Por uma vida mais natural

muito melhor que um shopping center
muito melhor que um shopping center

Semana passada, visitei uma horta orgânica situada numa imensa fazenda dentro da minha cidade. Cercada por terrenos que abrigam condomínios de luxo, hospitais, comércios e ruas movimentadas, a vasta extensão de terra é um empreendimento ousado, na minha modesta opinião. Segundo o administrador que nos atendeu, eles possuem um certificado oficial de produção orgânica, que envolve complexos processos que garantem a ausência de produtos químicos e metais pesados, desde o adubo que utilizam para fertilizar a terra até a água que rega as modestas lavouras. Numa pequena estufa, incontáveis borboletas rodeavam os viveiros de mudas e de flores comestíveis. Curiosamente, o barulho da cidade pareceu dissipar-se quando entramos pela porteira de ferro e o ar era significativamente mais fresco, talvez por causa da vegetação de compensação, plantada em torno do terreno. Não vou dizer que o lugar era mágico, ou algo assim, mas eu tive uma sensação de nostalgia absurda ao ver as lagartas correndo pelas folhas dos repolhos, as vacas que pastavam logo na entrada, as galinhas cacarejando e ciscando no galinheiro que em nada se parecia com as granjas horrorosas que produzem os ovos vendidos em supermercados.

Aqui onde moro, existem contrastes muito gritantes. Num dos bairros mais nobres, do lado oposto dos prédios comerciais adornados com vidros espelhados, dos bares e restaurantes badalados, um gigantesco pasto ainda sobrevive – embora alguém tenha dito que o terreno foi vendido, o que me entristeceu deveras. Perto do meu prédio, um enorme terreno de esquina permanece com seu chão verde, mas, até quando? Sem contar que é provável que daqui a dez anos ou menos, esses contrastes sejam substituídos pelo total concreto, visto que a tendência das cidades interioranas como a minha é a de se transformarem em réplicas de São Paulo. Quanto desperdício…

Enquanto eu caminhava com o pé na terra vermelha, coberta por lajotas para a comodidade dos clientes, admirando as tenras alfaces, as mudas de cenoura, beterraba e os jovens pés de tomate, mamoeiros carregados de frutos ainda verdes e um pequeno campo de milho, minha mente divagou sobre como a vida pode ser bem simples e como as necessidades inventadas pelo avanço tecnológico poderiam muito bem ser colocadas de lado. Um simpático galinheiro atrás da plantação de hortaliças me trouxe saudades da época em que passava as férias no sítio dos meus avós.

Eu me considero uma pessoa privilegiada pela oportunidade que tive de conviver com a natureza tão de perto. Meu avô e meu pai construíram um galinheiro, e nós ganhamos pintinhos, que mais tarde se transformaram em galos e galinhas, dos quais cuidávamos e gostávamos como animais de estimação. Também tivemos uma horta, a qual ajudamos a cultivar com entusiasmo e muito suor. O sítio tinha um imenso pomar com diversos tipos de laranjas, limões, lima-da-pérsia, caqui, mangas de tamanhos e nomes variados, mandioca, abacate, seriguela, amoras, jabuticabas, acerola, cidra… Todas as manhãs, a minha avó recolhia os ovos, que se transformavam em bolos fofinhos, omeletes, tortas, e tantas outras delícias. As frutas viravam geleias, doces, sucos, ou então a gente se empanturrava de comer manga e amora, direto do pé. Nós corríamos pela grama, subíamos em árvores, ajudávamos meu avô a retirar os favos de mel das colmeias de abelhas jataí, víamos pássaros incríveis, gatos do mato, tatus, cobras, lagartos. À noite, sentávamos em volta da lareira, ou acendíamos fogueiras, contávamos estórias, “causos”, admirávamos as estrelas e dormíamos cedo, para aproveitar bastante o dia seguinte. 

Lembrar dessa infância que vivi tão intensamente sempre me faz desejar fugir da cidade grande. Por mais que eu aprecie algumas facilidades do nosso mundo tecnológico, eu trocaria todos os tablets, notebooks, smartphones, vídeo games e televisores por um pedaço de terra para chamar de meu. Uma casinha simples, com varanda, cercada de flores, uma horta, um pomar e um galinheiro. Sinceramente, eu não precisaria de mais nada. Bastava ter meu marido, meus livros, um violão, que a vida já estaria ganha. Imaginem só, viver do que a terra nos dá, sem precisar trabalhar das oito às seis para sustentar uma vida que mal conseguimos curtir, pagando impostos, tomando como nossos os problemas de nossos patrões. Ah, eu trocaria todas as palavras traduzíveis desse mundo por uma enxada, se a terra fosse minha, sem hesitar. Trocaria todas as luzes da cidade por uma fogueira sob o céu estrelado.

minha casa dos sonhos é mais ou menos assim

Talvez esse sonho bucólico não seja viável nos dias de hoje. Está tudo tão caro, que o sonho de ter o meu mundinho isolado se torna cada vez mais distante. E isso é muito triste, porque a visão que eu tenho do futuro é cinza, cheia de fumaça e com nenhuma árvore à vista…

Quantas crianças, hoje, sequer sabem o que é uma galinha, além daquela pintadinha que aparece na televisão? Quantos jovens vivem doentes, com falta de vitamina D, por exemplo, por falta de exposição ao sol? Aliás, eu sofri disso tempos atrás, é a doença de quem trabalha em escritórios, disse o médico. Somos forçados a caminhar em pequenas ilhas verdes, cada vez menores nas grandes cidades, ou frequentar academias, para compensar as incontáveis horas que permanecemos sentados no trabalho e não deixar o corpo enferrujar por completo. Entrar em contato com a natureza ainda é possível se a gente viajar para algum lugar mais preservado – mas, até quando estes paraísos conseguirão resistir à nossa fome por recursos? Daqui a pouco, teremos vegetação e animais somente em exposições dos museus de história natural.

Eu não sei bem como isso poderia mudar, já que parece que os seres humanos se esqueceram da importância da terra e de como é importante manter o frágil equilíbrio natural das coisas. Talvez seja necessário destruir tudo e começar do zero. O que eu gostaria de ver, mesmo, era a vida voltando ao começo, as pessoas olhando para a Terra com respeito, humildade e buscando viver de forma harmoniosa e benéfica para todos, e não só tentando minimizar os impactos que já causamos.

E enquanto eu sonho com uma vida mais próxima do natural, olho para o horizonte e vejo os arranha-céus que não param de subir. Nas palavras de Jonni Mitchell, They paved paradise and put up a parking lot….

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