The Wild

Existe dentro de todo ser humano uma parcela obscura, um lago profundo de sentimentos, memórias, aflições, anseios e carências que sequer podemos imaginar.

Eu, você, o seu vizinho, a minha vizinha, cada um de nós convive com seus fantasmas da maneira mais conveniente, ou da única maneira que julga ser possível. Todos temos nossas formas de colocar uma pedra sobre essas coisas das quais nos envergonhamos, na maioria das vezes.

Alguns tentam exorcizá-los com métodos convencionais. Outros, mais audaciosos e livres de amarras, vão ao encontro desse desconhecido. Em busca do que é selvagem, do que não pode ser domesticado.

Já desejei sair por aí, sem destino, fugir desse mundo injusto, dessa ilusão a que chamamos de sociedade, rasgar os documentos e viver da providência. Encontrar a liberdade e correr da hipocrisia, buscar a salvação em rostos desconhecidos, conhecer histórias e vidas, traçar um caminho sem amarras. Viver em contato com a natureza e não depender de coisa alguma além da sorte e dos acasos.

Mas, para o bem ou para o mal, não tive coragem. Acho que mais para o bem, porque infelizmente, da maneira como somos criados – dependentes de tudo e sem saber sequer acender um foguinho sem um fósforo – é provável que eu teria durado muito pouco na vida de andarilha. O fato de eu ser mulher também é um agravante, já que nós somos alvos fáceis para todo tipo de violência.

Há tempos que não acredito nessa sociedade e no sistema estúpido em que vivemos. E não falo de capitalismo ou teorias políticas, ideologias sociais e outros conceitos filosóficos de organização. O que me faz desejar sair correndo é a falta de alma, a ausência de compaixão, de empatia, que acomete nosso mundo.

Vivemos um tempo vazio, repleto de artifícios inúteis, parece que a grande maioria das pessoas perdeu a noção de que existe muito mais do que os olhos podem enxergar. Emoções, valores básicos como respeito mútuo, amizade, amor, carinho, coisas tão óbvias que chega a ser ridículo imaginar que alguém possa viver sem isso.

O pior é notar que, geralmente, quanto mais rica a pessoa, mais vazia ela é. Como se todos os espaços de sua vida fossem tão preenchidos pelas coisas que sobra pouco lugar para o que realmente importa. O que faz a gente sobreviver é ar, água, comida e amor.

Eu vivo sem todo o resto. No entanto, se me falta esse alimento para a alma, eu morro de fome. Nada me entristece mais do que refletir sobre as relações humanas, e sobre como somos capazes de ferir uns aos outros, mesmo sem ter consciência de que o estamos fazendo. Por vezes, penso que todo mundo está brincando de casinha. Ou melhor, construindo realidades virtuais no mundo real.

A relação entre causa e consequência é um conceito que foi esquecido, de modo geral. Geramos a loucura e despertamos sentimentos que para nós parecem bobos, subestimamos a dor, desprezamos a vulnerabilidade e as vivências dos outros. A dor de ferir alguém é muito maior do que a de ser ferido. Pelo menos na minha concepção.

Muitas pessoas que me feriram jamais saberão o quanto tive que lutar para me recompor. Da mesma forma,  infelizmente eu já fiz o mesmo com alguém, ainda que sem querer. E jamais saberei como foi para essa pessoa, ainda que ela tenha me dito “isso que você fez foi horrível e me magoou demais!”.

Quando me tornei mais desperta e me afastei de toda essa sonolência, esse torpor em que a grande maioria se encontra, me vi quase sozinha e passei a enxergar muito mais do que desejava. As dores, as injustiças, os medos. É difícil ser assim, porque você acaba sendo a pessoa chata que aponta os problemas e, salvo algumas exceções, ninguém te entende.

Nesse mundo de plástico e matéria, o que fazer quando tudo o que se tem é intocável e só pode ser visto ou sentido com os olhos da alma? Eu não tenho nada. Todas as minhas posses são apenas aparatos vazios que me permitem continuar inserida no mundo material.

O que tenho de valioso, a mais preciosa das pedras, é este eu que dorme dentro de mim, aos poucos despertando para a vida. E o eu que está adormecido ou desperto nos corpos dos que me cercam. É isto o que eu posso tocar, e é com esse valor que pretendo medir e ser medida. Viajar para dentro de si, encontrar esta parte obscurecida pela persona que nos é imposta desde que nascemos, nem sempre requer colocar o pé na estrada.

O caminho até o que temos de mais puro e verdadeiro em nossa essência é mais simples do que parece. Basta se abrir e observar que lá fora está mais claro do que um dia de sol.

O despertar causa dor. É impossível permanecer igual após mergulhar no que está escondido. Um filme que pode parecer normal para todos os outros, provavelmente fará chorar aqueles que acordaram. Um vaso de rosas na mesa da sala se transforma em motivo de festa. Uma joaninha que entra pela janela. Um pássaro que mira no mais profundo do seus olhos. O sorriso no rosto de alguém que te quer bem.

Nesta semana, meu coração estava petrificado. Nenhuma emoção me invadiu. Tentei escrever, tentei me expressar, mas mesmo quando falava com os outros, nada parecia coerente. Me escondi numa redoma de prepotência e silencioso desespero. Me afundei em mim, absorvida por um redemoinho de forte correnteza.

Só consegui me desvencilhar e voltar a respirar quando chorei por perceber que não estou só. Que alguns morrem ao tentar se encontrar. E que a mim, que estou viva e possuo tudo o que preciso para continuar respirando e seguindo em frente, resta colocar um pé na frente do outro, com gratidão a todos os que de alguma forma me ajudaram a chegar onde estou, mesmo aqueles com os quais jamais trocarei uma palavra, ou sequer um olhar. Que me iluminaram nesta jornada para dentro do que há de mais perigoso: a minha natureza selvagem.


Imagem: Unsplash

One comment

  1. O ser humano sempre foi selvagem. Deus, a lei dos homens, a educação rígida dos pais do passado é que seguravam seus instintos. Hoje, o que vejo, são pessoas despidas de tudo, despidas de valores, perdidas nos sentimentos mais primitivos de seu ser. Experimentando assim um falsa liberdade. Onde o que vale é satisfazer a si mesmo sem se importar com o semelhante. Tomando suas vontades e desejos como verdade e repugnando quem não sente o mesmo. Oprimindo aquele que não compartilha dos mesmos sentimentos. Vejo pessoas concordando com absurdos para se sentir inseridas em algo. E por aí vai… cada dia mais sem uma referência do que é certo e errado. Prejudicando, entristecendo, magoando, ferindo… muitas vezes sem nem sequer perceber a dor que causou… Saboreando a utópica liberdade…

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