Inverno quente

Enfim chegamos ao mês de julho, com os resquícios das festas juninas, os dias curtos e as longas noites envoltas em edredons, casacos elegantes, cachecóis, echarpes, gorros, vinhos quentes, fondues, chocolates quentes, sopas e tantas outras delícias que produzem calor, enquanto o mundo congela lá fora. É a época do ano que eu mais gosto, tem uma magia no ar, o friozinho nas tardes ensolaradas traz a lembrança de terras distantes, planícies congeladas, salpicadas pelo branco das geadas. Tem cheiro de férias, da infância sadia no sítio, das manhãs em que nos enfiávamos nos mais pesados sobretudos, cobríamos as mãos com luvas e saíamos para contemplar a grama queimada pelo orvalho. Corríamos como loucos e não suávamos – uma das grandes vantagens do inverno.

frio, seu lindo!
frio, seu lindo!

Quando me mudei para o interior, fazia frio nas noites de dezembro e eu conseguia dormir  sem o ventilador ligado. Em junho, era quase impossível tomar banho à noite sem bater os dentes, e tudo parecia estalar com o ar desértico que pairava sobre a cidade. Eu não sentia falta da chuva fina e perene do litoral, que caía quase durante toda a estação e deixava meu cabelo cheio de frizz e dificultava a vida e que, ao mesmo tempo, conferia à minha cidade natal um aspecto charmoso e londrino. Eu costumava me imaginar nas ruas das cidades europeias enquanto caminhava pela garoa de Santos, sentindo nos ossos a umidade e vestindo as roupas que eu sonhava serem adequadas para as futuras viagens a Londres ou Dublim. Os dezoito graus tinham um quê de abaixo de zero quando os dias de verão chegavam ao fim, substituindo as sandálias e os biquínis por botas e agasalhos com cheiro de armário.   

Aqui, quando chove é temporal, é água que não acaba mais, e quando seca, é deserto, é frio que racha as bochechas, os lábios, as mãos. As roupas no varal secam mais depressa do que na praia, não cheiram a mofo, mas também são insuficientes para esquentar quando os dezoito graus se transformam em doze, dez, nove. O frio não castiga como na Europa, mas quase. Os ossos não reclamam, o cabelo continua liso e impecável e o sol permanece boiando firme e imponente na imensidão azul, quase estático, quase o tempo todo.

Relembrando da vida em São Paulo, percebo que lá senti as duas coisas ao mesmo tempo. A aridez e as roupas geladas e molhadas. A solidão e os cafés, os livros, os espaços escuros e vazios. A vontade de pertencer a qualquer lugar incrível quando, de fato, eu queria mesmo era encontrar dentro de mim este mesmo lugar, com uma paisagem montanhosa, um lago congelado, a brisa fresca e envolvente, renovando as ideias e a alma. Mais do que meras baixas temperaturas no termômetro, o inverno, para mim, sempre foi sinônimo de introspecção, criatividade a mil, um tempo onde tudo acontecia, mesmo que nada acontecesse. Era como voltar para casa, mas não um lar no sentido físico, e sim um estado de espírito sublime e avivado pelas rajadas intensas de vento gélido. Essa é a estação da música mística, das fogueiras interiores, do novo que se anuncia com a morte do que é velho. E isso ninguém me ensinou, é algo que carrego no âmago do meu ser desde que me conheço por gente.

E a ausência desses aspectos climáticos do fim de maio, junho, julho, até o início da primavera transforma a minha alma numa coisa um tanto quanto perdida e sem rumo. É quase uma afronta pescar os shorts e as camisetas leves no fundo do guarda-roupa, logo agora que, enfim, consegui encontrar o casaco perfeito para enfrentar, com classe, a vida gelada do interior.

Hoje o dia está quente, o céu, branco, salpicado de cinza e anunciando uma possível chuva. Eu quero essa chuva. Eu quero o retorno do frio, para colocar de volta nos eixos essa confusão climática que se instalou no planeta. Onde foram parar as estações definidas que aconteciam quando eu era pequena? Era tão mágico observar as folhas caírem, as flores desabrochando, os sinais da natureza que ditavam o tom e o humor das nossas vidas.

Agora parece que tudo é concreto demais, morno demais, como se a Terra estivesse constantemente em cima do muro, indecisa sobre o que projetar em nossa atmosfera, como se o seu espírito sofresse de transtorno bipolar. São Pedro perdeu a bússola das estações e eu estou tendo que beber água gelada às duas da tarde para conseguir suportar o sol que bate na janela enquanto trabalho.

E isso me faz lembrar um pouco dos dias em que, durante o recesso escolar, a praia reluzia com vinte e poucos graus de sol, quando a chuva dava uma trégua, e o mar se exibia em profundos tons de azul que faziam a gente fantasiar sobre os mistérios que ele escondia em suas profundezas, logo abaixo do turbilhão de espuma branca que varria a areia mole. Os livros e o violão me faziam companhia e a areia morna que penetrava por entre os dedos dos pés servia de combustível para a mágoa, o amor, a angústia da juventude que só fazia remoer o passado e sonhar com o que não havia vivido ainda.

Mas agora, é o presente, essa retrospectiva toda não tem sentido, porque o que importa é agora, e ele é todo perfeito. É esse dia quente de julho, regado a chás frios, coca-cola e saladas, um nostálgico desejo de mergulhar numa xícara gigante de capuccino e entupir-me de creme de mandioquinha fumegante com vinho tinto. É uma saudade das coisas, das sensações externas, que parecem transmitir o mesmo estranhamento que sinto ao notar, nessa metade do mês, que a vida está muito boa, ótima, excelente e completa. Que o sangue vermelho e quente pulsa em meu coração de forma plena, sem sentir ausências, sem medo, correndo selvagem e macio pelas veias do corpo e da alma.

Enfim, chegou julho, o inverno se instalou, trazendo consigo as noites gélidas e solitárias. Mas não para mim, eu tenho comigo todo o calor de que preciso.

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