Mamis

Minha mãe, apesar de ter dado à luz somente duas meninas, tem muitos filhos. Afilhados, crianças que ela ajudou a criar, pessoas que a enxergam como líder, como conselheira, amiga, confidente. Amigos meus, que muitas vezes me disseram “eu gostaria de ter uma mãe como a sua”, e que me fizeram enxergar um lado muito mais humano e incrível que eu não conhecia sobre aquela que me deu a vida e que constantemente me ensina a ser uma pessoa melhor.

Eu tenho muita sorte de ter a família que tenho, um pai tão presente e uma mãe tão mãezona. Tenho sorte de ser filha dessa mulher tão incrível, forte, dedicada, linda, inteligente e sábia, que me aceita como eu sou e me inspira a crescer cada vez mais, espiritual e emocionalmente. Eu, que nunca tive vontade de engravidar, hoje penso nela e às vezes sinto uma enorme vontade de agraciá-la com um netinho, apenas para vê-la sorrir, quem sabe da mesma forma como ela sorriu ao olhar para mim nos primeiros momentos da minha vida.

Imagino como deve ser incrível a sensação de olhar nos olhos de um filho, apos carregá-lo em seu ventre por tantos meses. Senti-lo crescendo dentro de você, ver o seu corpo mudando e se tornando a morada de uma pessoa totalmente diferente. Que mistério mais lindo, esse de ser um casulo, de converter um ínfimo aglomerado de células em algo tão novo e complexo. De abrir mão de si mesma, e de dar tanto e receber muito pouco, ou quase nada, em troca. O amor que damos a nossas mães às vezes me parece tão pouco em face ao que recebemos delas, que dá até uma sensação de ingratidão, por melhores e mais perfeitos que sejamos. Como se a retribuição jamais fosse equivalente ou à altura dos sacrifícios que elas fazem e fizeram para o nosso bem-estar. 

Eu gostaria de voltar lá atrás, na adolescência e acolher com obediência todos os seus conselhos, pois hoje eu sei que poderia ter evitado muitos sofrimentos se os tivesse escutado de verdade. Queria voltar no tempo e poder aproveitar cada instante que passei ao lado dela e que muitas vezes negligenciei, ou que não soube valorizar por não ter a maturidade ou a consciência de como o tempo passa rápido.  A nossa memória poderia ser programada para lembrar de tudo, desde quando éramos minúsculos fetos. Imagina que louco seria recordar daquela vida aquática no útero, de abrir os olhos e ver o rosto da sua mãe, tão enorme e sorridente, sentir o calor de seu abraço, após tanto tempo ouvindo apenas as batidas do seu coração?

O que será que minha mãe sentiu ao me tomar em seus braços pela primeira vez? Ela já me contou muitas vezes a história do meu nascimento, incontáveis peripécias da minha primeira infância, e, por mais que eu saiba todas essas coisas, eu jamais vou saber como foi, de verdade, aos olhos dela. Talvez tenha sido mais fácil, pois sou a segunda filha, ou talvez tenha sido mais difícil, justamente por ela já saber das preocupações que um filho traz, pela preocupação de amar em dobro, a responsabilidade de fazer duas crianças felizes, educá-las, formá-las para o mundo.

Gostaria de me lembrar de todos os pequenos momentos mágicos que passamos juntas quando eu era criança. Como o meu primeiro dia na escola, quando tiveram que me consolar, pois eu chorava “quero minha mamãezinha”, ou o seu olhar surpreso e orgulhoso no dia em que dei os meus primeiros passos ou disse as primeiras palavras – me disseram que foi “Dudu”, abreviação do nome da minha irmã. Queria voltar no tempo, só para ver, ainda que como mera espectadora, como ela me fazia dormir, ouvir as canções que cantava para embalar o meu sono. Sentir seu abraço reconfortante após sofrer uma corriqueira decepção infantil – cair da bicicleta, descobrir que Papai Noel e Coelhinho da Páscoa não existem, brigar com a irmã, sentir os dentes amolecerem. Essas coisas que as mães compreendem como ninguém.

Ao longo dos anos descobri que minha mãe não é aquele ser mítico e divino que provavelmente eu imaginava quando era bem pequena. Ela é humana, tem sonhos, anseios, passa por perrengues, sente raiva, chora e se frustra, tem inseguranças, trava batalhas pessoais e passa pelas mesmas coisas que eu. Ainda assim, eu raramente a vi ou vejo triste – pra ser sincera, não me lembro de vê-la triste nunca. Nem quando ela enfrentou os momentos mais difíceis, as perdas, doenças e adversidades familiares. Ela é a pessoa mais fervorosa que eu conheço, e diariamente eu desejo ter pelo menos um por cento dessa capacidade de acreditar no que não vejo. Essa força inexplicável que ela carrega dentro de si é uma das maiores inspirações que tenho. Vê-la sorrindo durante a tempestade me tranquiliza e me ajuda a não desistir de tudo.

A importância da família e de Deus foram as lições mais preciosas que aprendi com ela. Aprendi que nada vale mais a pena do que ser eu mesma, e que a honestidade e a justiça são as maiores virtudes que alguém pode almejar. Aprendi a ser desapegada dos bens materiais e a apreciar tudo aquilo que é gratuito na vida. Meu pai e ela sempre nos ensinaram sobre como devemos olhar para as coisas que não são desse mundo, para sermos mais felizes.

Nessa atmosfera de comemoração, nesse dia em que eu comemoro duplamente a vida da minha mãe – pois também é o aniversário dela, eu gostaria de poder escrever mil palavras em homenagem a essa que é a mulher mais linda e importante para mim. Porém, só o que me vem à mente é: obrigada. Obrigada por ter me escolhido como filha, por me educar, amar, me aceitar, mesmo com todos os meus defeitos e maluquices. Por ser esse exemplo tão concreto e presente de que vale a pena ser diferente e amar. E por sempre estar de braços abertos em todos os momentos da minha vida. Te amo!

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