Balanço

Estive tentando compreender o motivo da falta de disciplina que me acometeu nos últimos tempos. Deixei um pouco de lado o hábito de escrever aqui todos os dias, porque o tempo é um luxo, é o bem mais precioso que alguém pode ter nessa vida de meu Deus. E, como todos os outros seres humanos, ele também me falta. Mas não é bem a ausência do tempo, em si, e sim o fato de não saber aproveitá-lo da maneira mais eficiente.

A coisa mais difícil para uma pessoa meio atrapalhada como eu é conseguir manter os horários de forma organizada e constante, cumpri-los, segui-los à risca. Não quando se trata de compromissos com os outros, como já falei em outro texto-vômito-diarreia verbal que postei aqui, mas quando tenho um horário marcado comigo mesma. Há algum tempo que já não me dedico tanto às coisas que me fazem bem e que gosto, e que não convém enumerar nessa oportunidade, talvez em outro momento. O fato é que eu estou me sentindo atrasada com relação às minhas metas pessoais e não sei como fazer para colocar tudo isso em dia.

Existem pessoas as quais eu admiro muito, que são determinadas, obstinadas, não se deixam abater por nada, nem pelo cansaço ou pela falta de inspiração, muito menos pela falta de tempo – elas parecem produzir horas a mais no relógio, fazem o dia correr mais devagar quando necessitam. Esses seres sobre-humanos são capazes de equilibrar a carreira, os relacionamentos, academia, estudos, religiosidade, vida social, beleza, tudo, mas tudo mesmo, em perfeita harmonia, ou ao menos é essa a impressão que me transmitem. Não vou dizer que sinto inveja, porque, apesar de me sentir meio atrasada nos meus propósitos, eu gosto da dinâmica da minha vida. Eu só gostaria de conseguir cumprir as coisas que coloco no papel. #comofaz?

Tem dias em que acordo e nada flui. Por exemplo, hoje. Pensei que fosse segunda-feira, mas me lembrei que isso foi ontem, quando fiquei presa numa tradução de muito mais palavras do que estou acostumada, o que me trouxe uma dor intensa nos braços, ardência nos olhos e falta de sono. Nem a faxina meio pesada que fiz aqui em casa conseguiu me cansar a ponto de fazer a agitação causada pelo excesso de trabalho desaparecer. Passei a noite inteira remoendo onde estou errando, principalmente em relação à minha meta de escrever todos os dias, quais passos eu deveria repensar no meu cotidiano a fim de que me sobrem alguns instantes para, além disso, ler e estudar um pouco mais sobre os assuntos que preciso/gosto/despertam minha curiosidade. É claro que, após remoer bastante, me ocorreu aquele súbito rompante de “amanhã tudo será diferente”, em que a minha mente compilou todos os dados do passado e estabeleceu metas quase impossíveis para o futuro próximo. Correr 10 km até o fim do mês, mas o mês já acabou, então até o fim de agosto, no máximo. Escrever diariamente às seis da tarde, ou no horário do almoço, ou então antes de começar a trabalhar, mesmo sem inspiração. Ler pelo menos vinte páginas por dia, antes de dormir. Rezar o terço. Limpar a casa somente após terminar as outras metas do dia. Mas, quais eram mesmo? E o ciclo recomeçou, e permaneceu assim até as quatro da manhã quando, enfim, consegui adormecer e me esqueci de quase tudo o que tinha planejado enquanto fritava na cama.

Mil questionamentos internos, que esgotam minha energia e não me levam a lugar algum acabam ocupando o espaço da criatividade. Talvez eu não seja uma pessoa organizada, e pronto. De que adianta tentar ser algo que eu não sou, somente para cumprir metas que refletem justamente o oposto do que eu acredito? A vida não é meticulosamente calculada, tenho que compreender isso e aceitar que os imprevistos fazem parte, como no outro dia, em que eu estava com todo um rascunho pronto aqui no blog e acabou a energia e eu perdi tudo. Eu poderia ter escrito tudo de novo, com certeza, mas não consegui, fiquei frustrada, cansada e sem vontade alguma.

Também não é muito fácil aceitar que é impossível abraçar, ao mesmo tempo, todas as infinitas possibilidades que aparecem à nossa frente. Tem gente que consegue, mas eu não sou todo mundo, eu sou eu, e preciso começar a entender essas limitações não como impedimentos ou paredes com as quais eu vou me chocar o tempo todo, e sim como oportunidades de aprendizado e autoconhecimento. Se eu passo oito horas por dia traduzindo seis, oito, dez mil palavras, é meio óbvio que meu cérebro estará um pouco descompassado quando chegar o fim da jornada de trabalho, e isso pode afetar a minha produtividade na escrita, e também influenciará a concentração na hora de ler. Geralmente, em dias de fluxo intenso de trabalho (quase todos, diga-se de passagem), tudo o que eu consigo ou quero fazer quando chega cinco da tarde é fechar os olhos por meia hora e, ao abri-los novamente, inundar o cérebro com coisas fúteis e banais, como séries, vídeo games, essas coisas. Ou simplesmente fazer algum esforço físico, para tentar acalmar a bagunça de ideias e palavras, principalmente quando os textos que traduzo têm um teor pesado. No fim das contas, por mais que eu tenha passado doze horas na frente do computador trabalhando, eu acabo me sentindo inútil por não ter produzido algo para mim, por mim.

Pensando bem, estou me cobrando demais. E toda essa cobrança parece advir da mentalidade que se instaurou ao meu redor, na sociedade, que questiona “qual é a sua desculpa?”, quando a gente tem dificuldade de atingir algum objetivo. Eu podia dizer que minha desculpa é a falta de tempo, mas não é. Que é o cansaço, embora não seja apenas uma questão de falta de disposição ou fadiga. Chego a pensar que tenho um medo inconsciente de atingir as metas mais ousadas que estabeleço para mim, de ir adiante, como se algum freio invisível me segurasse no lugar, amarrasse minhas pernas, ou cortasse minhas asas.

E enquanto escrevo esse breve balanço do mês de julho, me pergunto quais são os melhores mecanismos para fazer a roda girar para frente, me levando a direções mais ousadas na minha jornada como escritora…. Se é que eles existem, de fato.

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