Dedos Voadores

O trabalho é um mal necessário, não é mesmo minha gente? É mais um bem do que um mal, por mais que às vezes eu deseje ter nascido podre de rica e por mais que eu sonhe diariamente com o dia em que não vou ser obrigada a acordar cedo e pegar no batente. Eu gosto muito de trabalhar, não me entendam mal, aliás por vezes penso que gosto demais e já tive muita fases de workaholic que me mantinham presa à cadeira e longe dos amigos e da vida, em geral. Ontem foi feriado e, em vez de eu aproveitar para descansar, colocar a leitura em dia, ficar na cama até mais tarde, ou fazer algo agradável, como ir ao cinema, sair para jantar ou, sei lá, curtir a vida, passei mais de cinco horas na frente do computador para fazer umas traduções que peguei como freelance. Hoje, quando acordei para trabalhar, pensei “que lástima, queria estar na cama” – olha que engraçado! – e esse sentimento logo se dissipou quando meus dedos começaram a percorrer as teclas já desgastadas desse meu velho notebook. As letras A, E, R, S, D estão totalmente apagadas e os botões possuem sulcos e depressões, por já terem sido pressionados infinitas vezes desde que saíram da caixa.

palavras voando na velocidade da luz
palavras e dedos voando na velocidade da luz

Desde meus primeiros anos como tradutora, tenho aprimorado cada vez mais a minha capacidade de digitar rápido. Antes, eu conseguia escrever bem depressa nos chats e nos antigos blogs, mas isso não é tão difícil se comparado a traduzir textos de uma forma ágil e sem perder a qualidade. Já bati vários recordes pessoais ao longo do tempo, porém hoje creio que foi a produção mais digna de nota de toda a minha carreira, e sem resultar num texto grotesco. E essa evolução pessoal é algo muito gratificante, em todas as áreas da existência, porém, para mim, evoluir bastante no trabalho é algo que não tem preço. Posso até não ser recompensada financeiramente da maneira que eu gostaria, mas o gostinho de saber que eu sou eficiente é mais prazeroso do que o dinheiro, em si – às vezes, né? 

Claro que não vou ficar me gabando por isso até o final desse texto, confesso que já fiz a dancinha da vitória aqui na solidão do meu escritório e foi mais do que suficiente, é que eu me peguei pensando sobre como faziam os escribas, escritores, tradutores e afins, no passado. Se hoje eu reclamo por ter que traduzir 8 mil palavras num dia, tendo a ajuda dos softwares de auxílio à tradução como o Trados, o Wordfast, sem contar o paizão do Google, e toda a Internet de braços abertos para fornecer referências e traduções ou equivalências dos mais diversos termos, fico aflita só de imaginar os antigos letrados, pensadores, acadêmicos, à luz de velas e lamparinas, com longas penas e tinteiros nas mãos, enxugando as páginas delicadamente a cada frase ou parágrafo que escreviam, cuidando para não borrar a tinta escura que impregnava seus dedos, as unhas, a alma.

E os pesados tomos que utilizavam como bibliografia, os dicionários, as enciclopédias, os compêndios empoeirados que provavelmente ficavam empilhados em suas mesas. Esqueça toda essa frescura de ergonomia, isso aí é coisa nova, eu tenho cá pra mim que os meus colegas dos séculos anteriores deviam viver submersos na salmoura para conseguirem cumprir suas tarefas.

Não precisa ir tão longe assim, pensemos nos que foram agraciados com a tecnologia da máquina de escrever. Aquela coisa que, para nós, parece pré-histórica e pra lá de obsoleta, barulhenta, pesada, desconfortável. Meu pai tinha uma dessas, portátil, e sempre que eu me punha a treinar datilografia ali, ou desatava a escrever um pouco mais depressa, as teclas iam todas juntas no mesmo espaço, se emaranhavam e dava um trabalho danado para colocar tudo no lugar. Era necessário limpar os tipos – as teclinhas com o formato das letras que carimbavam a fita e transferiam o texto no papel. Caso você errasse, acumulava folhas no lixo e a natureza pagava o preço. Se eu tivesse nascido nessa época em que o computador não era nem sequer um feto, eu com certeza faria tudo à mão.

Tudo bem, alguém vai argumentar que no passado esses serviços não eram tratados como produção em massa, como são hoje, e que havia espaço para demorar um ano numa tradução que eu demoro um mês, por exemplo, mas gente, é muito maluco pensar em como a nossa vida profissional é cômoda atualmente. Temos mais conforto, mais mobilidade, mais conectividade, praticidade, entre tantas outras coisas, no nosso século, e nem sempre paramos para refletir sobre essas facilidades e tudo o que foi necessário ocorrer até chegarmos onde nos encontramos. Outro dia, estava descendo a serra até Ubatuba e imaginei as carroças passando por ali muito antes de existirem os automóveis modernos. Ou então, aqueles primeiros carros desengonçados, chacoalhando pelas curvas sinuosas até lá embaixo.

E, nessa tarde em que divago sobre os avanços tecnológicos, a velocidade, a necessidade de fazer tudo rápido, cada vez mais depressa, enquanto alterno entre a janela desse editor de texto, as mensagens do celular, os e-mails e outros sites que pipocam no meu navegador, olho para meus dedos com um sentimento de gratidão. Eles são os verdadeiros operários de tudo aquilo que eu realizo, dos experimentos literários à produção diária, mais veloz a cada dia. Encaro o meu notebook com um sorriso de agradecimento – eu não sei se teria seguido esse caminho profissional se tivesse que fazer tudo à mão e sem a ajuda dos dispositivos que utilizo diariamente.

Talvez seja a hora de apreciar mais as ferramentas que me possibilitam ganhar o pão de cada dia, que abrem as portas para os mais incríveis universos que eu jamais conheceria em outras circunstâncias. E de tirar um tempo para vislumbrar como seria, se eu tivesse nascido em 1900, por exemplo.

Acho que está na hora de voltar a escrever com a caneta. Será que meus dedos vão voar da mesma maneira como fazem nessas teclas?

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