Felicidade obrigatória

A obrigação de ser feliz, nessa segunda-feira chuvosa, entristeceu meu coração. Quatro horas da tarde. Chá preto, trabalhos, leituras de blogs, um aleatório acesso às redes sociais. A tela se inunda de fotos, depoimentos, declarações de amor, felicitações, sorrisos impecáveis, corpos perfeitos ou em busca da perfeição, viagens, as mais incríveis cenas da realização dos sonhos de quem eu sigo nesses universos virtuais.

São raríssimas as manifestações de desassossegos, frustrações ou pensamentos negativos nessa imensidão de alegria plástica que é a Internet.

Estamos todos em busca de uma euforia constante, de gargalhadas perenes, sensações eternas de prazer infindável. Compramos, com a submissão de um filho obediente, todos os itens que prometem esse passaporte à Prazerlândia, sem questionar. Pagamos caro pelos lábios curvados, dentes arreganhados, fotografias espontaneamente fabricadas retratando um momento que só recordaremos ao olhar novamente aquele instantâneo colorido.

Entramos na onda do ter mais do que ser, maquiamos a realidade para não decepcionar a quem nos segue ou nos rodeia. Disfarçamos tudo o que há de imperfeito e deserto em nossos corpos e almas e esquecemos de encarar o espelho quando o nosso diálogo interior se transforma em silêncio.

E quem é que se lembra desse velho e estranho silêncio? Essa ausência de ruídos, ausência de contato, escuridão da fala. Aquilo que pairava no vazio da noite antes de existirem as cidades. Emudecer o mundo contemporâneo parece tarefa irrealizável, não se pode silenciar essas infinitas expressões de felicidade amplificada viajando pelos túneis dos bits.

Não existe serenidade e lucidez em meio ao grave barulho que as risadas e os retratos da alegria de terceiros provocam nas paredes de quem está imerso no contrário desse sentimento.

A permissão para chorar foi revogada. Somente se as lágrimas resultarem do gozo exacerbado da eufórica alegria, ou da emoção vendida nas propagandas de telefone celular ao som de alguma bela música regravada.

Ser triste tornou-se pecado mortal, infelicidade é condenação à fogueira do isolamento, da segregação. Você não pode fazer parte do clube dos satisfeitos se não tiver a vida toda nos eixos pré-moldados que alguém decidiu delimitar.

Há um mar de possibilidades dentro desses moldes, há tantos sorrisos a serem colhidos que, se você perder as suas preciosas horas tratando de lúgubres emoções ou tentando resolver os conflitos que o assolam, é provável que eles escapem por entre os seus dedos. Em velocidade vertiginosa, é assim que vivemos. Sem parada para os dias cinzas e pesarosos.

E vivemos sem a consciência do que esta existência é feita. Mas, como assim? Viver é ser feliz. Nascemos para isso, é o nosso lema. Para vencer, sorrir, vibrar, seguir em frente, vencer obstáculos, matar cinco leões por dia, ter sempre foco, foça, fé, garra, coragem.

Viver plenamente, sem titubear, sem cair – e, se cair, levantar, sacudir a poeira e seguir adiante sem o mínimo de dúvidas, inseguranças ou medos. Abraça o que te faz feliz, o que você ama, e segue – não é assim?

Dizer-se feliz e contente com um emprego que te proporciona um bom salário, mas que não é a carreira dos seus sonhos é mentir para si mesmo. É impossível ser alegre se você não faz aquilo que ama, já dizia algum filósofo, ou empresário, que não me lembro o nome.

E não adianta ser assim tão realizado se as suas conquistas são pessoas, íntimas ou imateriais, porque essas não são as verdadeiras metas a serem cumpridas. Não publicar em todas as mídias cada momento de sua vida transforma as belas histórias que você conta em meras ficções, sem provas.

Somos todos Tomés dos contos da felicidade alheia, se não conseguimos ver é porque não aconteceu de verdade.

Se as angústias da vida o assolam, se você está “fora do peso ideal”, se come algo não previamente aprovado pela patrulha da saúde, e se posta fotos sem sorrir, é porque é um fracassado. Ninguém é obrigado a ver suas publicações sobre como a situação está ruim, ou a respeito de dificuldades e percalços.

Pedir ajuda é desespero. Vivemos na era da independência ou morte, e a felicidade é egoísta, mesmo para aqueles que tatuam em seus corpos e textos que ela só é real quando compartilhada. Uma frase tão repleta de significado e profundidade, transformada em alicerce da superficialidade.

Estamos todos imersos em clichês, slogans e promessas infalíveis de alegria eterna ao alcance das mãos, basta estendê-las na direção certa. E cada um aponta para uma direção quando questionamos para onde devemos nos voltar.

Falta tempo para esperar, respirar, meditar. Há tanta falta de sossego, que o próprio descanso se transforma em marasmo. O dia está aí para ser aproveitado da melhor maneira possível e, se você não absorve o máximo de algo que está mais ou menos, é porque está atrasado, ultrapassado, como uma peça obsoleta de uma velha máquina de escrever.

Nessa nova filosofia de felicidade instantânea, não há tempo para refletir ou especular sobre as circunstâncias que permeiam a realidade, isso é coisa para acadêmicos com cheiro de biblioteca mofada. A nós, resta apenas dividir frases de sábios mestres da espiritualidade, para fazemos a nossa parte.

Agora são cinco horas. Sessenta minutos se passaram, e eu aqui sufocada pela embriaguez que pipoca nos conteúdos publicados nas timelines, sintetizados em hashtags, que amanhã serão iguais, polêmicas, esquecidas ou replicadas à exaustão. Tentando digerir, junto com uma bebida escura, toda essa alegria embrulhada em celofane.

E são tantas as receitas para se atingir a felicidade obrigatória, que, no meu âmago, eu só consigo sentir um misto de fúria, tristeza e ansiedade. Por não saber como chegar nesse estado elevado de amortecimento, de obediência e satisfação forjada. Ser feliz não é um objetivo, não me basta.

A felicidade é matéria muito mais densa e sublime que apenas alguns cliques impensados, não é cartaz de propaganda, não é compulsória. Posso ser triste e feliz, quem diz o contrário? A toda obrigação existem subversores.

Minha felicidade não é imposta, é revolucionária, e, em sua grandiosa imperfeição, me permite viver uns dias sem risos.

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