Quem não espera, alcança mais

Nossa jornada nesse mundo não é um mar de rosas, disso já estamos cansados de saber. Se existe qualquer pessoa viva que nunca passou por nenhum tipo de desencanto, das duas, uma: ou não está vivendo, ou é um ser extremamente agraciado com o dom de não se importar ou de não criar expectativa alguma sobre nada. Você pode tentar com todas as forças não criar esperanças ou tentar ficar alheio ao futuro, mas o seu inconsciente, esse garoto levado que age como quer e não se deixa controlar com facilidade, certamente irá projetar alguma imagem do que você gostaria que acontecesse em determinada situação.

Quem nasce com alma sonhadora tem grandes inclinações a se frustrar com mais facilidade, porque os sonhos parecem tão nítidos e concretos que, quando saímos das nuvens e colocamos os pés no chão, a realidade nos atinge de forma impiedosa. A gente espera demais das pessoas, coloca metas difíceis de serem atingidas para a carreira, para a aparência, cria todo um universo na nossa fantasia a respeito do que e de como gostaríamos de viver, e aí é que as coisas desandam. Isso se você não for, é claro, um otimista nato que tem a constante esperança de um dia finalmente encontrar o que procura sem se deparar com nenhum detalhe frustrante.

É difícil me lembrar da primeira decepção que experimentei no breve tempo em que tenho caminhado pela Terra. Talvez a noção de que os seres encantados nos quais eu acreditava não eram reais, ou então a enorme frustração de não ter conseguido andar de bicicleta, dominar os patins e fazer manobras mirabolantes no skate, na minha infância. Não adianta falar “ah, mas se você tentasse com muita persistência, conseguiria”, porque pessoas como eu, meio mocorongas e desajeitadas, nem sempre foram feitas para esse tipo de atividade. Sem contar que os sonhadores tendem a não serem tão bem sucedidos no mundo real. Somos mais fortes na nossa imaginação. Eu me recordo de uma vez em que acreditei que podia subir em todas as árvores do sítio da minha avó, como o meu primo fazia, e qual não foi a minha surpresa quando, ao tentar passar dos primeiros galhos mais acessíveis de uma pequena goiabeira, fiquei estagnada, com medo de cair e não consegui avançar. Aquela expectativa de olhar o mundo lá do alto, mesmo sendo pequenina, se desfez e transformou-se em chão.

O tempo foi passando, e eu comecei a notar que criava falsas perspectivas que jamais se concretizavam, como, por exemplo, o desejo de ser magra como uma modelo de passarela, coisa que, obviamente, eu jamais conseguiria, nem que morresse de fome, pois não fui sorteada na loteria da genética, inclusive nem sou lá muito alta. As grandes expectativas de ser descoberta como um prodigioso talento musical também não se concretizaram, porque, além de eu não ser um Mozart da vida, desisti cedo demais de tentar, ao perceber que para conseguir dar certo nesse meio eu precisaria engolir sapos, falsidades e passar por muitas outras coisas desnecessárias.

Como se não bastassem os pequenos e simplórios desencantamentos dos tempos de criança e os óbvios dessabores da adolescência, como os amores platônicos, as falsas amizades e os tapas na cara que tomamos por conviver com outros seres humanos, somos obrigados a escolher uma profissão. Um grande passo, que, à época, parece ser a escolha mais definitiva que você vai fazer na vida. O que, é claro, não passa de um engodo. Felizmente, passei em todos os vestibulares nos quais me inscrevi, e, com o peito cheio de orgulho, fui encarar uma das maiores universidades do país.

Logo na primeira semana da faculdade, já me decepcionei comigo mesma por ver que eu não passava de mais uma na multidão e que eu não tinha metade da bagagem intelectual que a maioria dos meus colegas. Como resultado, obtive notas muito frustrantes no primeiro semestre. Durante os anos que passei na universidade, foram muitas as vezes em que caí das nuvens, mas não posso me esquecer da principal fonte de decepção nesse período: os professores e todo o mundo acadêmico. Eu imaginava que estaria inserida no meio de seres elevados, que beberia de uma fonte inesgotável de conhecimento. Porém, encontrei seres humanos – olha só! – e descobri que o saber é algo que se constrói ao longo do tempo, e não apenas em poucos anos de estudo. Concluindo que ninguém sabe nada, é mais fácil conhecer-se, exercitar a humildade e adquirir a sapiência necessária para exercer uma profissão ou para a vida, de modo geral.

Vou me abster de falar sobre as decepções evidentes que enfrentamos no mundo profissional e na vida adulta, além da falsa independência financeira que nos prometem quando recebemos um diploma universitário. É um buraco tão sem fim que eu ultrapassaria milhões de palavras ao discorrer sobre esse assunto…

Na verdade, o que eu queria dizer aqui é que as expectativas nos transformam em poços de ansiedade e, com frequência, quando nos deparamos com a irrealização de nossos anseios, acabamos adquirindo medos difíceis de serem superados. O medo de fracassar, de não chegar aonde gostaríamos, o medo de nunca sermos suficientes, enfim, tantas neuroses evitáveis que é muito mais agradável jogar tudo isso fora e abraçar o que o futuro apresenta sem esperar demais.

Subindo os degraus da evolução pessoal, com passos de bebê, tropeçando nos sonhos, colidindo contra os muros da existência concreta, engolindo o orgulho e almejando objetivos um pouco mais plausíveis, aprendendo que a vida é feita de conquistas diárias, consegui me tornar um pouco menos sonhadora e não projetar grandes expectativas a respeito do mundo. Quem espera, nem sempre alcança, e tudo bem, porque existem muitas coisas além das nossas aspirações. A esperança é uma virtude, mas, convenhamos, o universo não é um pai generoso que atende a todos os clamores de seus filhos mimados e, quando a gente se permite, o que conquistamos, embora não seja exatamente como imaginávamos ou esperávamos que fosse, pode ser ainda mais incrível e surpreendente.

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