Insensível

A noite chegou para ele, junto com uma carta, sem remetente. Era um sábado, como outro qualquer – talvez mais nublado ou cansativo, com menos música e cigarros do que de costume.

O trabalho havia sido intenso. Seus pés estavam quase dormentes dentro daquele sapato social que lhe causava tremenda repulsa. Tinha brigado com o chefe, com a mãe, com a pseudo-namorada. Queria somente dormir.

Entrou em seu apartamento e sentiu o peso da idade, das noitadas e da solidão. Estava realmente farto de tudo aquilo. A carta que levava nas mãos parecia bastante tentadora. Era como o prenúncio de uma boa notícia. Podia ser uma carta de uma admiradora secreta, ou de um amigo de infância, algo misterioso que o transportasse daquele mundinho de cobranças e vazios.

Os telefonemas da pseudo-namorada, sempre irritantes e agressivos, com aquele tom de inquisição e discussões sem propósito – ele os havia evitado durante toda a semana. Simplesmente não a atendia mais. Nem sabia mais por que insistia naquele relacionamento, já que não tinha mais vontade de vê-la.

Trancou a porta do quarto, com todas as voltas que a chave poderia dar, numa tentativa de isolar-se por completo do mundo, e correu para sentar-se em sua cadeira barulhenta. Alívio e descanso. Olhou para aquela carta misteriosa sobre sua escrivaninha, simples e intrigante, com letras de forma escritas em tinta preta. Analisou a caligrafia, mas não parecia com a de ninguém que conhecia. Sentiu um nó na barriga, indagando quem poderia ter enviado aquela carta surpresa.

Cansado de tanto suspense, rasgou o envelope com fúria, retirou as várias páginas que ele continha e as colocou sobre seu colo enquanto acendia o penúltimo cigarro de seu maço. Estava nervoso, talvez precisasse fumar mais.

Logo nas primeiras linhas, a remetente da carta revelou-se sem precisar dizer seu nome. Aquela mulher com quem havia se relacionado há alguns anos, a qual ele havia tratado com desdém, sem levar muito a sério. Que abriu a ele as portas de um mundo desconhecido, que era seu refúgio em noites solitárias e vazias. Com quem ele até cogitou ter algo sério, não fosse pelo medo e pelo jeito tão impulsivo, livre e deliciosamente diferente daquela moça.

Sem perceber, já havia fumado os dois últimos cigarros ao ler as cinco páginas cheias de notícias, mágoas e lembranças. Dois anos se passaram. “Faz tanto tempo assim?“, pensou. Guardou as páginas dentro do envelope quase destruído e o trancou na gaveta secreta que tinha em seu armário, afastando para longe todas as memórias evocadas por aquelas palavras infelizes.

Pensou em tomar um banho e esquecer tudo aquilo, afinal não tinha mais nada a ver mesmo. Ela estava bem, namorando e feliz. Por que resolveu escrever, então? Para esfregar esta felicidade em sua cara cansada e sem sentimentos, certamente. A moça que havia feito de tudo para ficar com ele, e a quem ele disse um frio adeus por telefone, voltava à sua vida justamente naquele dia, para quê?

Olhou para sua agenda de telefones. Pensou em telefoná-la. Deveria tentar reatar algo? Ele realmente estava cansado daquela mulher chata e dominadora com quem estava envolvido, mas à qual não tinha coragem de chamar de namorada – na verdade, ela merecia alguém melhor que ele. No fim das contas, era a única que ainda o suportava.

Uma frase ficou gravada em suas retinas e ressoava em seus ouvidos, como um alarme intermitente: “Você é muito insensível. Foi por isso que desisti de você“. Não era a primeira vez que ele escutava tal acusação. E, naquele momento, cheio de dúvidas, nostalgia e emoções, as lágrimas começaram a brotar de seus olhos.

Não chorava há anos. Chegou a pensar que era verdade, que não tinha sentimentos. Mas não, ele não era insensível. Sentiu uma vontade enorme de gritar pela janela, como se ela pudesse ouvi-lo. “Tá vendo como não sou insensível? Estou chorando!“.

Pegou o telefone, decidido a ligar para a moça que havia escrito aquela carta tão perturbadora e lhe dizer umas belas verdades. Discou o número uma, duas, três vezes.

Não teve coragem. Era covarde por natureza. Entrou no banho e deixou a água do chuveiro se misturar às lágrimas que banhavam seu rosto. Ponderou sobre os motivos que o haviam transformado nessa pessoa tão descrente e sem vontade de amar ninguém, mas não soube enumerá-los. Talvez ele a tivesse amado, mas teve tanto trabalho para construir as paredes que o separavam das emoções alheias, que não sabia mais discernir tais sentimentos. Talvez…

Muitos minutos depois, ao voltar para o seu quarto, notou que havia uma chamada não atendida em seu celular. Já entediado por deduzir quem era, foi verificar o número e notou que era ela. A autora daquelas palavras cheias de sinceridade, que o desmontaram como um boneco de Lego. “Nada mais justo, já que ela chorou por mim muitas vezes“. Novamente, o frio no estômago. A vontade de reencontrá-la e mostrar que ele ainda pensava nela, mesmo depois de tanto tempo. E, sendo sincero consigo, nunca havia deixado de pensar. O telefone emitiu mais um toque e seu coração quase explodiu.

– Oi, tudo bem?

– Tudo! Quanto tempo… Recebi sua carta.

– É mesmo?

– Precisamos conversar.

– Não tenho nada a dizer a você, acho que já disse tudo, queria apenas saber como você está.

Foi então que ele percebeu que era ela que sempre estava por perto quando ele precisava.

– Quero te ver.

– Não, impossível, eu estou morando em Minas Gerais agora. Mesmo que não estivesse, eu estou namorando. Seria meio estranho.

Um silêncio. A covardia de falar tudo o que sentia e pensava naquele momento. Mais lágrimas. “Eu só queria te dizer que finalmente eu consegui te perdoar. Fico feliz em saber que você está bem, e sei lá, se precisar de algo, pode me ligar. Gosto de você, você sabe disso…. Um beijo“.

Mais silêncio. Dois anos foram necessários para que ela o esquecesse. Dois anos para que ele percebesse o quanto gostava daquela mulher que o amou tanto, por tanto tempo.

Eu não sou insensível!, gritou o rapaz para as paredes mudas do seu quarto, chorando o retorno de seu coração e a perda de algo que provavelmente jamais teria de volta.

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