Touro de Aço

A festa mal havia começado e Diego já estava pronto para ir embora. No entanto, não podia seguir os desejos de seu corpo, que latejava e doía em partes as quais ele nem imaginava que existiam. Nem ele, nem os outros dez rapazes que o acompanhavam nos trabalhos daquela noite. Desde as oito da manhã, ele e os membros mais jovens do moto clube trabalharam sem descanso, cuidando dos preparativos para o aniversário de quarenta anos do mais tradicional MC do interior de São Paulo. O local estava pronto para receber mais de cinco mil pessoas ao longo de três dias, com espaço para quem quisesse acampar, muita cerveja, vinho, um palco para apresentação das melhores bandas da região e churrasco à vontade. Ele sabia que só conseguiria descansar dali a três dias, depois de ajudar a desmontar as estruturas das barracas, limpar a sujeira e levar os equipamentos do clube de volta para a sede. Se o cansaço já batia à porta às oito da noite, não queria nem pensar no estado em que se encontraria na segunda-feira.

Aproveitando uma brecha e a distração de seus parceiros, Diego saiu do grande barracão, sem fazer alarde, e correu até o gramado, com uma lata de cerveja nas mãos. Sentou na parte mais elevada da grama, sob uma árvore, e deixou a noite servir de esconderijo para o seu momento de relaxamento. Expirava espessas nuvens de fumaça, do frio e do fumo, enquanto observava as pessoas que se aglomeravam em volta das mesas, das barracas que vendiam camisetas e acessórios, e dos pontos de troca de fichas por bebidas. O ronco dos motores das motos, dos mais diversos modelos e marcas, era como uma doce melodia para seus ouvidos. Fechava os olhos e, sorrindo, saboreava o malte, a nicotina e a satisfação de poder fazer parte de tudo aquilo. Era indescritível. Todas as motos, cintilando sob o luar, harmoniosamente enfileiradas no estacionamento. Os rostos amigos misturando-se com os desconhecidos, como se fossem uma só família. Aquele era o verdadeiro sentido da vida, pensou consigo, compartilhar a estrada, as bebidas, os sonhos com quem sentia o mesmo fascínio que ele pelo prazer de pilotar sobre duas rodas.

Desde pequeno, ele sonhava em ser um true biker, mesmo sem saber direito o que aquilo significava. Sabia que tinha algo a ver com andar de moto sem frescuras, sem limites, sem medos. Seu pai era membro honorário daquele clube, e sempre o levava consigo nas reuniões e nos eventos. Crescendo naquele ambiente sempre festivo, idealizava o dia em que receberia o seu colete, em que seria tratado como um irmão pelos caras que já tinham a experiência que ele invejava. Antes mesmo de conseguir tirar a carteira de habilitação, seu pai o presenteou com uma bobber customizada pelo seu tio, um capacete vermelho com chamas pintadas nas laterais, e um conselho “pilote como se não houvesse amanhã”. E foi isso que ele fez, desde a primeira vez que sentou em sua moto, que hoje também completava mais um ano de parceria. Era natural que o filho seguisse o caminho do pai, e ele não hesitou em fazê-lo. Gostava de tudo o que tinha a ver com aquele mundo, as loucuras, o esquema de trabalhar duro, de ralar mesmo até conseguir provar que era digno de usar as cores do clube. Por vezes, sentia-se inseguro, afinal já estava nessa vida há mais tempo do que todos os outros prospects, rodava com os irmãos em todos os rolês, fazia tudo o que pediam, porém ainda não tinha conseguido o tão almejado escudo. Queria orgulhar o pai, embora o velho lhe dissesse sempre que essas coisas levavam tempo, que os caras costumavam pegar no pé de quem era filho de veterano. Mesmo assim, uma pontada de tristeza invadia seu coração toda vez que algum aspirante era agraciado com o patch do clube, enquanto ele continuava ali, obedecendo, fazendo correrias absurdas e trabalhando mais do que gostaria. No fim das contas, sabia que todo seu esforço valeria a pena, só temia que demorasse demais.

Terminando o cigarro, Diego levantou e seguiu a sua rotina de afazeres, encontrou colegas de outros clubes que vieram de longe para prestigiar a festa, flertou com três belas garotas às quais prometeu um passeio em sua bike, ajudou os músicos de todas as bandas a montarem os instrumentos entre um show e outro. Repôs as cervejas nas geladeiras, passou duas horas no balcão das fichas, mais duas horas no estacionamento, uma hora na churrasqueira. Distraído por um apetitoso espetinho de calabresa, mal notou que seu pai e alguns tiozinhos do clube estavam espreitando atrás do barracão, como se tramassem um ataque, e quando o vice-presidente começou a falar no microfone, silenciando a multidão em volta do palco, eles se aproximaram do rapaz e o agarraram, banhando-o em uísque.

Carregado pelos membros mais velhos, Diego compreendeu o que estava acontecendo. Era agora, realizaria o seu sonho da forma mais incrível possível, na frente de milhares de companheiros de estrada. Não conseguia ouvir nada, apenas o coração que explodia em seu peito como um motor ensandecido. “Já tava na hora de você vestir o último colete da sua vida, filhão”, disse o pai, emocionado, tirando de dentro da bandeira do moto clube o colete fechado conquistado pelo rapaz a duras penas. Com as pernas meio bambas, abriu os braços e deixou os veteranos os vestirem. Bebeu duas doses de Jack Daniels, como mandava a tradição. Abraçou o pai, gritou, pulou do palco, frenético, no meio da galera, que o recebeu como se fosse um príncipe. Poderia, enfim, curtir a sua primeira festa como um homem, e não mais como menino ou mero aprendiz.

Naquela noite, mesmo com todas as dores que sentia e com o excesso de álcool na cabeça, não conseguiu dormir. Envolto no aroma adocicado dda armadura de couro que enfim lhe pertencia, Diego assistiu o sol nascer com a alma transbordado de orgulho por ser um verdadeiro biker, um Touro de Aço.

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