Queria ser James Joyce

O mundo da leitura e da escrita realmente é fascinante. Quando adentramos esse universo, nos deparamos com amostras da genialidade do ser humano, das multidões de vozes que falam com a gente todos os dias e que, por vezes, são ouvidas, transcritas e se transformam em fabulosos livros, em contos, sagas, obras épicas.

Quem nasceu para contas estórias tem um dom muito especial e carrega consigo um pesado fardo de fazer o leitor acreditar no que está escrito, ou, pelo menos, prender sua atenção ao longo das páginas do texto. Porém, apenas poucos de nós somos agraciados com essa dádiva, ou somos sortudos o bastante para captarmos as incríveis palavras que pairam no ar, esperando para serem colhidas e despejadas no papel ou introduzidas no universo virtual.

Existem textos que, embora sejam antigos, permanecem atuais e dialogam perfeitamente com a nossa sociedade contemporânea – como, por exemplo, os livros de George Orwell. Há também aqueles que não são tão renomados, mas os quais eu gostaria de ter escrito, como os livros que traduzi da série The Darkest Minds. Por pura vaidade, talvez, ou por pensar em finais diferentes, em cenas que poderiam ser acrescentadas, em personagens que morreram, mas que mereciam ter uma participação mais significativa.

No fundo, o principal motivo de eu desejar ter sido a autora de tantos livros que eu amo, se resume a uma coisa: eu gostaria de saber exatamente o que estava se passando na cabeça daquele autor no momento em que escreveu aquilo.

“Os erros são os portais para a descoberta”

Esse sentimento me invadiu quando entrei em contato com Clarice Lispector pela primeira vez. E não foi como a grande maioria das pessoas, lendo A Hora da Estrela, que conheci essa senhora tão maravilhosa.

O primeiro livro que li da Clarice foi Água Viva, e acho que foi por isso que decidi começar a escrever. Apaixonei-me, através desse profundo relato, pelo processo de nascimento da escrita, e pela coisa, em si. E por ela também, é claro. A forma como seus escritos transparecem sua alma repleta de coisas a dizer, sua maneira de transformar cenas simples em acontecimentos grandiosos, todas as palavras redigidas envoltas na fumaça de seus cigarros, essa atmosfera mística da mulher imponente e, ao mesmo tempo, estranhamente reclusa, me fascinam.

Senti a mesma coisa quando li Virginia Woolf e, por vezes, tenho vontade de ter sido amiga dessas duas mulheres incríveis.

Quando comecei a me aventurar pelo mundo da escrita, passei a ler as reflexões de diversos escritores acerca do ofício de escrever, seus processos, suas solidões, a formação dos personagens, das cenas e dos enredos, e como, muitas vezes, tudo isso se mistura à biografia do próprio autor.

Ainda assim, fica uma grande dúvida sobre todos os aspectos do cotidiano desses homens e mulheres geniais: como se vestiam, como era sua rotina, o que comiam no café da manhã, quais eram suas preocupações e o que pretendiam – se é que tinham algo definido em mente – ao escreverem este ou aquele livro.

Às vezes, me pego divagando sobre as conversas que Tolkien tinha com seus colegas, amigos, filhos, enquanto escrevia O Senhor dos Anéis ou O Silmarillion. Penso que talvez não falasse muito sobre o assunto, para não revelar spoilers, ou para não aborrecer as pessoas à sua volta com detalhes de seu ofício, ou quem sabe não fosse o contrário? Ou então o ilustre Carlos Drummond de Andrade, aquele senhorzinho simpático, o qual eu gostaria de ter tido como avô, será que pensava em suas obras da maneira impactante como as vemos hoje?

Quer dizer, alguns escritores parecem compor seus textos com uma intenção bem explícita, de levantar questionamentos, de causar alvoroço na cena política e cultural de seu tempo, ou simplesmente romper com a norma culta ou com os padrões estabelecidos como clássicos e aceitos. Todos esses têm meu respeito incondicional. Porém, uns mais do que os outros.

Dentre todos os autores que já li e considero como primordiais e exímios representantes do ofício de escrever, James Joyce está no topo da lista. Não só por sua genialidade ao escrever o Ulysses, mas também pela maneira como sua vida influenciou fortemente tudo o que ele compôs. E não há como ler a sua obra-prima sem questionar: que diabos ele pensava enquanto as palavras fluíam de sua mente para o papel?

Cara de maluco, alma de gênio.
Cara de maluco, alma de gênio.

Se você ainda não leu esse livro absurdamente maluco, genial, rico e totalmente diferente de tudo, leia. Mas, já aviso de antemão que não é um exercício fácil. Em suas novecentas páginas, Joyce narra as ações ocorridas em um só dia e faz referência aos personagens e acontecimentos da Odisséia, de Homero, situando-os na cidade de Dublin, no ano de 1904. Utilizando diversas técnicas literárias, o autor descreve com detalhes a vida da cidade, os prédios, as ruas, enfim, toda a atmosfera e todos os costumes do local. E o mais interessante é que, durante o tempo em que escrevia este livro, Joyce não estava morando lá.

 

Falando sobre Dublin, ele comenta:

“For myself, I always write about Dublin, because if I can get to the heart of Dublin I can get to the heart of all the cities of the world. In the particular is contained the universal”.

No particular, está contido o universal.

Em seu caso específico, a influência de ter nascido, sido criado e vivido lá por bastante tempo foi crucial para a sua vida como escritor. E me faz pensar se eu seria capaz de descrever tão precisamente, de chegar ao coração de minha cidade natal dessa forma.

Para ser sincera, depois que li Ulysses cheguei à conclusão de que nunca serei metade da escritora que Joyce foi, nem que eu viva trezentos anos. Se eu pudesse passar um dia na mente de um escritor, eu certamente escolheria a desse estranho Joyce, que revolucionou a literatura da época, que é estudado até hoje, que completou o desafio de escrever uma coisa tão complexa como o Ulysses e transformá-lo num clássico, fazendo referência a outro clássico mais clássico ainda, e tornando-o totalmente novo. Sem contar o fato de existir um dia – 16 de junho – totalmente dedicado para prestar homenagem a Leopold Bloom, o protagonista de Ulysses. 

Qual escritor não sonha em alcançar um feito como esses? Certamente nem ele sonhava com tamanha notoriedade!

2 comments

  1. Mariana… só quero lhe pedir uma coisa. Nunca pare de escrever. Eu amo ler todas essas linhas todos os dias. E enquanto eu viver… quero ter o prazer de abrir este blog e saborear mil palavras frescas postas a mesa pela sua mente brilhante.

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  2. Não sei se estou em posição de falar só por mim mesmo ou por pensar que entendo relativamente do processo de escritura posso falar por todos os escritores (pressupondo que passamos e sofremos pelas mesmas realizações e aflições), mas porra… nem deveria perder meu tempo escrevendo tudo isso aqui, isto é, falando como um escritor mesmo (não tenho nada publicado, mas “escritor” não é só o cara que escreve livros) eu deveria dizer o que tenho a falar em poucos palavras, e olha só esse comentário… finalmente, depois de tanto matutar sobre essa “conscientização” do processo de escritura, eu cheguei à conclusão que é impossível saber o que se passa na cabeça de um escritor quando está escrevendo, sobretudo, uma história. Nós (ou eles) mesmos não sabemos por inteiro. Se soubesse, pelo menos de minha parte, escreveria um livro por semana. O máximo que eu consegui chegar a respeito dessas reflexões foi que se trata de uma espécie de mentalidade para escrever e escrever bem, esclareço: vai escrever algo, é preciso estar na mentalidade daquele algo em específico. E como forçar a mente a entrar nesse “estado mental” (como um botão de liga/desliga) de motivação, disposição e envolvimento emocional para escrever e escrever bem? É a pergunta que me faço desde que escrevi algo e percebi que ficou bom mas nunca mais consegui reproduzir sua qualidade.

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