Devagar

Envolta no calor da cama, como se nadasse num mar sólido e morno de sonhos translúcidos, escuto o som abafado de alguma coisa que se parece com uma harpa, um violão, um bandolim. São anjos ou ninfas que embalam o meu descanso – ou é apenas o despertador do celular, gritando aquela música suave e etérea que escolhi para acordar sem alarde. Os olhos dão sinal de que vão se abrir, mas não agora, talvez daqui a cinco, dez, quarenta minutos. De novo aquela música angelical boiando nos meus ouvidos, e as mãos invisíveis que, com gentileza, me ajudam a fazer a travessia entre o reino onírico e o mundo real. Abstratas, macias e leves, tocam as minhas pálpebras e as abrem com delicadeza.

A ausência de luz que invade o cômodo indica que a manhã também tem preguiça. Ajeito os travesseiros com pouco esforço, elevo o corpo fazendo menção de que vou me sentar, mas desabo por inteiro, como roupa lavada que cai do varal. O mar de edredom quer me puxar novamente para o fundo e, quase sem me mover, imito um balé com as pernas para me desvencilhar, sem urgência, do manto sonolento que cobre o meu corpo.

Lento.

Escorrego do colchão, agora sou um vulto acetinado e inebriado, pairando sobre o chão como nuvem das brumas matinais, dançando sobre a corda-bamba que divisa o dormir e o despertar. Sobrevoo os pequenos espaços dessas quatro paredes tentando agarrar a consciência que me foge, como criança correndo no quintal. Os sons, aos poucos, tentam invadir os tímpanos fechados e que ainda escutam a música dos lençóis roçando a minha pele.

Sem pressa.

Sinto as mãos leves, flutuando no ar em busca das roupas, como se meu corpo ainda não fosse matéria, se não um fantasmagórico aglomerado de partículas que finge viver. Sou um amontoado de olheiras, cabelos desalinhados e torpor. O espelho, como um lago cristalino, não reflete nada, só as ondas infinitas que se formam sobre a película estática da água congelada, que toco, incrédula.

Deslizo suave pela casa, tento fazer algum barulho, porém os ossos tardam a recobrar sua espessura, as lajotas que cobrem o piso estalam ao se transformarem novamente em pedra dura, os pés tocam o chão frio, o que me faz despencar dessa atmosfera desacelerada, e a tímida luminosidade que jorra entre as frestas da janela denuncia a verdade de que o dia logo abrirá os braços.

Aos poucos.

A fumaça do café se desenrola em espirais imateriais, formando um eclipse em meus óculos que quase pendem na ponta do nariz. Olhos entreabertos, os chinelos trocados, a blusa do pijama que esqueci de trocar. Está tudo errado, algo me diz, mas o espectro que ainda sou parece não se importar com o que está do avesso. Respiro fundo,  tocando os músculos dos braços para que voltem à vida e me ajudem a suportar o peso daquela xícara de ânimo.

Calma.

O caminho até o banheiro é longo, os passos se arrastam, as pernas são de chumbo, meu Deus!, o gato corre frenético agarrando-as, confundindo-as com borboletas imaginárias. Detenho-me por algum tempo, talvez um minuto ou dois, e raciocínio, ainda entorpecido, avisa que ele deve estar com fome, enviando sinais a conta-gotas aos meus calcanhares, para que ajustem sua direção, fazendo o trajeto contrário até a cozinha. O corredor se estende por milhas e milhas de arranhões felinos e café fumegante, olhos coçando e feixes de luz intermitentes que se chocam contra minhas retinas como um soco.

Espera.

Derramo o rosto dentro da pia e a água sobre os olhos, recupero a lucidez e a noção de que sou humana, em mais um dia, um esforço contínuo de órgãos, tecidos e pulsações para sustentar estes quilos de existência abarrotando a leveza do meu espírito. Sorrio com esse pensamento, mergulhando num oceano de surreais filosofias e devaneios sem sentido. Esquecidos pelo meu excesso de paciência, os gritos do celular agora despertam o meu marido, que prontamente se levanta, faz o aparelho se calar e me pede licença enquanto, atônita, noto a escova de dentes fazendo o seu trabalho automático, enquanto as gotas caindo da torneira tilintam como as moedas que caem dos bolsos da calça pendurada atrás da porta.

É súbita a percepção de que eu voltei a ser, agora. Chegando à sala, vejo o sol anunciar que as horas caminham na direção contrária da preguiça instalada nesse apartamento. Eu quero andar para trás, o dia me puxa, empurra, as mãos invisíveis que gentilmente me trouxeram de volta para esse plano agora são violentas e sórdidas, firmes e ávidas em gritar “Acorda!”, mas eu nem sei bem que horas são.

Aguardo.

O som da motocicleta ao sair do prédio, a caminhonete que nunca tarda em deixar o estacionamento, aquela pombinha que religiosamente arrulha aninhada na árvore sob a minha janela, os brinquedos do gatinho e suas patas escorregadias derrapando pela casa. A mesa de vidro sustentando o caderno vazio, a xícara envelhecida, as mãos que pousam ali esperando por uma faísca que as traga de volta. O silêncio barulhento da manhã de quarta-feira, e a apatia que me acomete ao já saber de tudo que irá acontecer ao longo do dia aqui, e o desejo de que o tempo não passe e não concretize essa certeza, nesta casa.

Pacata.

Abro a janela com uma das mãos, olho para a moça que, a essa hora tão prematura, já limpa as cortinas do apartamento do outro lado, no outro bloco. As mãos invisíveis do despertar seguram minha cabeça naquela posição, encarando a pressa da moça em terminar aquela fria tarefa, mãos que são nobres auxiliares na tarefa de me preparar para, enfim, levar a sério os gritos do despertador. Já faz quanto tempo que deixei o calor sólido da cama morna, os sonhos translúcidos e a música angélica que me conduziu entre os mundos? Uma hora.

Sessenta minutos de vida, apagados pela fumaça da quase-inércia. De vida que não anda. O tom que escolhi para esse dia.

Devagar.

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