Efeito Dominó

A mente humana é uma máquina de pregar peças. Basta uma cena, uma música, a mudança no clima, um aroma ou qualquer outro gatilho, para nos transportamos a realidades passadas ou cogitações sobre o futuro, desencadeando uma reação sem fim de conflitos e angústias e aflições. No meu caso, as conjecturas sobre o que pode vir a acontecer costumam me assombrar com mais frequência do que os fantasmas do passado. Eu não tenho memórias que me fazem perder o sono, talvez alguns arrependimentos, porém eu costumo encarar tudo o que vivi como uma preparação para este caminho que hoje trilho, e que acredito ser o correto para mim. Era aqui onde eu deveria chegar, e só foi possível estar agora onde estou graças a tudo o que já aconteceu.

Tendo essa noção de que cada ação tem um resultado, portanto, sou levada a labirintos infindáveis de questionamentos e árvores de tomadas de decisão que parecem não me levar a lugar algum, quando se trata do que ainda está por vir. Tenho a tendência de desistir de projetos antes mesmo de iniciá-los, desde os menores planos – para um fim de semana, por exemplo – até as conquistas mais relevantes e grandiosas. Os diálogos que travo comigo mesma, sem dizer palavra alguma, são infinitos e sem a mínima coerência e, de modo geral, não ajudam a planejar o futuro, apenas aumentam a ansiedade, influência muito presente nos meus dias. Como os que estou prestes a escrever nas próximas linhas. 

Olho para o lado esquerdo e vejo meu marido dirigindo nosso carro, com habilidade e sem prestar muito atenção, e logo me lembro que preciso voltar à auto escola para retomar as aulas de direção, que tenho que escolher entre ficar tentando passar – o que pode levar muitos meses e acabar com minhas economias – ou comprar essa porcaria de uma vez por todas. Pondero sobre a minha real vocação para condutora. Ora, vamos, não existe isso de ter um dom para dirigir, basta aprender, olha só para a rua, com tanta gente que mal sabe dar a partida no carro e que está desfrutando da liberdade de ser o seu próprio motorista, enquanto você vive no banco do passageiro.

À medida em que as rodas cruzam o asfalto, o pensamento voa longe para um destino que eu gostaria de poder traçar definitivamente com desenhos belos e felizes. Olho pela janela, a estrada parece tão certeira ao se desenrolar à minha frente, que toda essa hesitação se dissipa, até eu me deparar com um rapaz pedalando bravamente pelo acostamento. Vejo nas brumas da mente minha bicicleta, tão esquecida no depósito do prédio, planejo a próxima pedalada para amanhã, nem que seja apenas por uma hora, na ciclovia, então me lembro que vou ter que ir até o posto encher os pneus, que devem estar muito murchos, e todo o trabalho que vou ter antes de poder, enfim, realizar uma coisa tão simples, que acabo deixando esse tímido desejo armazenado ali naquele mesmo canto em que ele surgiu. Amanhã parece estar longe ainda, talvez eu mude de ideia.

Recordo que pela manhã tenho um horário marcado bem cedo com a manicure, do qual começo a me arrepender, pois receio que ela vá cortar demais as minhas cutículas, o que tornará meus dedos muito sensíveis a qualquer ação. Então, não vou poder sair para andar de bicicleta, de qualquer forma. Tenho que lavar algumas roupas, aliás, lembrar das roupas me remete ao fato de que preciso arrumar os armários, descartar o que não uso, arrumar alguns botões que faltam nos casacos de inverno – aliás, onde será que posso encontrar botões roxos? -, além das roupas que ficaram largas depois que eu perdi peso. Acho que devo esperar para reformar as roupas largas, porque parece que agora não consigo mais emagrecer tão rápido como antes, depois dos trinta anos nosso organismo muda, faz uma semana que não saio para correr e a dieta já não está mais conseguindo me segurar na linha. Pensar em dieta me dá fome e vontade de comer um chocolate, aliás, fazer dieta só se for semana que vem, amanhã tem almoço na casa da minha mãe e não vou me privar das coisas gostosas só por um corpo mais “belo”.

Vejo as luzes no horizonte, na direção contrária, e agora sou transportada para a noite em que eu e você visitaremos nosso primeiro pub na Irlanda. Vai fazer muito frio, é quase certo que sim, então eu vou precisar comprar um casaco bem quentinho, outro para você, talvez botas, um gorro, não, já tenho gorros suficientes. Vamos alugar uma moto para rodar pelas cidades, mas será que aceitam a nossa carteira de motorista por lá ou teremos que fazer alguma equivalência de documentos? Primeiro, teremos que tirar o passaporte e voltar a economizar, porque do jeito que está a economia e com as altas cotações do Euro e do Dólar, vai ser bem difícil a gente conseguir. Na verdade, você me lembrou dessa dificuldade quando comentei sobre o desejo de fazer logo a viagem dos meus sonhos. Tudo bem, a Irlanda não vai a lugar algum. Talvez seja mais sensato mesmo esperar a crise passar para comprar qualquer coisa.

Mudo de assunto internamente, e lembro do nosso gato. Deve estar dormindo, ou miando, sentindo nossa falta. Como ele é apegado!, talvez seja melhor não adotar um filhote agora, ele pode não se acostumar, vai ser complicado conseguir trabalhar, correr, cuidar da casa, estudar e escrever e, ao mesmo tempo dar atenção aos dois nessa fase de transição.

Tento não pensar em nada. Fecho os olhos, imagino um fundo preto com milhares de peças de dominó enfileiradas, prontas para serem disparadas e serem derrubadas, uma após a outra, numa sequência perfeita. Nomeio cada uma delas com as minhas aflições, escrevo, no lugar dos pontinhos que indicam os números, as palavras que me atormentam e tiram o sono.

Os dedos se estalam, a corrente se inicia. As peças vão caindo, devagar, junto com meus medos e preocupações.

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