Chuva de Vidro

O domingo começou com cheiro de friozinho e sol, com amor e abraços quentinhos debaixo da coberta. O gato miou, com fome, após derrubar os objetos do criado-mudo tentando chamar minha atenção, subiu na minha barriga, depois miou de novo no meu ouvido, e os trabalhos do dia se iniciaram com a sensação de paz, de que estava tudo bem, como deveria ser. Faltava café, mas tinha pão e coca-cola, e não faltava alegria, os sorrisos estavam jorrando pelos lábios como a luz pelas frestas das janelas. Fizemos planos para o almoço, mas, enquanto isso, podíamos nos entregar à preguiça por mais alguns momentos, esticar as pernas, os braços, brincar com o gato, ficar à toa. Afinal, é para isso que serve o dia de descanso, não é mesmo? E poucas coisas na vida são tão boas quanto poder ficar sem fazer nada na parte da manhã. É tão raro a gente ter momentos assim, que eles acabam se transformando em jóias preciosas, quando ocorrem.

Para ficar tudo ainda mais tranquilo e perfeito, decidi tomar um banho, lavar o corpo e a mente, preparar o espírito para a tarde de viagem a São Paulo. Outra coisa que me faz muito feliz é relaxar debaixo d’água, enquanto o perfume suave do sabonete invade o ar, misturado ao vapor da água quente, no inverno. E eu gosto de tomar banho de porta aberta, para não ficar aquela cortina de fumaça que sufoca e deixa todo o ambiente meio molhado, as paredes de azulejo escorrendo e o espelho totalmente embaçado.

Durante os oito minutos que passei sob a água morna que corria do chuveiro fui transportada aos mais distantes recônditos  da minha mente. Fantasiei sobre os textos que gostaria de escrever, fiz planos para a semana que estava por vir, pensei em fazer uma hidratação no cabelo, lembrei do filme que assistimos ontem e sorri ao ver o gato correndo de um lado para o outro através da porta de vidro do box. As gotículas que respingavam no vidro o deixavam meio deformado, o que tornou mais alto ainda o riso baixo que ressoava nas paredes do banheiro. As bolhas do sabonete envolviam a minha pele como um abraço de suavidade, e eu me senti uma daquelas moças das propagandas da televisão.

Vi o rosto do meu marido também em meio aos traços desenhados pelas gotas d’água no vidro. Viajei por um instante no padrão que escorria depressa pelas portas e ele, enquanto escovava os dentes, fez uma careta engraçada com a boca cheia de espuma. Para poder enxergá-lo melhor, limpei uma pequena área do vidro, apagando o rastro das gotículas e nós sorrimos um para o outro. Esses instantes preciosos encheram o meu coração de alegria mais uma vez, e decidi encerrar o banho para poder aproveitar melhor o tempo que parecia escorrer depressa como a água que caía pelo meu corpo.

Fechei a torneira, já procurando a maçaneta da porta translúcida, enxugando o rosto com uma das mãos. Aquele seria o último instante de felicidade de um dia que tinha tudo para ser o domingo perfeito.

o toque da destruição
o toque da destruição

Ao fazer a porta correr para a direita, senti uma estranha pressão bem no centro da folha de vidro, como se alguma coisa a estivesse segurando e impedindo o movimento. Minha mão continuava segurando o puxador de metal enquanto eu senti uma chuva de vidro descendo sobre meus pés, braços, e se espalhando no piso à minha frente.

O tempo parou e eu entrei em choque. A cena se repetiu diversas vezes, em ângulos diferentes, em câmera lenta, num déjà vu contínuo, até que me dei conta do que tinha acontecido. Ao ouvir o barulho dos cacos se chocando contra o chão, despertei daquele transe e o vermelho do sangue me fez sentir vertigem. Os ouvidos apitavam, zumbiam, eu não sabia se estava chorando ou tremendo, ou se a dor era real ou apenas um artifício da mente após perceber o que havia ocorrido.

Soltei o puxador, agora inútil, em meio aos outros pedaços do vidro que formavam um tapete de vitral sobre meu pé

pense nessa cena, num loop infinito
pense nessa cena, num loop infinito

cortado. Cada respiração fazia meu coração bater mais devagar, na esperança de que aquilo ainda fosse um dos devaneios do banho, ou que eu estivesse apenas sonhando. Mas a dor persistiu, e eu vi meu marido ali na minha frente, jogando a toalha sobre os estilhaços para que eu pudesse sair dali e me recompor. Chorando como uma criança assustada, perguntei sobre o gato, porém, antes que meu marido respondesse, eu o vi lá no fundo da sala, com o rabo encolhido entre as patas e as pupilas dilatadas de medo. De repente, não estava mais preocupada com a mão retalhada ou o pé ensanguentado, pensava apenas em como faríamos para limpar tudo aquilo, para mudar o ambiente, tirar a caixa de areia do gatinho e passar para outro lugar da casa.

A raiva tomou conta do meu ser e, enquanto deitava na cama, molhada, deixando um rastro de sangue pelo piso do quarto, comecei a praguejar em torno dos porquês. Por que aquilo tinha que acontecer logo agora? Por que comigo? Quer dizer, o pé estava todo cortado, bem na metade do dedo, havia minúsculos cacos de vidro por todo o meu corpo e, em desespero, olhei no espelho para ver se o rosto estava intacto. Após avaliar os danos e fazer os curativos provisórios, ajudei o marido a recolher os destroços, e senti-me muito culpada ao ver que ele também se cortou enquanto limpava o banheiro. Mais sangue, mais tristeza e frustração.

A gente assiste àquelas cenas dos filmes ou séries em que as pessoas atravessam os vidros e saem intactas, achando que a vida é assim. Pois eu lhes digo: não é. Meus braços doem pelo impacto do peso da porta, não consigo caminhar normalmente por causa do corte no dedo, e, confesso, estou traumatizada com portas de vidro. Não sei como será a minha rotina nessa semana, mas de uma coisa eu tenho certeza: quero distância de coisas cortantes por um bom tempo!

Cadê o sangue, Voldemort?
Cadê o sangue, Voldemort?

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