Quem quer viver para sempre?

Hoje estava traduzindo um texto sobre tendências de design de tecidos e uma das características mais importantes da nova onda tecnológica da indústria têxtil é a incorporação de elementos que mimetizam as funcionalidades do corpo humano. Qualidades como tatilidade, o aspecto quase igual ao da pele humana, tecidos respiráveis e até mesmo tecidos biológicos desenvolvidos em laboratório serão uma realidade nos próximos anos, principalmente para a moda esportiva e voltada para o alto desempenho. Até aí, nada de novo e nem muito alarmante, visto que é natural que a evolução das tecnologias seja incorporada às roupas que vestimos, especialmente quando se trata de trajes específicos para um determinado fim.

Você implantaria um troço desses  no seu corpo se houvesse uma promessa de imortalidade?
Você implantaria um troço desses no seu corpo se houvesse uma promessa de imortalidade?

No entanto, enquanto trabalhava, me vi refletindo sobre as diversas implicações dos avanços da ciência em nossa vida. Até que ponto seremos seres humanos, no futuro, ou quais são os limites entre o homem e a máquina? Com o progresso da ciência, somos capazes de corrigir imperfeições e deficiências em nosso organismo utilizando próteses, implantes, aprimoramentos e, em menor grau, os avanços tecnológicos da medicina nos permitem viver muito mais, se dispomos de recursos para isso. Enfermidades que, em séculos passados, significariam a morte, hoje são tratadas com facilidade e cada vez mais os cientistas e pesquisadores buscam anular os efeitos do envelhecimento de nossas células, criar órgãos e tecidos através da clonagem, úteros artificiais, entre tantas outras coisas que acabam sendo barradas pelas questões éticas que as envolvem.

A filosofia do transhumanismo propõe e incentiva o uso dessas inovações, incluindo a nanotecnologia, neurotecnologia e biotecnologia, para ultrapassar os limites de nossos corpos e, assim, aprimorar a condição do ser humano, em diversos aspectos. Superlongevidade, bem-estar perene, superinteligência, transferência de sua consciência para computadores são apenas algumas das possibilidades previstas por essa filosofia. Essa abordagem parece muito positiva no caso de pessoas que perdem um membro do corpo, em cirurgias de implante de juntas e quadris artificiais, por exemplo, bem como para permitir que deficientes auditivos e visuais vivam com mais conforto e mais integrados à sociedade. O assunto é muito vasto e, por isso, não pretendo tocar em todos os seus aspectos nesse único texto. Pretendo apenas fazer uma reflexão resumida sobre o que penso a respeito de tudo isso.

O transhumanismo não propõe apenas os aprimoramentos que consideramos como sensatos, racionais e óbvios – como, por exemplo, implantar uma prótese num amputado ou o uso da inteligência artificial para permitir que pessoas como o Stephen Hawkings se comuniquem com o mundo, apesar de suas limitações. Quem não se lembra do rapaz paraplégico que chutou uma bola na abertura da Copa de 2014, com a ajuda de um exoesqueleto pra lá de futurista? Todos esses usos da tecnologia são louváveis e merecem espaço para debate, incentivo de pesquisas e investimento.

No filme Elysium, repleto de metáforas transhumanistas, o personagem de Matt Damon usa um exoesqueleto para se tornar quase que invencível.
No filme Elysium, repleto de metáforas transhumanistas, o personagem de Matt Damon usa um exoesqueleto para se tornar quase que invencível.

O problema é que essa filosofia também abrange o uso da inteligência artificial e de outras tecnologias para construir um novo ser humano, com capacidades infinitas e que beiram à ficção científica. Seria possível, por exemplo, acoplar asas ou guelras ao seu corpo, e se transformar num ser humano totalmente modificado por meios artificiais. A criação seria, então, remodelada da maneira que desejássemos. E, muito além disso, os computadores poderiam ganhar consciência e autonomia, com a fusão entre células humanas e as máquinas, dando vida a uma nova espécie, combinando biologia e componentes artificiais. Parece impossível, mas será que é?

Se pensarmos bem, vivemos hoje num mundo que só era possível nas mentes dos escritores de ficção, e, embora não tenhamos evoluído (ainda) para uma sociedade com carros voadores e robôs operando nossas casas, estamos bem perto disso. Nossos avós jamais imaginariam que em todas as casas haveria um computador, um telefone capaz de tirar fotos, mandar e-mails, indicar nosso posicionamento geográfico e funcionar como relógio, tudo ao mesmo tempo. Nós que vimos o nascimento da internet e das impressoras domésticas, jamais pensávamos que seria possível ter uma impressora que imprime objetos, o que hoje é uma realidade. Parece não haver limites para o ser humano, na era em que vivemos. Exceto a morte.

Os avanços envolvendo a criogenia, clonagem de tecidos, e até mesmo na área da robótica, nos levam a crer que, talvez daqui a cinquenta anos, teremos um mundo bem diverso do que esse em que estamos inseridos. Já existem muitos robôs capazes de fazer coisas incríveis e, apesar de não serem comercializados em larga escala, existem projetos de próteses capazes de “pensar” e conferir movimentos a tetraplégicos, independente de sua capacidade cerebral. Esse cenário de progresso sem limites me faz refletir sobre como seria uma sociedade com robôs inteligentes e autônomos, seres humanos capazes de voar, correr a velocidades absurdas, respirar embaixo d’água, ou até mesmo à prova de balas.

Com relação à nanotecnologia, a implementação de chips que liberam medicamentos em nossos corpos, evitando que esqueçamos de tomá-los, já é uma realidade, assim como o uso destes dispositivos para muitas outras finalidades. Existem inúmeras teorias da conspiração que afirmam que essa tecnologia pode ser usada para controlar as nossas mentes ou criar um mundo semelhante ao do filme Matrix.

A promessa de imortalidade parece bastante tentadora, especialmente quando vivemos num tempo em que o culto ao corpo e à expansão da consciência parece ter se transformado na nova religião. Levando em conta as passagens bíblicas do Apocalipse, que falam sobre a tal da marca da besta, e também considerando todos os avanços tecnológicos que prometem nos propiciar uma longa, senão eterna, vida nesse planeta, chego até a cogitar que essas teorias conspiratórias sobre o transhumanismo não são tão forçadas assim. Se um líder mundial, no futuro, prometer a vida eterna nesse mundo, é bem possível que a grande maioria aceite sem pensar duas vezes. As consequências para os que não aderirem a esse novo modo de vida seriam bem complicadas.

Para mim, a vida eterna já é uma realidade, pois creio na existência da alma e na efemeridade da matéria. A morte não é uma consequência horrível ou um abismo sem fim, é somente um aspecto natural da vida – tudo que existe nesse mundo material tem um prazo de validade, e alterar essa ordem que existe desde os primórdios do universo não me parece algo muito sábio. O meu desejo é que, no futuro, quando essas coisas que parecem impossíveis se tornarem realidade, nós saibamos escolher com sabedoria, ponderando os riscos e as vantagens de usar as tecnologias para o bem, e não para alcançar um ideal egoísta de existir eternamente no mundo material.

Deixo aqui uma reflexão: você abriria mão de sua qualidade humana e mortal se tivesse essa escolha?

E eis que o ser humano criou o transhumano, tornando-se, assim, um novo deus.
E eis que o ser humano criou o transhumano, tornando-se, assim, um novo deus.

2 comments

    1. Mas no caso dessa pílula, acho menos “grave”, porque basta parar de ingerir a substância para o sujeito voltar ao normal. Acho que o transhumanismo está mais ligado à fusão do homem com a máquina e a evolução da inteligência artificial “sem limites” para transformar as pessoas em híbridos, ou algo do tipo. Ou será que o pessoal que usa suplementos, os atletas, por exemplo, já são transhumanos? Fica a dúvida!

      Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s