Ninguém está bem

Todas as segundas-feiras eu participo de uma célula de oração, e essa semana fomos à casa de uma amiga que está grávida e sofrendo muito com enjoos e depressão, para tentar alegrá-la e levar um pouco de conforto ao seu sofrimento. Tivemos um momento muito bonito de partilha, e a conclusão a que chegamos é que existe, no mundo, um sentimento de tristeza pairando no ar, pronto pra engolir a todos que estiverem por perto. Oramos muito, para que Deus possa nos livrar dessa atmosfera pesada e cinzenta que apaga até mesmo os dias mais ensolarados.

Na verdade, nem precisaria dessa introdução para dizer que a grande maioria das pessoas que eu conheço não está nada bem. Cada um com os seus problemas e situações difíceis, circunstâncias completamente diferentes, conflitos interiores ou externos, porém com algo em comum: um sorriso que não reflete o estado verdadeiro da alma. Se você perguntar a alguém “está tudo bem?”, existe uma chance de quase cem por cento de a resposta ser “sim, está”, mesmo quando a pessoa está gritando por dentro, desesperada, desejando uma luz que brilhe no fim do túnel da tristeza. E não é um abatimento fútil, como muitos podem pensar, nenhuma dor é menor que a outra. A gente tem a tendência de olhar para o sentimento dos outros e achar que não tem fundamento naquilo, ou comparar a outros sofrimentos e dizer “nossa, isso não é nada se comparado a …”. E não é bem assim, não estamos dentro do coração ou da cabeça da outra pessoa para saber o que se passa ali, não é mesmo?

Eu mesma, estou assim já há algum tempo, alguns dias são melhores que os outros, me trazem mais alegria, confiança em Deus, entusiasmo, forças. Em outros, a vontade que me invade é de apenas deitar na cama, não fazer nada, mas eu não posso me entregar, tenho muitas coisas pra fazer, obrigações, compromissos, tenho que ser forte, engolir o que me faz mal, espantar o que me fere e continuar em frente, sem vacilar. Eu preciso estar em pé e com um sorriso no rosto, para fortalecer o meu marido, que também está triste, e cujo desânimo muitas vezes eu julguei ser infundado, por falta de misericórdia ou sei lá, talvez por não querer me sentir culpada por não conseguir fazê-lo feliz. Eu devo permanecer firme, para cuidar da casa, do trabalho, do gato, das coisas e pessoas que dependem de mim, de uma forma ou outra. Eu tenho que ser resiliente. Todos temos, o tempo todo, que ser fortes, de uma forma sobre-humana. É essa a principal qualidade que todo ser humano tem que ter nos dias em que vivemos, é isso o que o mundo nos cobra. Mas, o que é ser forte? Fiquei refletindo ontem de madrugada, quando despertei, sem sono, e o teto escuro do meu quarto se transformou numa tela, projetando meus pensamentos. A vida toda eu chorei por qualquer coisa, e realmente a torneira das lágrimas se abre facilmente quando eu preciso desabafar o que o meu peito não aguenta mais. Até mesmo quando não preciso. O choro é um sinal de fraqueza, dizem, então eu devo ser realmente a mais fraca das criaturas. No entanto, ao longo da caminhada neste mundo, comecei a compreender que a força não consiste em esconder o que eu sinto, a tristeza ou até mesmo a vontade de desistir de tudo – pelo contrário. Acredito que expor o seu interior e pedir ajuda é um ato de bravura, porque você se desnuda na frente do outro, mostra sua vulnerabilidade, sem temer o que possa acontecer. Será que estamos sendo assim tão corajosos em nossas relações com o próximo e com o mundo? Posso dizer apenas por mim que nem sempre.

A força, alguns irão afirmar, é a capacidade que você tem de superar os limites, de resistir às tribulações, de permanecer em pé diante dos ventos tempestuosos. E o que acontece se você cair? Precisaremos de ajuda e de socorro, isso é inegável. E de onde virá esse socorro? Estamos num momento da história em que a conectividade nos aproxima cada vez mais, e, ao mesmo tempo, nos afasta e nos transforma em seres robóticos e carentes de sensibilidade. Somos ensinados a fazer cálculos mirabolantes, temos acesso a fatos incríveis com um clique do mouse, viajamos o mundo todo, mas não somos ensinados a lidar com as emoções, nem as nossas nem as dos que nos cercam. Os pais quase não conversam com os filhos que, absortos pela tecnologia, desejam muito mais estar próximos do que é virtual do que da realidade, desvinculando-se dela gradativamente. A televisão substituiu as longas conversas no portão de casa. A individualidade tomou o lugar do coletivo, do comunitário. Até mesmo os momentos de refeição com a família, que antes eram sagrados, se tornaram raros. A empatia é a qualidade mais escassa, e não digo no sentido de gostar de alguém ou sentir afinidade, mas a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro e tentarmos ver como é estar no lugar dele. E como isso é difícil! Principalmente em uma situação de estresse ou desgaste.

O que mais me deixa triste nessa história toda é que eu, como cristã, não poderia ser assim tão melancólica, e me pego nesse outro dilema, de não ser capaz de refletir a face de Cristo em minhas atitudes, de não conseguir ser a luz, o sal, o fermento que Ele nos chama a ser. A alegria do Senhor é a minha força, será que se eu repetir isso todos os instantes, tudo vai passar?

Eu só peço a Deus que tenha misericórdia de nós. Que nos conceda a vivacidade, a fortaleza, sorrisos sinceros e o Seu Amor. Com letra maiúscula mesmo, pois é esse o antídoto para a falta de alegria, o Amor que cura, que acolhe, liberta, transforma. Que, mesmo sem a gente merecer, abre os braços e diz “Não se desespere, vai ficar tudo bem”. Tudo vai ficar bem.

2 comments

  1. Mari, me identifiquei muito com seu texto. Primeiro porque sempre gostei de refletir sobre esses aspectos da vida. De vez em quando me pego pensando nesses acontecimentos e preciso escrever, pois nem sempre é possível compartilhar determinados sentimentos com os mais próximos.
    Meses atrás, fiz a mesma pergunta: por quê as pessoas não expõem com tanta clareza seus sentimentos? Cheguei a conclusão que eu mesma não conseguia fazer isso com tanta facilidade, já que sempre achei que expondo situações incômodas na vida privada, as pessoas me julgariam como “chata e negativa” e provavelmente se afastariam de mim.
    Nesse mesmo contexto, cabe dizer que ainda acredito que uma parte dos seres humanos não estão nem aí para o que acontece com o outro. Ninguém se comove, ninguém se assusta ( ou quando teme, é por medo de perder benefícios próprios), ninguém balbucia palavras de consolo. Não sei se a culpa é só da internet e de tantos meios de comunicação evoluídos, mas posso dizer que o mundo anda de cabeça para baixo: é tanta superficialidade nas relações que me tornei uma pessoa completamente enjoada e excluí a maioria das minhas redes sociais e me afastei das relações que, no fundo, me faziam mal – exatamente por não encontrar nelas algo forte e verdadeiro.
    Não se de onde surgiu forças para seguir adiante, já que me encontrei sozinha em muitos momentos, me sentindo desamparada. Mesmo não sendo religiosa, tenho esperança que dias melhores virão e que a fé é inabalável. Talvez seja isso que realmente fez com que eu acreditasse que a vida segue com seus tropeços e que, em algumas momentos, ela traz surpresas incríveis e reveladoras. E basta só aguardar com paciência.
    (Desculpa o comentário enorme. Rs!)
    Obrigada pelo texto! 😉

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