As Coisas Impossíveis do Amor

Esta tarde, enquanto trabalhava, assisti a um filme que leva o mesmo título desse post. Lançado em 2009, o longa conta a história de Emilia, interpretada maravilhosamente pela Natalie Portman, e sua batalha para conseguir superar o trauma causado pela morte de sua filha recém-nascida, entre outras coisas ruins do passado e do presente. Longe de ser uma comédia romântica besta, tampouco um drama muito denso, o filme mostra a complexidade do ser humano diante das inúmeras adversidades dentro dos relacionamentos familiares e amorosos. Além disso, há o conflito vivido entre Emilia e William, que é filho de seu marido e de quem ela não consegue se aproximar direito.

Ao final, ficamos com aquela sensação de que tudo está resolvido, mas nem tanto, assim como é na vida. Você pode estar pensando que essa é uma péssima resenha, porém esse texto não tem a pretensão de se aprofundar nessa história. Eu quero falar do amor, aquele que é imutável, infindável, perfeito e incondicional. Aquele que não vê o impossível, e que transforma todas as situações.

Eles se odiavam, mas agora se amam.
Eles se odiavam, mas agora se amam.

Antes de tentar fazer qualquer análise, é preciso tentar definir o que é o amor. Existem por aí riquíssimas reflexões acerca desse assunto que nos desperta tantas emoções, porém poucas destacam a importância de compreender que o amor é muito mais que um simples sentimento. Podemos nos apaixonar perdidamente por alguém, mas se não tomarmos a decisão de amar essa pessoa, é provável que o sentimento se apague ao menor desapontamento.

Se eu escolho amar uma pessoa, o amor deixa de ser um impulso inconsciente e incontrolável e se transforma em um compromisso que envolve tanto a emoção quanto a razão, e ganha um aspecto que beira o incondicional. A paixão implica em motivos, ou seja, você se sente atraído ou se apaixona por alguém por causa de alguma coisa e de algum benefício que esse relacionamento possa te trazer, sendo o primeiro deles a satisfação de um desejo carnal. Já o amor-caridade, esse não necessita de razões, aliás é justamente o contrário. Eu amo o meu próximo, mesmo ele sendo meu inimigo, e esse amor está mais fundamentado na fé, na doação e na espiritualidade do que num relacionamento amoroso, em si. É desse amor que Cristo fala, é essa a caridade que Ele nos ensina a viver. O amor que não cobra, o que está sempre feliz por ver a alegria de quem se ama, o amor que se despoja do ego para atingir um objetivo mais sublime que a simples satisfação de desejos. 

Em sua carta aos Coríntios, o apóstolo Paulo discorre sobre o amor-caridade:

A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante.
Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor.
Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
A caridade jamais acabará.

É esse o amor que deveríamos estar espalhando por aí, e não os romances voláteis que frequentemente vemos retratados no cinema e na literatura, nos quais existe aquela noção de destino, de pessoas perfeitas feitas sob medida e toda essa balela nociva na qual a grande maioria insiste em acreditar. Quem nunca sonhou com um príncipe/princesa encantado/a, que apareceria do nada para trazer sentido à essa vida banal? É muito injusto disseminar essa ideia de faz-de-conta, porque na vida real as coisas são bem diferentes. Ninguém é obrigado a te salvar de nada, mas o amor de verdade acaba fazendo isto mesmo sem prometer nada, mesmo com todos os apertos e obstáculos no meio do caminho.

Isto significa que, para a caridade, ou o amor desinteressado e incondicional, não existem situações impossíveis e barreiras intransponíveis. Ora, se o amor jamais acabará, então não deveria existir isso de relacionamentos que se rompem, ódios, desavenças… Pois é. Acontece que não temos o hábito de praticar a caridade em nossas relações e vivemos esperando aquele conto de fadas inatingível. A gente acha que caridade é ajudar o próximo, tipo, entregar uma sopa ou um agasalho aos desabrigados, visitar asilos, orfanatos, fazer doações em dinheiro. E acabamos esquecendo que os próximos mais perto da gente, ou seja, as pessoas com quem temos os relacionamentos mais íntimos, também precisam da nossa caridade. Os namoros, amizades, casamentos, estão seguindo a onda do amor líquido, que não se solidifica com o tempo, que é substituído à conveniência do freguês. O resultado são as ideias distorcidas do que é amar, a ausência de disposição para esse amor desprendido e puro, transformando as uniões entre os seres humanos em produtos descartáveis.

“Como conseguimos ficar juntos por 65 anos? Nascemos numa época em que, se algo estava quebrado, nós o consertávamos, e não o jogávamos fora…”

Nesse ponto, eu gostei muito desse filme, porque mostra justamente que é possível transcender certas barreiras, reatar laços que pareciam desfeitos, encarar o amor como uma estrada de aprendizado. A personagem principal se vê mergulhada e revoltas, ódios, mágoas e acaba sendo incapaz de perdoar e amar a si mesma. Consequentemente, ela acaba descontando as suas próprias infelicidades nos amigos, parentes, no marido e no enteado. Amor ágape fail! E quantas vezes também não agimos dessa forma, não é verdade? Como somos ainda crianças quando se trata da sabedoria necessária para amar ao próximo, sem colocar nossas vontades em primeiro lugar.

Eu acredito que todos nós deveríamos ler diariamente esse texto de Paulo sobre a caridade, a começar por mim. Se a gente conseguisse compreender metade, se conseguir exercitar isso no nosso dia a dia, o mundo certamente seria um lugar bem mais tranquilo e agradável de se viver. E sem tantas impossibilidades.

As coisas impossíveis do amor só existem porque a gente complica tudo. Em vez de nortearmos as nossas decisões amorosas à luz da caridade, colocamos o ego em primeiro lugar, quase sempre. Não estou dizendo que, para que o amor seja possível é preciso abdicar de si mesmo totalmente, apenas um pouco. Abrir mão das nossas vaidades, do orgulho e da satisfação pessoal pensando na paz e na harmonia da vida a dois, a três, na vida global, bem, parece utopia, porém é totalmente possível. Basta a gente lembrar que o amor-caridade é uma decisão, e passar a tomá-la em todos os momentos de nossas vidas.

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One comment

  1. Muito bom, aliás se não fossem as nossas imperfeições não teria sentido falar em abdicação ou renúncia porquanto uma coisa só pode existir porque temos a noção clara dela ou em outras palavras só sabemos do amor quando ele nos falta e quando somos amados não damos conta disso.

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