A Palavra Mágica

A tarde desenrolava como de costume, com raios de sol cor de laranja cortando as nuvens, o vento empurrando-as para longe e tingindo o céu do mais puro azul. O peso do almoço em meu estômago trouxe uma sonolência anormal, porventura reforçada pela dificuldade de pegar no sono na noite passada.

Atrás de mim, o gato, estirado na cama, suspirava profundamente e, interrompendo um sono prazeroso, ronronou, bocejou e se espreguiçou. Invejei-o por um breve momento, pelo ócio do qual desfrutava diariamente.

Olhei para o teclado que produzia sons estáticos e contundentes, ferindo o incomum silêncio que tomou conta do escritório. Silêncio a essa hora não era coisa comum, eram duas da tarde – e há poucos instantes um latido feriu meus ouvidos e levou embora a minha concentração.

Mas o silêncio não era uma completa ausência de ruídos, porque eu escutei um tilintar que vinha das prateleiras suspensas acima do meu local de trabalho. Sutil, porém bastante notável. Todo o resto do mundo parecia estático, as buzinas estavam mudas, as crianças haviam perdido a voz, os ônibus não produziam barulho algum. Tapei os ouvidos por alguns instantes e, removendo os dedos como se tivesse sobrevivido a uma explosão, temi estar ficando surda. Refutei essa teoria com um grito bem alto.

Ignorando essas estranhas manifestações, prossegui com a urgente tradução que me obrigou a dizer “não” ao cochilo vespertino. As palavras que brotavam na tela começaram a se embaralhar até formarem um borrão indistinguível, que teimava em permanecer ali não importa quantas vezes eu insistisse em chacoalhar a cabeça ou coçar os olhos.

“Vou buscar um café”, pensei, depositando no líquido escuro a esperança de aumentar a nula produtividade dos últimos trinta ou quarenta minutos.

Voltando da cozinha, ainda imersa num atípico mundo calado, ouvi mais barulhos, algo rastejando sobre a mesa, talvez, um estridente som de guizos, batucadas e pancadas. É o gato, deve ser ele, brincando com alguma folha de papel que o vento deseja derrubar no chão, pode ser também que os sons estejam voltando à vida, que eu tenha de fato sofrido uma surdez temporária e pude escutar o meu berro ecoando apenas dentro da cabeça.

Detida por um obscuro presságio, permaneci imóvel na porta do escritório, com a caneca em mãos, ponderando sobre minha lucidez, da qual agora eu duvidava.

Estiquei a cabeça para dentro do quarto e o que vi foi tão surreal quanto incrível. O gato pulava, frenético, para cima e para baixo, tentando alcançar uma minúscula fada verde, que mais se assemelhava a uma mosca, e dois pássaros coloridos que voavam bem próximos do teto, enquanto um coelho de brinquedo corria atrás dele, tentando impedi-lo de capturar as indefesas criaturas. Aquilo só podia ser brincadeira ou um sonho.

Cogitei a possibilidade de ter adormecido sobre as teclas do computador, mas constatei que estava acordada ao sentir o calor do café incomodar as minhas mãos.

Como se tivessem saído de uma animação da Pixar, os bichos de pelúcia, enfeites, o pinguim de borracha, o globo de neve de natal, estavam todos vivos, até mesmo a gérbera de plástico que coloquei naquela garrafa vazia de água e os pássaros de madeira que adornavam o vasilhame vazio de cerveja. A enorme cabeça do Mestre Yoda caminhava sobre o balcão, repetindo enfaticamente algumas palavras que não consegui distinguir em meio à balbúrdia que se formara naquele espaço diminuto.

Sem pensar, no limiar entre o corredor e a porta do escritório, soltei um forte PAREM COM ISSO!, ao que todos se viraram para mim com olhares atônitos. “Ela pode nos ver?”, disse Mimzy, o coelho, segurando o pequeno golfinho cor de rosa que deu de ombros em resposta a essa pergunta. “É claro que eu posso ver vocês!”, bufei já caminhando em direção à cadeira. Notando a minha fúria e confusão, o sábio e peludo Yoda aproximou-se dizendo “Respirar fundo você deve, jovem amiga. Mal não lhe faremos”.

O gato agora sibilava e agitava o rabo impacientemente na direção de todos aqueles personagens irreais, e pude perceber, em suas pupilas dilatadas, que ele estava tão desnorteado quanto eu.

Driblando aqueles que eu julgava serem frutos da minha imaginação, sentei na poltrona, fechando os olhos, movendo lentamente a cabeça de um lado para outro, dizendo baixinho “estou perdendo a sanidade, não é possível”. Senti um leve peso em meu ombro esquerdo, e palavras agudas vindas da mesma direção. A fadinha, muito delicada, enfiou-se atrás dos meus cabelos e começou a explicar com calma o que havia acontecido, algo sobre uma falha no fino véu que dividia as dimensões entre o real e o fantástico.

Retirei-a dali e tomei-a em minhas mãos, a fim de examiná-la mais de perto. Eu não estava interessada em suas explanações, na verdade eu não conseguia parar de sorrir ao olhar para aquela coisinha tão improvável, sentada na palma da minha mão. Escondido entre as pernas de seu pai, o filhote do pinguim de borracha, parecia ser feito de plumas de verdade. Relutante, toquei-o para ter certeza do que estava vendo. Ele era macio, não rígido como antes. O coelho tinha bigodes que se moviam com graça a cada respiração. Os pássaros cantarolavam e se aninhavam nos braços de uma pequena boneca de pano que agora sorria com gentileza.

De repente, o silêncio foi se transformando na rotineira sinfonia de rodas, marteladas, crianças, como se o mundo estivesse retornando lentamente ao seu estado natural. O Papai Noel dentro do globo de neve escrevia algo no vidro embaçado, quando, após soltar a fada, me aproximei dele para tentar decifrar o que seus dedos estavam formando. “U… N… D…. O”. Undo? Pronunciei a palavra em voz alta e, num piscar de olhos, todos eles estavam de volta aos seus lugares, estáticos e inanimados, e uma sombra de tristeza pairou sobre aquela ensolarada e mágica tarde. A magia se desfez, sem que eu pudesse decifrá-la.

Uma semana se passou, e eu ainda não consegui descobrir qual palavra será capaz de trazê-los de volta, para me ensinarem um pouco mais sobre seu mundo.


Imagem: Josh Boot

One comment

  1. Porque as palavras criam a fantasia não existe porque ela é parte do mundo que julgamos real e somente a este mundo real que vivemos devemos perceber quanto de fantástico ele é.
    Adorei, seu blog tem bastante coisa pra ler. Vou lendo aos poucos.

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