Para Tina

Quando você chegou, fazia frio e eu estava bem tranquilo, enrolado nas cobertas da cama da minha mãe humana, que mais uma vez saiu sem dizer aonde ia. Todas as vezes que ela sai, eu fico me perguntando aonde será que ela foi, por que gosta tanto de me deixar aqui, sozinho, embora eu saiba que ela sempre volta. É chato não poder acompanhá-la em suas ausências, e por vezes eu temo que ela nunca mais voltará. Mas dessa vez, ela não voltou sozinha, ela trouxe você, e eu fiquei totalmente perdido.

Não nos conhecemos logo de cara, a mãe e o pai só me deixavam vê-la através de frestas e portas, e aquilo ia me irritando progressivamente, até que um dia eu explodi e cheguei a socar o vidro, quase numa tentativa de quebrá-lo e me aproximar um pouco, tentar compreender a sua existência e saber o que exatamente você era. Eu sei que não me comportei muito bem nos primeiros encontros, e até gostaria de te pedir desculpas pelas vezes que gritei ou te tratei de uma forma um pouco mais ríspida. Mas, tente me entender, eu nunca tinha visto algo parecido, a não ser na televisão ou nos vídeos aos quais a mamãe assiste no computador mais de uma vez ao dia. Apesar de eles acharem que eu não os entendo, eu escutei o pai e a mãe dizendo que você já estava habituada a conviver com estranhos, e isso me deixou bastante inseguro e apavorado. Eu achei que você ia me bater, roubar meu lugar preferido, bagunçar meus brinquedos e me expulsar de casa. Achei que tinha sido substituído, e demorei pra entender que você ceio para cá por minha causa, para me fazer companhia.

Eu mal tinha começado a elaborar dentro de mim todos os sentimentos, ainda tentava distinguir a sua silhueta, os seus sutis e delicados movimentos, ainda achava que você partiria a qualquer instante e que eu me veria livre desse conflito interior mais cedo do que eu pudesse perceber. Mas aí eles decidiram que já era seguro a gente interagir, que eu não estaria mais com tantos ciúmes ou estranhando o seu cheiro e a sua presença. Na verdade, já se passaram mais de quinze dias e eu ainda não consegui me acostumar com o fato de não ser mais o queridinho da casa. Ou melhor, o dono da casa. O mestre supremo. Aquele que controla a rotina dos meus pais e toda a vida deles, para ser honesto.

Sabe, a princípio eu tentei fazer você se afastar, te mordi, bati, fiquei com um pouco de medo também, principalmente quando você me encurralou na parede e me encarou com seus frios olhos azuis, que ao mesmo tempo são tão doces e serenos. Essa mistura de sensações me deixou ainda mais apavorado do que a sua agilidade. Eu costumava ser assim, ágil e rápido, na sua idade, eu pulava para cima e para baixo, brincava, me exercitava bastante, mas a gente vai envelhecendo, né, e perde um pouco dessa ansiedade toda. Hoje eu olho para você e aprendo alguns novos movimentos, apesar de ainda me sentir incapaz de repeti-los. Com o tempo, quem sabe.

O que me fez derreter, de fato, e acreditar que é possível estar do seu lado sem brigar o tempo todo, foi você me deixar dormir ao seu lado sem me expulsar a socos e pontapés. Pode ter sido apenas o frio, e quem sabe você só precisava de algo mais poderoso que o cobertor para se esquentar, mas não importa. Eu sei, no fundo, que você estava sorrindo por dentro, porque eu até me encostei sem você se afastar.

Eu gostaria de te ensinar algumas coisas sobre a vida que a gente vai levar daqui para frente, mas a cada dia que te conheço, percebo que sei muito pouco sobre mim. De onde eu vim? Quem são meus pais biológicos? O que é isso que você faz quando está deitada no chão e se rola de um lado para o outro? E esses gritos, são sua forma de me chamar ou você está sofrendo com alguma coisa? Já pensei em perguntar pro pai e para mãe, mas acredito que eles não iriam compreender. A mãe parece às vezes me entender sem eu precisar dizer nada, mas aí ela vai e responde de uma forma totalmente diferente do que eu precisava. Eu gosto, mesmo assim. De qualquer forma, ela sempre acerta na comida, e guarde essa palavra: atum. Tentei pronunciá-la algumas vezes, e por incrível que pareça eu acho que ela entendeu.

Em alguns dias eu vou precisar que você tenha coragem e fique ao meu lado. Geralmente é na parte da manhã, a mãe utiliza um instrumento muito barulhento e passa no chão da casa repetidas vezes, não sei exatamente para o que serve, só sei que tenho muito receio de chegar perto e acabo me escondendo. Será que você poderia investigar para mim? Dizem que as mulheres são mais corajosas que os homens em alguns aspectos, e estou confiante nisso. O máximo que eu consegui me aproximar dessa espécie de monstro sugador de objetos foi através da porta da sacada. A mesma que me separava de você, quando ainda éramos um perigo um para o outro.

Outra coisa que eu queria te pedir é, se você puder, não roube todos os meus brinquedos, porque eu fico me sentindo um babaca olhando você correr pela sala sem me incluir na brincadeira. Podemos brincar juntos, o que você acha? Minha timidez vai desaparecer algum dia, eu prometo.

E, pra terminar, eu queria te agradecer por ter vindo morar aqui com a gente. Porque quando você chegou, eu era apenas um gato vira-latas solitário, que miava pelos quatro cantos da casa, tentando encontrar um eco que não fosse a minha mãe humana tentando, em vão, conversar comigo. Hoje eu sei que existe muito mais coisas nesse mundo do que apenas esse apartamento, e finalmente minha voz encontrou uma resposta.

Tô mandando essa foto pra você, que é a nossa mais recente. Um beijo, Yoda.
Tô mandando essa foto pra você, que é a nossa mais recente. Um beijo, do seu gato, Yoda.

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