Eu não quero emagrecer

Voltando da minha corrida regular de cinco km, que pratico ao menos três vezes na semana, abro a geladeira para matar a fome causada pelas mais de quinhentas calorias eliminadas nessa última hora. Olho para o requeijão light, o leite desnatado, as frutas… Decido, então, fazer um lanche meio sem graça, porém saudável, usando como base o pão integral que comprei na padaria. Café com leite e sanduíche de requeijão. Às vezes, substituo o requeijão por geleia, ou faço uma combinação com os dois, ou crio um lanche natural com patê de atum e alface, e tomo um chá ou suco. Quando estou animada, faço uma sopa de legumes. Eu não faço isso para contar calorias, economizar gordura ou perder peso, eu faço por que me sinto bem. E eu me sinto melhor ainda quando me permito comer um pedaço de pizza numa quinta-feira, por exemplo.

O que eu tenho vontade de comer quando volto da corrida
O que eu tenho vontade de comer quando volto da corrida

Já faz mais de seis meses que comecei um processo de reeducação alimentar, voltei a praticar exercícios físicos e diminuí a quantidade de cerveja e alimentos gordurosos ou muito calóricos durante a semana, embora o chocolate pós-almoço seja quase uma rotina. Mas nada disso tinha a ver com o fato de eu querer ser mais magra, apenas decidi que precisava cuidar um pouco mais da minha saúde. Acabei indo a uma nutricionista, pois estava com deficiência de vitamina D e queria ver se podia compensar essa falta com alimentos específicos, e uma coisa levou à outra. A consequência de seguir uma alimentação um pouco mais balanceada do que eu já tinha, além da prática de exercícios regulares, me trouxe inúmeros benefícios. Nesse período, consegui atingir meu objetivo de correr sem me cansar, ganhei mais disposição, consigo subir os seis lances de escada até o meu apartamento sem morrer de dor nas pernas e sem falta de ar, voltei a dormir bem e acordar sem sentir cansaço. A musculatura do corpo melhorou, não sinto tantas dores nas costas quando fico o dia todo trabalhando, voltei a ter flexibilidade e esticar os braços e pernas sem que fiquem travados ou estalando loucamente.

Porém, a única coisa que as pessoas percebem é: eu estou mais magra. Os elogios vêm aos montes, às vezes antes mesmo do “oi”, quando encontro alguém que não vejo há algum tempo, e toda essa dinâmica me fez refletir bastante sobre como os padrões de beleza influenciam em nossa percepção de saúde, bem-estar, auto-estima e felicidade.

Eu sempre fui gorda. É importante frisar isso, para que o leitor entenda que eu não estou fazendo um discurso da “gorda” que apenas se “sente gorda” mesmo usando um manequim 38. Na verdade, todas nós passamos por essa sensação de inadequação perante o inatingível ideal de beleza vendido na mídia e cobrado das mulheres, ainda que estejamos dentro de um determinado tamanho esperado/desejável/aceito como conforme, ainda que sejamos lindas, impecáveis, perfeitas e deusas adoradas, lá no íntimo certamente ainda olharemos no espelho, tentando ponderar o que poderia ser melhorado, empinado, esticado, cortado…. No entanto, essa é matéria para outro texto.

Dieta? Não, obrigada, prefiro comer!
Dieta? Não, obrigada, prefiro comer!

Como nunca soube o que é ser magra, posso apenas dizer que ser gorda não é fácil. Eu fui aquela menina que todo mundo zoava na escola, era desengonçada e vestia, com 13 anos de idade, praticamente o mesmo manequim que visto hoje. A primeira dieta que fiz foi ainda antes disso, com 10 anos. Não havia nada de errado comigo, apenas o peso e a previsão de que eu morreria com as veias entupidas de gordura ou teria uma terrível doença no futuro caso não perdesse peso urgentemente. Quer dizer, não mencionaram que eu poderia seguir uma vida menos sedentária sem precisar focar no peso, por exemplo, apenas disseram: “você tem que emagrecer”. E, assim, a minha relação com a imagem do meu corpo, com a comida e com o mundo foi bastante prejudicada, antes mesmo que eu pudesse compreender o que tudo isso significava.

Passei muitos anos sofridos, acreditando que tudo de errado que acontecia comigo era por ser gorda. Que eu jamais seria amada de verdade, porque sou gorda. Que eu era feia, porque sou gorda. E que eu só poderia ser saudável quando eu parasse de ser gorda – afinal, foi isso que me disseram a maioria dos médicos. Como não conseguia nunca emagrecer até chegar ao peso “ideal”, o ciclo de autopunição, efeito sanfona, dietas mirabolantes seguiu por muito tempo.

Um belo dia, eu resolvi jogar todo esse discurso nocivo e destrutivo na privada. Comecei a procurar apoio em grupos na internet, vi que muitas mulheres gordas são lindas, e até mesmo modelos profissionais nas passarelas plus size. Conheci blogueiras estilosíssimas que gritam pro mundo “F… your beauty standards” (ou “f… seus padrões de beleza”) e são como são e pronto. Descobri que essa falácia de “só tem saúde quem é magro” não passa de uma mentira, mesmo porque eu sou gorda e nunca tive nenhum problema sério de saúde além de ovários policísticos e suspeita de endometriose – que, diga-se de passagem, não são doenças exclusivas de mulheres gordas.

Faça as pazes com o seu espelho
Faça as pazes com o seu espelho

Então, só depois que decidi adotar a técnica da auto-aceitação e da prática de exercícios e cuidado com a alimentação com foco na saúde, foi que passei a ter uma relação muito mais harmoniosa e respeitosa comigo e com o meu corpo. Parei de passar fome e me sentir tonta com dietas malucas, de tomar remédios, malhar três horas por dia na academia e me sentir culpada por faltar um ou dois dias, ou me punir e deixar de curtir a vida por causa de algo tão banal quanto a medida da minha cintura, das pernas, das coxas… E no auge dos meus mais de trinta anos e mais de oitenta quilos, hoje sou mais feliz com a minha auto-imagem do que quando era mais magra e sentia tonturas, não conseguia me concentrar e não curtia a vida porque restringia a alimentação a menos de mil calorias por dia.

Percebi, enfim, que ter a coragem de ser quem eu sou é quase um ato político, o que me ajudou ainda mais a me amar sem ficar olhando para as ‘imperfeições’ que o mundo fitness insiste em apontar como pecados mortais.

Dietas são entediantes!
Dietas são entediantes!

O resultado de tudo isso é que eu não tenho mais o desejo de emagrecer, e isso deixou de ser uma prioridade. Caso aconteça, em decorrência do estilo de vida que adotei como algo que é bom e funciona para mim, que seja. Caso eu permaneça com o mesmo corpo que tenho agora até o fim da vida, tudo bem. O que me importa é viver de uma maneira que seja saudável, na minha opinião, e que inclua todos os aspectos da minha rotina, que também inclui umas gulodices de vez em quando.

2 comments

  1. Mari… seu texto já tem mais de um ano, mas caiu como uma hiper mega blaster luva para mim. Quer dizer, não todo ele, mas a primeira parte de “sempre fui gorda e o mundo quer provar que isso está errado”. A diferença é que eu ainda não consegui superar isso. Tem horas que não ligo, mas normalmente dói e muito. Você pode me falar mais sobre esses grupos de apoio? Acho que ajuda muito ter gente que entende o que você passa e vai te ouvir e aceitar sem julgamentos. No mais… quero ler mais coisas suas. Obrigada por me inspirar!

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    1. Olá, Mila, obrigada pelo comentário! Que bom que o meu texto te ajudou, de alguma forma, fico bastante feliz. Na verdade, o apoio que encontrei na internet foi através de blogueiras e grupos do Facebook. O blog da Ju Romano “Entre Topetes e Vinis”, que também tem página no Face, é incrível. Tem a página Grandes Mulheres também, e a autora, além de tratar desses assuntos de auto estima, também traz reflexões sobre a vida, com uma escrita muito delicada e profunda. Recomendo também o site Lugar de Mulher, que é maravilhoso. Em inglês, o blog The Militant Baker é o que eu mais acesso e tem muita coisa boa para ajudar na jornada de amor ao corpo. Alguns grupos feministas do Facebook me ajudaram a refletir bastante sobre esta questão da imagem e da obrigação de ser sempre bonita e dentro dos padrões.
      Se precisar de qualquer tipo de apoio, estamos aí! Pode ter certeza que eu entendo bem esse sentimento 🙂

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