Eu nunca termino nad

Inclusive, nem esse texto.

Um dos grandes problemas de ter uma alma inquieta é que a gente se interessa por coisas demais, ao mesmo tempo, e nem sempre consegue equilibrá-las e alcançar alguma proficiência nos assuntos.

A minha alma é bem agitada, teima em voar em diversas direções simultaneamente, o que me atrapalha um bocado. Faço planos o dia todo, invento de começar a ler vários livros ao mesmo tempo, às vezes por motivos profissionais ou por simples interesse. Logo em seguida começo projetos um tanto quanto abstratos e absurdos, visualizo futuros elaborados, mas raramente consigo fazer alguma coisa até o final.

É verdade que algumas coisas não têm um ponto de chegada, ou um prazo certo para ser cumprido, e é justamente aí que a jangada dos sonhos ou das vontades vai por água abaixo. Por que é tão difícil perseverar numa atividade quando a gente não estabelece uma meta? E por “a gente”, estou me referindo à minha pessoa, tão somente, acho que uso o plural aqui para não me sentir tão só nesse dilema.

Não fui eu que pichei isso, juro
Não fui eu que pichei isso, juro!

Antes que o leitor venha a concluir que me falta disciplina ou foco, gostaria de dizer que nenhuma dessas coisas tem muita utilidade quando a ansiedade toma conta. De certo modo, eu possuo essas qualidades e as aplico muito bem quando a corda aperta ou a água chega no pescoço.

Não sofro de falta de concentração e disposição para as coisas, pelo contrário, quando decido dar início a algo novo, ou retomar um antigo propósito, eu mergulho de cabeça.

Entretanto, é quase impossível dedicar-se com tanto afinco a um sem-número de interesses concomitantemente. Violão, academia, trabalho, leituras diversas, estudos, cronograma capilar, nutrição, moda, costura, artesanatos, bicicleta, vídeo-games, música, idiomas… Essa lista não tem fim, e eu não estou brincando.

Seria bem fácil começar a enumerar aqui todas as vezes que comecei a frequentar uma academia e parei, ou as incontáveis ocasiões em que separei cifras de músicas para praticar o violão “pelo menos uma vez na semana” e acabei ocupando esse horário com algum jogo novo do Xbox, ou um livro empolgante, ou estudando uma nova língua (saudades, italiano), ou fazendo artesanatos, e depois voltando para o violão, daí lançou o novo Dragon Age, e depois eu me inscrevi num curso muito legal sobre história da arte, e aí criei uma página sobre música no Facebook, depois voltei para a academia, comecei a correr todos os dias, comprei um novo deck de Magic, teve também aquele livro de colorir que eu prometi que ia chegar até o fim e não passei da página três, e o armário do meu quarto que comecei a pintar de vermelho e não passei da primeira mão de tinta porque mudei de ideia sobre a cor, e os estudos bíblicos, o plano de tomar sucos verdes diariamente, a compilação dos meus textos antigos….

E esse ciclo de substituição segue sem se romper, embora eu acabe retornando a uma atividade ou outra que ficou esquecida lá atrás. Às vezes tenho receio de retomar alguma coisa, já antecipando a desistência.

Se eu começo a assistir a uma série, por exemplo, eu vou querer ver até o fim, para saber logo o desfecho. A não ser que esse seriado não seja daqueles longos e cheios de enrolação, o que provavelmente vai me impelir a pular vários episódios e assistir logo ao final da temporada. Estou divagando, eu sei.

Já no caso dos livros, a coisa é um pouco mais profunda, eu geralmente deixo de concluir a leitura por gostar muito da história, numa tentativa de adiar a morte de um personagem, ou para permanecer mais tempo imersa no universo criado pelo autor.

Estou lendo O Silmarillion, do Tolkien, há anos, e, ao chegar nas páginas finais, volto ao começo. Das duas, uma: ou me tornarei uma especialista nessa obra, ou jamais vou saber o que acontece nas últimas quarenta páginas. Sem falar no Moby Dick, a releitura do Ulisses, de Alice no País das Maravilhas. Comecei a ler Sophie’s World em inglês, mas como já sabia a história achei melhor deixar para lá.

Eu tenho uma mania ridícula de começar cursos online e não terminá-los. A não ser que sejam obrigatórios ou urgentes, nesse caso existe algum botão no meu cérebro me acaba me obrigando a levar a sério e devorar todo o conteúdo o mais rápido o possível, entregar os exercícios, enfim, até faço mais do que pedem, para ser sincera.

Vislumbrar o objetivo instiga a permanência, enquanto a inquietude sem fim me leva para longe do que é somente um desejo, um passatempo.

Eu trabalho muito bem sob pressão. Bato todas as metas no serviço, entrego o que prometo, às vezes me desdobro em mil e uma para atingir os objetivos que possuem data marcada. Até mesmo no serviço doméstico, só consigo sossegar depois de ter limpado toda a casa, não consigo deixar um cômodo sujo, acho que faz parte da neurose. Porém, os armários estão sempre arrumados pela metade.

Faz quase dois anos que casei e ainda não escolhi as fotos do meu álbum de casamento, minha mãe disse que estou guardando para quando completar as bodas de prata. Como eu vou escolher? São muitas, cada uma mais linda que a outra, aí eu me pego visualizando as fotografias já impressas, o leiaute que vou utilizar, de repente posso colocar algum texto entre as páginas, aliás tem aquele outro livro que começamos a montar com fotos aleatórias da nossa história.

Tem também aquele caderno que eu comprei, com folhas de papel pardo, comecei a escrever ali todos os dias, desenhava até uma coisa ou outra, levava na bolsa para poder anotar qualquer ideia que parecesse válida, olha, tem outros cadernos também, acho que são três ou quatro, cada um guardado numa bolsa diferente. Semana passada eu comecei a arrumá-las e encontrei um rótulo de cerveja, acho que é o último que faltava para completar o quadro que está quase pronto, na verdade eu queria encontrar um que fosse mais legal…

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