Coisas da Vida

Uma bomba ameaçando toda uma cidade, setenta anos após o fim da 2ª Guerra Mundial. Estradas derretendo na Índia. Inundações, furacões, terremotos. Epidemias ameaçando as vidas dos cidadãos comuns. Mulheres sendo abusadas sexualmente à luz do dia, dentro de vagões do metrô, de ônibus, praças, e ninguém ajuda.

Multidões ateando fogo em supostos criminosos como forma de linchamento. Países e instituições em crise, por causa da corrupção. Milhares de refugiados empurrados para fora de suas casas, para tentar escapar dos terroristas que ganham força a cada dia.

Tensões entre as nações, tentativas de acordos de paz, uma constante, porém sutil, ameaça de guerra nuclear que pode estar batendo à nossa porta.

Escassez de recursos. Crimes hediondos manchando de sangue as páginas dos jornais.

Isso tudo não saiu de um filme de Hollywood, são apenas as notícias diárias que encontramos nos sites e portais jornalísticos. Se você, como eu, sente o estômago arder toda vez que se depara com a situação quase caótica em que vivemos, deixa eu te contar uma coisa (que provavelmente você já sabe): a desgraça faz parte da vida.

Podemos fugir, correr, gritar, lutar, mas não adianta. Esse aspecto terrível, essa sombra maligna que se projeta sobre a Terra, devorando a paz, esteve presente, pairando sobre o mundo, desde o início dos tempos.

O problema é que ninguém nos avisa sobre isso antes de encararmos a dura realidade. A gente tem que aprender na marra que essas são “coisas da vida”, “faz parte”, “o mundo é assim mesmo”. Os livros de história nos contam sobre os acontecimentos horrendos de uma forma distorcida, maquiada, exibindo mocinhos e condenando bandidos. Nos fazem esquecer de que no mundo fora dos livros nem tudo é assim tão preto e branco, e que existem muito mais áreas cinzentas ou embaçadas do que com cores puramente definidas.

A gente se acostuma com tudo o que há de ruim, perverso, desumano, inaceitável, contanto que os trilhos continuem sob os nossos pés, conduzindo-nos sabe lá aonde. Nos disseram que era um lugar legal, então seguimos em frente, olhando para baixo, meio cegos, trôpegos.

Aprendemos que a nossa sociedade, como a conhecemos, foi construída com sangue, morte, destruição e carnificina, mas que isso é normal. São sacrifícios necessários para a evolução, para o progresso. 

Quando pequenos, nos ensinam que o ser humano nasce, cresce, se reproduz e morre e, ao longo dos anos, assimilamos conhecimento sobre muitas coisas que acontecem no espaço contido entre essas etapas. Na verdade, se pararmos para analisar, passamos uma considerável parte do nosso tempo, do nosso desenvolvimento, meio que sofrendo uma lavagem cerebral de como fazer para se conformar.

Seguir regras, enquadrar-se nos moldes de personalidade, pensamento, estilos de vida, desejos e sonhos também pré-configurados. Na escola infantil, os pequenos, que mal aprenderam a se comunicar, tem que sentar direitinho e obedecer à tia – e assim seguimos até o final do ensino médio. Na universidade, temos um pouco mais de autonomia, mas as regras continuam sendo praticamente as mesmas.

O que importa, no fim das contas, é terminar a formação escolar, em qualquer nível, bem moldado e encaixadinho no padrão de conformidade, apto a seguir ordens, perpetuar conceitos, sentar em fila, caminhar em fila, olhar para frente, submeter-se. A tudo. Conformar-se. Com tudo.

E por “conformidade” eu não me refiro a padrões sociais, apenas, mas à qualidade de aceitar tudo quase que passivamente. Confortavelmente amortecidos pela certeza de que a vida tem lá suas desgraças, mas está tudo bem se no fim do mês sobrar um dinheirinho pra cachaça – ou qualquer outra distração.

A gente até se rebela, um pouco, protesta, mas também só se tiver o aval de um grupo de pessoas socialmente conforme e aceito. Afinal, é assim que as coisas são, faz parte, não tem jeito. E, nessa dormência sob a qual fomos programados a viver, esquecemos de questionar, duvidar, transformar.

Sair um pouco dos trilhos, olhar para cima, ir na direção contrária da fila que nos empurra, para onde mesmo? Ninguém sabe, mas todo mundo continua andando, indo em busca desse sei-lá-o-que tão desejado.

A beleza da vida às vezes parece estar sendo engolida por aquela mesma escuridão nefasta que nos vigia e, receio eu, nos rege. Olhamos as atrocidades enquanto nos sentamos, confortáveis e protegidos, em nossas bolhas de algodão-doce.

Construímos em nossas salas altares em torno das telinhas brilhantes da TV. Fingimos não ver o matadouro ao apreciarmos o sagrado churrasco do domingo. Trabalho escravo? Faz parte, mas eu tenho o meu belo iPhone ou aquela roupa que me disseram que vai ajudar a chegar ““.

Justificamos as diferenças sociais como um equilíbrio necessário, um direito divino sustentado pela lógica da meritocracia. Seguimos a lei da sobrevivência do mais forte, colocando a humanidade num pedestal, até mesmo nos esquecendo do significado de humanidade.

Competimos com a própria sombra, por tudo, seguindo as lições dos mais sábios. O “eu” é o ser mais importante desse mundo. Foi assim que ensinaram, e o “eu” aprendeu bem a lição.

E ai daqueles que ousarem dizer que a vida não é bem assim, que pode ser diferente. Aliás, você pode, sim ser diferente, porque no fim das contas a diferença vai sendo incorporada ao que é normal, a diversidade se transforma em moda, estilo hype e sinônimo de status.

“Pensar fora da caixa” é um conceito bem bonito, dentro do âmbito empresarial, mas funciona assim: um pé dentro e outro fora, não dá pra sair totalmente do molde, se não o universo pode ruir.

Se você começa a se inconformar muito, provavelmente será um vagabundo, arruaceiro, perturbador da paz e da ordem, conquistadas com muito suor, sangue, lágrimas e às custas da morte de incontáveis espécies de animais e plantas, e até mesmo da morte do nosso próprio planeta. “É o preço que se paga”…

Eu gostaria de ter uma solução para tudo isso, de dizer que um dia as coisas serão menos absurdas. Mas receio que também fui doutrinada a dizer, ao me deparar com tudo isso: “são coisas da vida”. Sigo com a cabeça meio baixa, meio erguida, tentando compreender como faz para levantá-la de vez e ajudar os outros a se erguerem também.


Imagem: Gabriel Santiago

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