Desconectando

Disconnected-from-Internet

O despertador gritou cedo, obrigando Ana a sair do conforto da cama mesmo sem ter hora marcada para nada. Com passos arrastados, caminhou até a cozinha levando nas mãos o celular, para se distrair enquanto preparava o café da manhã. Tentou diversas vezes conectar-se pela rede sem fio e utilizando os dados móveis, mas havia algo errado com o dispositivo, que não fazia a mínima questão de responder aos pedidos de sua portadora. “Maldita internet”, pensou, mordendo uma torrada com manteiga, que engolia depressa com a ajuda de uma xícara do café mais forte que conseguiu fazer – só assim para poder aguentar mais um longo dia de busca por emprego.

Há mais de três meses longe de seu antigo serviço, Ana passava as incontáveis horas ociosas de seu dia em frente ao computador, por vezes jogando conversa fora no Facebook, em outras fazendo algum curso online para motivá-la a seguir em frente. Ou então apenas entretinha o tédio com vídeos e jogos. Era um pouco vergonhoso admitir esta situação que tinha uma atmosfera de derrota, como se estivesse sentada esperando um trabalho cair do céu. Mas, o que ela podia fazer além de mandar uma infinidade currículos e aguardar ser chamada para uma entrevista?

Afoita por uma solução, acordou naquela manhã determinada a retomar as rédeas de sua vida, já que as contas estavam acumulando e o dinheiro que recebeu da rescisão do contrato de trabalho estava em vias de acabar. O objetivo do dia era um canal de vídeos, um blog, uma página no Facebook, a fim de ganhar dinheiro com os anúncios e promoções. Foi o que fez sua amiga Michele que, graças ao sucesso, foi chamada a escrever um livro e até participou de programas na televisão. Antes de mais nada, Ana ponderou sobre o tema que iria escolher para suas publicações ao ligar o notebook, mas não chegou a um consenso em seu íntimo. Clicou no navegador, sentindo uma tremenda ansiedade pulsar no peito, felicitando a si mesma pelo nascimento desta ideia mirabolante. Nada. Nenhuma resposta do mundo digital. A Internet continuava sem funcionar, e toda a empolgação de Ana derreteu-se em irritação, raiva, impotência. Logo hoje, que o destino parecia tão claro e certo.

Após mais de uma hora tentando falar com a central de relacionamentos da provedora de internet, desistiu de se inquietar e resolveu que passaria o resto do dia ocupando-se de coisas mais agradáveis. Teria que adiar o início de seu novo projeto, já que o universo não conspirava a seu favor. Um dia a mais não faria diferença.

Recorreu à televisão, que costumava ser seu último artifício para passar o tempo, trocando de canal sem pensar. Uma imagem captou sua atenção e interrompeu o frenético movimento de seu polegar. “Últimas notícias: a internet está fora do ar”. Revirou os olhos, pensando “é óbvio que está”, embora achasse pouco provável que sua falta de sorte fosse digna de ser noticiada em rede nacional. Endireitou-se no sofá, aumentou o volume para ter certeza do que estava escutando. “Desde a meia-noite de ontem, todos os provedores de Internet do mundo estão parados. Não há previsão de retorno dos serviços. Milhares de empresas estão sofrendo as consequências….” Enquanto as palavras saíam dos lábios nervosos da repórter, Ana fitava a tela, atônita, sem piscar.

Como assim, a internet de todo o mundo simplesmente parou de funcionar? Ela não era nenhuma expert em tecnologia, mas sabia que existia um sem-número de servidores espalhados pelo planeta, capazes de manter a ordem e o funcionamento da vida virtual, tranquilamente. Era cedo demais para saber se isso havia sido obra de algum hacker, ou de um grupo de ativistas, ou de alguma organização mal-intencionada, porém o noticiário continuava a informar sobre os impactos negativos desta ausência de conexão, prejuízos contabilizados em cifras absurdas, investidores desesperados. As bolsas de valores de todo o mundo estavam à beira do colapso, segundo o relato do comentarista econômico. Era um cenário quase apocalíptico, no qual Ana custava a acreditar.

Precisava compartilhar com alguém aquele fato inédito, mas estava tão acostumada a fazer postagens desabafando seus sentimentos que mal se lembrava como expressá-los na fala. Além disso, ocorreu-lhe que não tinha o telefone de nenhum amigo, apenas os contatos fornecidos pelas conexões automáticas em seu smartphone. Vasculhou o menu do celular e hesitou por longos minutos com os olhos fixos no número de sua mãe. Não se falavam há tanto tempo que seria ridículo ligar para ela justamente agora. Ana tinha muito a dizer, talvez fosse um bom momento para reatar os laços frágeis entre ela e a última pessoa viva de sua família. Ensaiou algumas palavras, caladas por uma tímida lágrima que cortou-lhe as bochechas como facas. Era fácil, bastava dizer “Alô, mãe, sou eu, sua filha”. Ainda assim, não tinha coragem.

Desligou a televisão, vestiu uma roupa qualquer e, como quem parte para um decisivo encontro, abriu a porta de seu pequeno apartamento impelida a interagir com alguém disposto a conversar. Não conhecia nenhum morador do prédio, mas poderia recorrer ao porteiro, ou quem sabe ir até a banca de jornal e inteirar-se dos acontecimentos do bairro. Durante o percurso de sua porta até a rua, nenhuma pessoa cruzou o seu caminho, e isso era mais estranho do que a falta de sinal de internet. Aproximando-se da banca de jornal, notou que estava fechada. Os carros nas ruas eram uma raridade, havia um silêncio nefasto instalado na paisagem agradável da área arborizada em que vivia.

Sentou-se no banco da praça, confusa, prestes a desabar, quando uma presença ao seu lado a fez estremecer e a removeu do estado de pânico. Olhou para o lado e viu uma senhora, que levava nas mãos um jornal e na coleira um adorável filhote de cachorro. A mulher voltou o rosto para Ana, sorrindo, e perguntou “Qual é a sua parte favorita?”, entregando-lhe a gazeta diária. Sem dizer palavra, a moça retirou a seção de entretenimento e os classificados de dentro do espesso maço de folhas e esqueceu-se de todos os seus problemas.

“Meu nome é Ana, qual é o seu?”

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