Menor que um grão de mostarda

Em verdade vos digo: se tiverdes fé, como um grão de mostarda, direis a esta montanha: Transporta-te daqui para lá, e ela irá; e nada vos será impossível.

Evangelho Segundo São Mateus, 17,20.

Já faz um tempo que tenho questionado a minha fé, ou o quanto acredito realmente nas coisas que jugo serem a verdade. “O que é a fé?”, alguém pode questionar, e a resposta para essa pergunta é muito simples: é aderir a uma verdade, acreditar nela sem ter nenhuma comprovação racional ou objetiva de sua existência ou veracidade.

A religiosidade sempre esteve presente em minha vida, desde que consigo me lembrar, graças à influência dos meus pais e à vida em comunidade, da qual participei ativamente quando criança e na juventude. Sou católica por criação, porém durante a adolescência, em virtude de algumas decepções no meio católico, busquei em muitas outras manifestações religiosas procurar saber se o caminho do cristianismo era, de fato, a verdade que eu tanto queria encontrar. Após conhecer o budismo, a magia natural, o espiritismo, umbanda e outras vertentes e práticas não tradicionais de adoração ao divino, cheguei à conclusão de que, racionalmente falando, o catolicismo ainda era o caminho mais coerente, para mim, mesmo levando em conta todos os “defeitos” com os quais me deparo na igreja. Isso existe em qualquer lugar composto por seres humanos, não adianta buscar a perfeição dentro de uma religião. O conceito de religião não tem nada a ver com instituições, e sim com a conexão entre o humano e o divino.

O meu retorno definitivo à igreja culminou quando, depois de um longo período de deserto, encontrei a misericórdia de Deus, o Pai, através de Jesus Cristo, que é o caminho, a verdade e a vida. Disso, eu não tenho dúvidas. A filosofia envolvida nas pregações de Cristo narradas nos evangelhos, voltada ao desapego e ao amor incondicional aos nossos irmãos, sejam eles amigos ou inimigos, me convenceu de que essa era a maneira mais acertada de conduzir as minhas atitudes nesse mundo. No momento em que eu mais precisei de compreensão, perdão, acolhimento, foi diante do sacrário e na Eucaristia que encontrei forças para não desistir de tudo, e tive a felicidade de reconhecer a face de Jesus nas pessoas que buscam seguir verdadeiramente o caminho cristão. Testemunhei os pequenos e grandes gestos de generosidade, caridade e desprendimento, e uma convicção, transmitida por esses irmãos, que eu jamais imaginei ser possível.

Falando de forma racional, a adesão à crença no Cristo extrapola a esfera religiosa, quando passamos a imitar as suas ações, o que, na minha opinião, seria a maneira ideal de praticar o cristianismo. Quando eu digo “creio em Jesus”, e sou uma pessoa incoerente com essa declaração, não perdoando, não colocando Deus sobre todas as coisas, enfim, agindo de forma contrária ao que o Filho de Deus orientou em sua passagem nesse planeta, não estou demonstrando a minha fé. E a fé sem frutos, é uma fé morta.  

Antes de mais nada, é preciso saber que a fé não se trata somente de acreditar mais ou menos em algo, porque parece ser coerente. Essa é a parte fácil. Crer é algo muito abstrato e afirmar “eu creio” é bastante simples, quando esta declaração é feita da boca para fora. Mas a fé cega, a convicção inabalável no invisível e indefinível, que não questiona, duvida ou desvia do caminho por qualquer motivo, essa é a tal fé do tamanho de um grão de mostarda. Como é difícil nutrir essa semente, num mundo tão materialista e cético como este em que vivemos.

Essa longa divagação sobre a minha trajetória e relação com a religião e a fé me ajudou a notar que, hoje, eu continuo não sendo crente como eu gostaria. São Tomé duvidou da ressurreição de Cristo e só acreditou quando tocou em suas feridas abertas. Será que serei assim, para o resto da vida? Eu vejo diariamente as manifestações da divindade ao meu redor. Pessoas que eu conheço são inexplicavelmente curadas de doenças sérias, são tiradas de situações horrorosas pela misericórdia divina, alcançam milagres, escutam claramente a voz de Deus. Enquanto isso, estou aqui, travando uma árdua batalha entre o espírito, que clama pela presença do Pai, e a matéria, que só sabe raciocinar em negativo. Talvez por questionar tanto, por insistir em exigir provas de que essa é a verdade, os meus olhos do espírito tenham ficado cegos. Só consigo enxergar com a matéria, e, de uns anos para cá, tenho esquecido de regar a minha terra para acolher as palavras e os ensinamentos de Deus.

Costumo pensar que a fé é uma decisão, tal qual o casamento. Quando a gente ama alguém e decide passar o resto da vida com essa pessoa, não importa o que aconteça, isso envolve muito mais que sentimento. Com a fé deveria ser assim, também. Hoje em dia a mentalidade predominante é: se não me serve mais, do jeito que eu quero que seja, não quero mais. Parece que tudo é descartável, inclusive Deus. Mas eu continuo firme, crendo na divindade de Jesus, e, embora a minha perseverança se abale de tempos em tempos, meus pés vão permanecer nesse caminho.

Pode ser que eu nunca tenha uma fé tão pequena como um grão de mostarda, que ela não me leve a realizar feitos extraordinários, ou alcançar grandes milagres. Eu gostaria de chegar nesse estágio um dia, mas, sinceramente, não me importo com coisas impossíveis. Quero que a minha adesão ao cristianismo me ajude a ser uma pessoa melhor, aquela que Deus se orgulhe em chamar de filha, ser capaz de olhar para os seres humanos com o mesmo amor que Cristo olhou e olha para nós, relevando as imperfeições. Quero poder olhar para as montanhas e ter a certeza que posso atravessá-las, sem necessariamente ter que movê-las de um lugar para outro.

Que a minha fé, muito menor que um grão de mostarda, possa um dia chegar a dar frutos. Ainda que não sejam os mais mirabolantes…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s