Inexistência

Nos dias difíceis da vida, em que eu gostaria de ter uma máquina do tempo e voltar atrás naquele milésimo de segundo que fez toda a diferença para o desenrolar dos acontecimentos do restante das horas que vão se arrastar até que a maré volte a ficar tranquila; nos momentos em que eu sinto que a solução seria ser uma pessoa diferente e não repetir as mesmas tendências que produzem os mesmos resultados; em horas como essa,  em que espanco o meu pobre teclado sem dó, eu gostaria de deixar de ser.

Como um vulto que perambula no véu que separa o agora do antes, como uma ausência, água evaporada no infinito das nuvens. Uma consciência elevada, calma e translúcida, sem voz, nem nome, nem sentido. Uma inexistência perpétua, ou mesmo temporária, até pelo menos eu conseguir entender, de fato, tudo o que eu preciso aprender.

Eu não sou fácil, nem difícil, eu sei lá o que eu sou.

Eu só sei daquilo que desejaria não ser. Que tenho a imensa vontade de deixar de ser. Mas não é uma ânsia pela morte, ou um desejo romântico de apagar as misérias dessa vida com a física decadência da matéria, creio que isso seria ridículo, o espírito permaneceria aqui, sentindo exatamente as mesmas coisas, perdido e confuso por não ter mais aquele invólucro material de outrora.

Não é uma vontade de mudar as minhas circunstâncias, não são elas que me causam aflições. É o ser que me perturba.

Tenho sentido o cansaço de uma alma velha, a impressão de estar presenciando coisas que já vivi há milênios, e isso me incomoda deveras porque não creio em reencarnação. Eu sei que as coisas são como são e que nada muda, nem por decreto, e, ainda assim, não aprendo.

O que eu sou é um emaranhado que pulsa e implora para ser desfeito, e essa trama intricada comprime a minha alma em milhões de pedaços. E uma alma desfeita não consegue ser. 

Vez ou outra sinto que sou apenas matéria, que inexiste uma fagulha espiritual dentro dessa casca, dessa roupa de carne que visto sem orgulho. Sofro, por sentir que não sinto o suficiente, não ofereço de mim tudo o que deveria para o mundo, para as pessoas, e sofro mais ainda por ter um curto pavio, uma boca grande demais, uma razão distorcida demais.

Talvez eu seja tudo o que não desejam. As sensações incômodas, as perturbações, os desatinos, as discussões, a não-calmaria que transmito. Eu sou um poço de lama escura, areia movediça, fogo destruidor, lava que passa pelo caminho e consome tudo o que é bom, alimentando-se de coisas vis e transformando a vida em nada.

Perco dias e horas, semanas, meses, anos, tentando ser diferente, mas o que ocorre são aquelas cenas vivenciadas pela velha alma que ocupa minha carne, o que ocorre é sempre igual, rotina do desespero.

Vejo a oportunidade de escolher entre a paz e aguerra, porém acabo escolhendo essa última, por não aceitar a imutabilidade de certas coisas. Me desespero por não conseguir compreender a santa paciência dos que levam a vida felizes e sem desentendimentos, desespero por não conseguir incorporar às atitudes o que os livros ensinam e o que os conselhos obrigam.

Nos dias assim, a tempestade me devora. É como um dragão de gelo, congelando as lágrimas, que se transformam em muralhas e que destroem qualquer resquício de paz que possa se aproximar. Não adianta clamar por paz, quando a alma não quer existir, e o espírito se deu por vencido, restando apenas a matéria racional que faz o que bem entender.

Deixar de ser…. Deixar de ser… Deitar a minha ausência sobre os verdes campos de um mundo distante, olhar a minha história como alguém que assiste a um filme, antes de editá-lo. Observar todos os pontos de corte que são dignos de serem jogados no lixo, recortá-los dos rolos que já foram projetados, pendurá-los num mural e escrever em letras grossas, grandes e garrafais: não faça. Poder me orgulhar de absolutamente tudo o que fizer, deste ponto em diante.

Mas o ponto em diante se torna o ponto de corte quando eu esqueço de prestar atenção à ordem de não fazer.

É um labirinto, um quebra-cabeças, mas me faltam peças, me faltam tochas para me guiar nessas curvas emaranhadas – dentro e fora de mim. Eu não tenho manuais, não sei agir de forma prazerosa e agradável, não sei fingir, mas gostaria, deveria, eu seria tão mais feliz. Seria? Não, eu não quero ser.

Não quero ser o que esperam de mim, não quero ser ela, ele, você, não quero ser outra pessoa. Muito menos eu mesma, porque eu já conheço todos os passos que eu vou dar agora, ontem, depois, naquele exato momento, se ninguém me impedir.

E é estranho, porque às vezes eu peço: me impeçam!, e o mundo se faz de surdo. Longe de mim, culpar os outros por aquilo que sou, essa coisa que não deveria ser, mas está aqui – a culpa é toda minha, que quis existir, e eu nem sei por que.

Acontece que, sozinha, eu não consigo. Sozinha, eu só quero me esvair pelos ralos do universo e ser dividida em infinitos outros não seres pairando pela poeira cósmica da escuridão.

Quero o não-eu, afastar de mim qualquer resquício familiar de alma que insiste em permanecer manifesta. Quero a ausência da essência, a completude de poder respirar fundo sem nós na garganta, sem meias verdades, sem passos tortos ou pisar em ovos.

Quero, por não conseguir reprimir a parte escura desse ser que sou, abstrair a minha própria existência e dizer: eu não sou. Nada, nem eu, nem ela, nem você, nem ninguém. Somos todos iguais, errados, rasos, assustados com o que nos incomoda.

Eu quero deixar de ser, agora, hoje. Evaporar a alma, até que não sobre nada que diga: eu sou. Porque o que eu sou, eu não sei, mas o mundo sabe, e não é nada do que eu deveria ser.


Imagem: Nasa

2 comments

  1. O que você, no texto, parece desejar é não ser mas, é algo impossível pois não sendo por decorrência lógica desse pensamento não ser acarretaria apenas ser novamente, só que de outra forma. É impossível não ser. Tudo possui uma essência, até mesmo o conceito de nada ele só é o nada por causa da noção culturalmente aceita de sua essência. Seja e você será, deseje ou des-seje e você continuará sendo. Ser é independente de etimologias, essências, palavras, filosofias ou metafísicas.

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