniciais. E isso tudo se deve a uma coisinha bem simples de resolver: a falta de cuidado. E não me refiro a maus tratos ou falta de materiais, ou negligência, propriamente dita. O cuidado que falta está atrelado à falta de tempo, à pressa com que os médicos nos atendem e como não fazem a mínima questão de conhecer o paciente que está ali buscando orientação. E eu nem vou comentar sobre enfermeiros que fazem exames, porque tem alguns que não sabem a diferença entre um ser humano vivo e um cadáver das aulas de anatomia.

Parece que tudo hoje em dia é voltado para o tratamento dos sintomas, sem importar a causa do problema. Se você aparece no médico com uns quilos a mais, a primeira coisa que ele vai fazer é dizer que você precisa emagrecer – sem nem mesmo pedir exames, como se a própria gordura, em si, fosse a doença. Você poderia ter uma disfunção na tireoide ou algum desequilíbrio hormonal, que podia ser tratado, e não seria necessário fazer uma dieta para perder os quilos extras. A impressão que eu tenho é que os médicos não querem ajudar, e sim fazer a fila andar.

Antigamente, nós tínhamos os médicos da família, que acompanhavam a pessoa desde o nascimento até o fim da vida, praticamente, conheciam toda a rotina, os hábitos, o histórico de doenças, e, mesmo com poucos recursos, faziam o melhor para cuidar da vida daquele paciente. Hoje, temos recursos quase infinitos, mas não temos esse vínculo, essa relação próxima que permite que o médico nos compreenda de forma holística, e não apenas pontual, caso a caso.

É claro que com o crescimento da população, os grandes centros urbanos, o cotidiano movimentado que temos hoje fica bem difícil seguir esse modelo de medicina do passado, especialmente com o alto preço de tudo que envolve cuidados médicos. E se você tem um plano de saúde e seu médico de confiança resolve não fazer mais parte desse convênio – o que já aconteceu comigo algumas vezes –  ou você tem dinheiro sobrando para pagar as consultas e os exames por conta própria, ou você tem que se submeter a um desconhecido e começar tudo de novo.

Eu resolvi escrever isso hoje porque preciso marcar minhas consultas de rotina, porém estou com dificuldade em encontrar um médico que me enxergue como ser humano, que passe mais tempo olhando para mim do que para o computador, que me escute quando reporto os sintomas, que se interesse pelos aspectos relevantes da minha vida e que não tente resolver tudo somente com pílulas pelas quais ele recebe comissão.

Fica aqui o meu protesto, por uma medicina mais humana e que se importe, de verdade, com os pacientes.

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