Quando as histórias não surgem

Esta semana tem sido um desafio enorme para mim, tanto na parte física como em relação a minha sanidade mental. O trabalho está me drenando, ainda que eu não tenha tanto serviço quanto em outras épocas, a sensação é a de que mil palavras se transformam em cinco mil, e que o tempo está correndo mais depressa, só para me confundir, tirando uma com a minha cara. Adotei uma gata para fazer companhia ao meu Yoda, e o processo de adaptação entre os dois, apesar de ter se mostrado bem mais simples do que eu imaginava, demanda minha atenção e também o meu tempo. A gatinha se chama Mocaccina, ou Tina, mas agora eu me arrependi e gostaria de tê-la chamado de She-Ra.

Faz duas semanas que não consigo sair para correr com frequência, por causa dessas turbulências e também porque o frio está me consumindo num oceano de preguiça e falta de ânimo. Quer dizer, eu me sinto muito animada para fazer as outras tarefas, dentro de casa, porém não consigo me imaginar saindo de casa para enfrentar os cinco km com o nariz gelado. Aí eu começo a pensar em me matricular numa academia, só durante o inverno, e começa um outro dilema que tem a ver com o fato de eu detestar o ambiente desses lugares, desde a música, ao cheiro de suor e os selfies no espelho. Talvez eu devesse abrir um pouco a mente e tentar mesmo assim.

Não faço ideia do que estou escrevendo, mas vamos lá!
Não faço ideia do que estou escrevendo, mas vamos lá!

E é lógico que me falta tempo também para cuidar de mim, de modo geral, mas nem tanto, porque eu continuo tomando banho, escovando os dentes, lavando a cabeça e até mesmo passando hidratante no corpo antes de me trocar, embora eu nem sempre me lembre de usar os cremes faciais antirrugas, fazer esfoliação e tonificar a pele. O esmalte das minhas unhas já está lascado e eu precisava voltar com o cronograma capilar, ou então me libertar de vez dessa parafernália toda, mas é difícil, porque eu sempre tenho a sensação de estar largada quando não faço isso, na verdade eu também me sinto desleixada quando fico em casa sem sutiã, ou quando demoro para tirar o pijama pela manhã.

Eu só consegui parar agora para escrever, porque me obriguei a fazer isso, ainda que eu não tenha nada de muito interessante a dizer. Inclusive, acabei de assistir a um vídeo da Jout Jout (se você não a conhece, eis a oportunidade, ela é engraçadíssima) no qual ela indica um tumblr cheio de histórias sem graça – aliás, esse é o nome do site – e ela fala, enquanto lê alguns exemplos dessas coisas desinteressantes que acontecem no cotidiano,  que a grande maravilha da vida é encontrar a beleza nesses pequenos acontecimentos sem graça nenhuma.

Como vocês podem perceber, eu relatei até agora muitas dessas coisas sem a mínima relevância e que são de praxe na minha rotina. Falta de tempo, que tema mais clichê! No entanto, é a única coisa em que eu consigo pensar nesse momento. Porque eu queria estar lendo os livros que estão na metade, mas me comprometi com o blog, com o trabalho, com os gatos, o marido, o clã do Call of Duty. Daí, quando eu sento aqui para escrever alguma coisa interessante, um grande vazio se forma na minha cabeça, tão grande que consigo até mesmo ouvir os ecos quando eu pergunto pra mim mesma sobre o que vou falar hoje. Não que essa tarefa vá mudar a vida de alguém, ou mudar o mundo, mas, poxa, eu preciso disso. Eu também preciso de tudo aquilo que citei anteriormente.

Para ser sincera, o que eu mais preciso agora é de uma grande ideia. Eu preciso de histórias. Estou um pouco cansada de falar sobre coisas que acontecem comigo, mesmo com toda a beleza do cotidiano.

O temido espaço em branco que eu quero preencher com palavras incríveis que não consigo encontrar!
O temido espaço em branco que eu quero preencher com palavras incríveis que não consigo encontrar!

Acabei desistindo de ter uma grande epifania e assisti ao filme “O Grande Hotel Budapeste”, pois foi a única forma que encontrei de me distrair e, ao mesmo tempo, ficar de olho nos gatos que estavam se engalfinhando lá na sala. Demorei para perceber que tenho diversas opções de filmes disponíveis para assistir a qualquer momento na TV a cabo, de graça, e isso me deixou meio incomodada. Pensei em terminar um dos livros da minha estante, mas seria impossível ler alguma coisa ou jogar vídeo-game sem me preocupar com o fuzuê que os dois faziam no outro cômodo. Aliás, tive que pausar a história diversas vezes para ver o que acontecia com os felinos, quase sempre nas cenas cruciais. O roteiro do filme é incrível, a estética é sensacional, porém, no final, eu fiquei com muita vontade de comer doces confeitados, iguais aos do Mendl’s.

No início, o narrador e autor do livro homônimo fala sobre como as pessoas têm uma concepção errada a respeito dos escritores, e imaginam que eles têm um repertório infinito de personagens e eventos e situações mirabolantes, quando, na verdade, é o oposto que acontece. Uma vez que as pessoas descobrem que você é escritor, elas começam a trazer os eventos e personagens a você, basta manter a capacidade de observar e escutar com cuidado, e as estórias continuarão a aparecer.

Pois bem, acho que eu preciso começar a dizer pras pessoas que eu sou escritora. Porque a criatividade está escassa, assim como me faltam oportunidades tranquilas para criar alguma coisa interessante ou continuar tantas histórias que já estão começadas nos rascunhos. Talvez eu precise sair um pouco mais de casa e praticar a observação. Escutar mais. Voltar a enxergar as sutilezas e as tramas escondidas atrás das atitudes mais simples dos seres humanos.

Estou boiando num vácuo, sem cenários nem personagens, porém não sei se sou a criadora ou se, neste ponto da minha vida, eu devo me comportar como uma protagonista e deixar os enredos me procurarem.

Quem sabe se a chave para voltar a sonhar com os mundos que desejo criar, ou que preciso materializar em palavras, não seja simplesmente ficar onde estou e parar de perseguir os amigos imaginários que estão fugindo de mim…

Essa sou eu, esperando as histórias chegarem.
Essa sou eu, esperando as histórias chegarem.

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