O Peso da Autenticidade

Uma das frases motivacionais que mais vemos espalhadas pela Internet e pelos livros de autoajuda é o conselho “seja verdadeiro”, que se traduz em ser você mesmo, não importa o que aconteça, e também sem importar o que o resto do mundo pensa a seu respeito. A autenticidade, segundo consta, é o bem mais precioso que possuímos, no sentido de que se deixamos de ser quem somos para agradar a sociedade, ou para nos encaixarmos em algum meio – trabalho, escola, amigos, família – acabamos nos esquecendo de nossa essência e a vida se torna uma farsa. Viver a vida que esperam de nós deve ser algo muito cansativo, frustrante e triste.

Esse argumento é muito bom e eu concordo que devemos ser verdadeiros ao que acreditamos, buscar o nosso próprio caminho, exercendo nossa autenticidade e deixando de lado as máscaras que nos ensinam a vestir constantemente. Também acredito que todos nós temos algo de diferente e incrível e que não deve ser abafado ou escondido pelo simples fato de não fazer parte do status quo. O grande problema, a meu ver, é que a maioria das pessoas não se conhece e acaba seguindo esse lema de uma forma equivocada. É quase impossível viver em harmonia com o mundo exterior quando a alma escancarada está exposta e nua.

E quando as máscaras caem, o que sobra?
E quando as máscaras caem, o que sobra?

Explico. Ser autêntico e verdadeiro pode significar falar o que bem entende, doa a quem doer, mas isso não é necessariamente legal ou válido, porque o respeito, além de ser um código social, é um valor crucial para que a gente não saia por aí pisoteando nas pessoas, ser autêntico não precisa significar ser um cretino, ou alguém que totalmente desconsidera os sentimentos dos outros. Implica em seguir caminhos nem sempre convencionais, que talvez levem à solidão e ao isolamento, porque nem sempre os estilos de vida alternativos são fonte de curiosidade e encanto, como nos filmes. A autenticidade não é bem vista por aqueles que têm medo das coisas diferentes e que se sentem confortáveis somente com o que já é familiar e conhecido. Ou seja, assumir a sua essência e fazer as coisas do seu modo requer, antes, uma autoanálise e um profundo trabalho de autoconhecimento, para que a gente consiga aceitar as consequências de tudo isso.

Mas, em primeiro lugar, o que é, exatamente, ser autêntico? Mais importante ainda, o que é ser autêntico, no contexto de vida de cada um? Para uma pessoa que vive numa sociedade careta e quadrada, mais ou menos como a nossa, a impressão que se tem é que a autenticidade está atrelada a ser criativo, original, vestir-se de maneira irreverente, expressar a sua essência na maneira de ser e de agir, destacando-se dos demais. Porém, o que acontece é que a autenticidade acaba sendo vendida como um estilo de vida, tornando-se um “produto cultural”, como, por exemplo, as vestimentas típicas de algum movimento contraventor que são incorporadas pelas grandes marcas de roupas e se transformam em lugar-comum – vide as estampas de caveiras e de bandas de rock que dominam as vitrines por aí. Ou seja, símbolos de autenticidade que são usados por qualquer pessoa, atualmente. O capitalismo se aproveita do slogan “seja autêntico” para vender qualquer coisa, e funciona, porque no fundo é isso que buscamos – aquilo que temos de único e só nosso.

Ser único não significa ser útil. Droga!
Ser único não significa ser útil. Droga!

Parece confuso pensar em originalidade e autenticidade nos tempos em que vivemos, quando, exceto no âmbito da tecnologia, parece que tudo já foi criado. No entanto, se olharmos para trás, para os artistas e seres humanos geniais que já pisaram nesse mundo, por exemplo, conseguimos perceber que a autenticidade tem um peso um tanto quanto sombrio. Galileu, Einstein, Van Gogh, Fernando Pessoa, Frida Kahlo, Nina Simone… Todos esses nomes, que foram os primeiros que vieram à minha mente, têm algo em comum: tiveram suas vidas pessoais conturbadas e expressaram, de forma muito autêntica, a sua real essência através das suas obras. Viveram plenamente e marcaram para sempre a história da humanidade, porém não foram muito bem aceitos pela sociedade da época. Toda a essência genuína e verdadeira que carregavam dentro de si funcionava como um estopim para o ódio alheio. Talvez eles sejam o que chamamos de “gênios incompreendidos”.

E a verdade é que todo mundo que segue a vida sendo fiel a si mesmo, verdadeiro e autêntico, provavelmente será odiado.

Eu não sou famosa, nem genial, muito menos artista, mas procuro ser eu mesma – e é crucial mencionar aqui que eu demorei muitos anos da minha existência para conseguir descobrir quem eu realmente sou, despindo-me de todas as influências externas. Na verdade, é um trabalho contínuo, que provavelmente não terminará até o fim da minha vida. E aprendi algumas coisas durante o exercício dessa minha maneira autêntica de ser:

1. As pessoas, em geral, são bastante falsas. Elas vão dizer mil coisas legais a seu respeito enquanto a sua essência não as fizer questionar nada, enquanto a manifestação de sua autenticidade for algo apenas superficial ou que não interfira em seus próprios conceitos.

2. Aqueles que você menos espera irão te aceitar exatamente como você é – incluindo em seus piores momentos obscuros. Costumamos pensar que a primeira aceitação deve vir de nossa família, porém é nela em que encontraremos as barreiras mais difíceis de transpor nesse sentido. Ser único e original em meio a pessoas que esperam muito de  você e que já planejaram toda a sua vida é bem complicado. Portanto, é necessário praticar o desapego.

3. Ser autêntico não significa ser diferente do resto da humanidade e muito menos ser útil ou especial. Principalmente no que se refere à aparência. O ser humano é incrivelmente diverso, cada um de nós tem aspectos únicos e maravilhosos, mas existem bilhões de pessoas no mundo e a probabilidade de encontrarmos alguém com as mesmas características que as nossas é bem alta. Além disso, somos animais sociais e desde o útero de nossas mães sofremos influências de tudo, o que provavelmente nos fará ter semelhanças de comportamento com os outros. Sem contar no caso dos gêmeos idênticos, que costumam ter personalidades bem diversas a despeito da semelhança exterior.

Viver a vida conforme a sua vontade, trilhar seu próprio destino, expressar-se genuinamente e esquecer-se das amarras e dos padrões que são pré-estabelecidos a nosso respeito é difícil, é doloroso, não tem nada de glamoroso ou fácil nessa jornada. Seria muito mais fácil simplesmente seguir o fluxo e remar a favor da maré. Porém, quando entramos no caminho do autoconhecimento e da descoberta de nossa alma, torna-se impossível ser qualquer coisa contrária a isso. Mesmo que signifique a nossa morte, a infelicidade, o não pertencimento ao que nos cerca.  Ser verdadeiro consigo mesmo, não trair a sua essência, esse é o grande desafio da vida… e o mais pesado!

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