Liberdade: uma prisão

Ah, a liberdade! Tão cobiçada por muitos, temida por tantos outros. Conceito demasiadamente amplo, abstrato e que suscita profundos questionamentos filosófico, políticos e sociais. Definir essa palavra de forma integral é uma tarefa nada simples, visto que cada indivíduo tem sua própria ideia subjetiva e, talvez, um pouco egoísta do que significa “ser livre”. Nenhum dicionário consegue resumir em poucas linhas sua definição, e isso se deve muito ao fato dela se dividir em vários tipos – religiosa, individual, de pensamento, de imprensa, de trabalho, natural, etc. Todas as nuances desse conceito se norteiam pela forma como a sociedade é composta, ou pelos códigos éticos e morais que regem os grupos em que estamos inseridos. Porém, o desejo de conquistar uma vida livre de todas as amarras é universal.

Será que isso é possível?

Citando o filósofo Descartes, “A liberdade consiste unicamente em que, ao afirmar ou negar, realizar ou enviar o que o entendimento nos prescreve, agimos de modo a sentir que, em nenhum momento, qualquer força exterior nos constrange”. Resumidamente, ser livre significa não ser coagido a nada. Se pensarmos num sentido mais abrangente, nós que vivemos numa sociedade controlada por leis e códigos de conduta, indiretamente somos coagidos a não fazermos determinadas coisas. Descumprir uma lei pode trazer sérias consequências para o infrator. Em contrapartida, a nossa organização social democrática, por exemplo, garante aos indivíduos o direito de escolher entre aderir às restrições ou ignorá-las, restando a estes somente assumir a responsabilidade pelas consequências, ou fugir. 

Sob outra ótica, podemos argumentar que a liberdade consiste em não ser oprimido por alguém, ou por um grupo de pessoas – patrões, etnias diferentes, políticos, entre outros. E é claro que todos os esforços para abolir qualquer atitude escravizadora ou que diminui a liberdade de alguém são louváveis. Diversos movimentos sociais lutam pelo fim de determinadas opressões que nos sentenciam a um destino aprisionado, no qual não somos capazes de expressar sentimentos, vontades ou mesmo exercer as liberdades prescritas pelo Estado. O feminismo, por exemplo, ocupa-se em lutar pela extinção do pensamento patriarcal – entre muitas outras coisas-, que coloca as mulheres em posição de inferioridade em todas as esferas sociais. O Movimento Passe Livre busca a liberdade de utilizar o transporte coletivo sem pagar por isso.

E é agora que esse texto deixa de ser relativamente objetivo e torna-se uma reflexão só minha.

Pensando nessas relações que estabelecemos, desde os primórdios do mundo até o presente, chego à conclusão de que a grande confusão em que nos encontramos poderia muito bem ser atribuída ao esquecimento de uma simples premissa: toda ação tem uma consequência. Muitas vezes, confundimos a liberdade com o desejo de não haver nenhum efeito resultante de nossas atitudes, tememos os frutos de nossas escolhas e acabamos perdidos num eterno ciclo, tentando descobrir quem é o culpado pelos males do mundo e pela sensação de aprisionamento que nos assola. Se cada indivíduo agisse conforme seus próprios impulsos, é bem provável que vivêssemos em um completo caos.

Segundo Russeau, todos os homens nascem livres, por natureza, e acabam sendo corrompidos pela organização social, que os levaria a um estado de barbárie: o pobre é escravo do rico, que paga pelos seus serviços; o rico, por sua vez, é escravo do pobre, pois precisa explorá-lo a fim de ter lucro.  O filósofo Jean- Paul Sartre, por sua vez, define a liberdade como uma condenação, visto que, em sua visão, não existe um fator pré-determinante da natureza humana e somos todos projetos inacabados, à mercê dos frutos de nossas decisões. Parece algo razoável, pois, se somos escravos de nossas escolhas, também sofreremos as consequências das ações alheias, embora tenhamos a mania de não enxergar as facetas negativas causadas por nossos atos.

Vivemos num tempo em que a noção de liberdade confunde-se com o individualismo, ou fazer o que bem entender, na hora que quiser, sem levar em conta as restrições impostas por terceiros, mesmo que atreladas aos direitos conferidos aos outros indivíduos (ainda que iguais aos seus próprios direitos). “A liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro”, citação atribuída ao filósofo inglês Herbert Spencer, em vez de trazer luz aos conflitos que rodeiam o tema, parece torná-lo ainda mais nebuloso. Afinal, cada um deseja para si todos os direitos do mundo, porém é fácil esquecer que os outros também desejam o mesmo.

Deixando de lado as abstrações e voltando ao mundo concreto, sejamos honestos: ninguém é totalmente livre. Estamos presos ao dinheiro, ao tempo, à matéria. Até mesmo os animais, geralmente usados como símbolos de liberdade, estão sujeitos a estas regras. Um ótimo exemplo disso é o filme Into the Wild, que conta a história verídica de um jovem que largou tudo para viver na natureza, da forma mais primitiva e independente de todas as amarras da sociedade e do dinheiro. No fim das contas, ele sofre um triste destino por não prestar atenção às leis de sobrevivência no ambiente inóspito que resolveu explorar.

Ainda que fôssemos capazes de abolir todos os códigos éticos, morais, religiosos, sociais e vivêssemos no estado mais natural possível, seríamos prisioneiros das leis da natureza. Tente imaginar sua vida num contexto isolado de toda a influência externa. A necessidade de se alimentar, buscar água, abrigar-se das mudanças climáticas, obedecer às diversas exigências de seu corpo, proteger-se de predadores e submeter-se aos ciclos da Terra não deixaria de existir como num passe de mágica. A realidade seria bem distante de um eterno dolce far niente idealizado e vendido como um bem de consumo disfarçado de liberdade. Ou seja, em última instância, nessa vida material, ser completamente livre é algo essencialmente inatingível. Somos capazes de desfrutar de algumas liberdades, porém não daquela definitiva, com L maiúsculo, que talvez imaginemos como sendo a mais perfeita e total ausência de imposições, restrições ou consequências.

A única liberdade irrestrita, imune, verdadeira e inalienável é a do nosso pensamento, enquanto pertence somente a nós. Em nossas mentes, não precisamos e nem dependemos de nada, apenas somos. Essencialmente e verdadeiramente livres.

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