Confissões de um Personagem esquecido

Nasci numa  ensolarada tarde de sábado, quando a sua sede de viver aventuras falou mais alto e você decidiu adentrar o meu mundo. Foram necessárias exatas duas horas para desenhar todo o meu rosto, e você ajustou os traços com cuidado e minúcia para se assemelharem com os seus, escolheu os melhores atributos, forjou uma forte e destemida guerreira templária, com talento para a magia e mestre de armaduras pesadas. Ganhei vida em tempos turbulentos e atribulados, como a única esperança daquele mundo devastado pelos magos corrompidos e templários decaídos.

Logo que minha aparência terminou de ser moldada, fui atirada numa cela, com as mãos atadas e destituída do meu título de nobreza. Que bela maneira de começar a existir! Eu não me recordava de nada, tive a impressão de ter sofrido um golpe poderoso na cabeça, e ainda tinha aquela marca na minha mão, que eu não sabia de onde ou como surgira, muito menos para que servia.

Olhei para os céus, que se abriam num abismo verde, um redemoinho ou uma espécie de portal entre os mundos e do qual brotavam os mais grotescos demônios e criaturas decaídas. Naquele momento, a comandante dos cavaleiros me informou que era minha missão acabar com tudo aquilo. E eu sequer tinha uma espada decente.

Confiança em minha habilidades não me faltava, no entanto sentia-me tomada por uma sensação de que não podia confiar em nenhum conselheiro ou amigo que me rodeava nesta empreitada. No fundo, todos tinham seus próprios interesses obscuros que iam muito além de salvar o mundo das mãos daquele Ancião maligno e insano.  Minha tarefa consistia em marchar rumo àquela fenda abissal suspensa no céu, que aterrorizava a todos, e escapar ilesa das hordas de soldados inimigos, chegar até o homem que os comandava, matá-lo e acabar com essa manifestação do mal de uma vez por todas. As chances de tudo dar errado eram gigantescas.

Em nosso primeiro contato, pude sentir as suas mãos vacilarem ao me comandar pelo campo, ao gingar a espada nos ares contra os nossos inimigos. Porém, nas horas iniciais da batalha, dominamos mais de mil demônios e soldados templários traidores, corrompidos pela promessa de poder do Ancião. Percorremos um longo caminho, jornadas pelos mais incríveis vales, montanhas, litorais, cavernas e ruínas abandonadas de povos lendários, derrotamos criaturas míticas e, contrariando todas as probabilidades, matamos nosso primeiro dragão. Ainda posso sentir seu bafo quente soprando contra nós, o vento das suas asas, que nos puxava para perto, e o sangue respingando na superfície resplandecente do meu elmo. Foi a vitória mais empolgante de todas as vidas.

Com a morte do segundo dragão, as coisas foram ficando mais fáceis. A cada vez que subia de nível, novas armaduras eram compradas ou confeccionadas, novas espadas, escudos, amuletos, anéis de poder, o dinheiro já não era mais um obstáculo, visto que o ouro fluía como um rio dourado em nossas mãos. E conquistávamos os mais escondidos cantos dos povoados, vilarejos, reinos e terras longínquas, desbloqueando todas as regiões daquele mapa que, aos meus olhos, parecia infinito. Os desafios se tornaram escassos e notei que os intervalos entre os nossos encontros se tornavam maiores. Sua sede de conhecer a nossa maneira de viver, de saber o que o destino nos revelava, parecia diminuir a cada vitória no campo de batalha.

A princípio, achei que você tivesse encontrado um outro universo para explorar, mas, duas semanas mais tarde você ressurgiu para continuarmos nossa saga com o intuito de libertar o mundo, e foi quando me disse que estava cada vez mais difícil se desvencilhar das obrigações terrenas e fugir para nossa fantástica jornada. Os trabalhos, as aulas, as relações com as pessoas reais, tudo estava exigindo muito tempo e dedicação, impedindo-a de me conduzir rumo ao triunfo definitivo.

Em meu âmago, senti a tristeza pela primeira vez. O que aconteceria após, enfim, extinguirmos o mal supremo? Talvez algumas missões pequenas e sem muita recompensa. O que aconteceria comigo após completarmos a nossa tão urgente tarefa? Incontáveis vezes, nesses períodos em que você se ausentou, indaguei e mergulhei em questionamentos sobre o meu paradeiro e o de meus companheiros, se os deuses realmente me escutariam. Eu não queria morrer, muito menos desaparecer ou perder o espírito, como se nunca tivesse existido. Eu orei por muito tempo para que suas mãos, que outrora me criaram, fossem misericordiosas e me dessem uma chance de viver, muito além dessa breve coleção de proezas as quais compartilhamos. Você de um lado e eu do outro dessa fina tela que eu não consigo compreender.

Por diversas vezes, fui obrigada a acatar as suas ordens, embora acreditasse que algumas delas seriam prejudiciais ao reino, aos aliados da Inquisição ou ao próprio destino de todo o planeta, porém a honra e os votos que fiz, jurando obedecê-la para sempre, falavam mais alto a todo momento em que pensava em me rebelar.  Isso, e também o fato de eu só conseguir me mexer através dos seus comandos.

Eu te ajudei a conquistar fama e glória. Através de mim, você conseguiu vivenciar experiências que jamais seriam possíveis aí nesse seu mundo sem graça. Você se tornou Inquisidora, mestre de magias templárias, conquistou o comandante do exército. E, em troca, me presenteou com uma eternidade de tédio e estagnação.

Hoje, sentada na mesa dessa taberna, já meio embriagada de vinho e tristeza, olho em volta para os meus aliados, todos nós presos nessa realidade estática de um mapa virtual, que para você é apenas um jogo, e sinto vontade de liderá-los para atacar o seu mundo. Invadir a sala da sua casa com cavalos, drúfalos, serpes e predadores ocultos e aniquilar de vez com tudo o que te impede de voltar para cumprirmos nosso papel.

Eu continuo aguardando a sua volta. Estou aqui, sem poder me mover. Suspensa nesse momento estático e imutável. Nosso universo está perecendo e os inimigos ganham forças, enquanto você brinca de ser humana. Onde está você, quando mais necessitamos de ajuda? Nossas vidas estão em jogo…

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