Não nos levem daqui

Você me acordou naquela madrugada, assustado, dizendo que teve um pesadelo horrível. Balbuciando palavras desconexas, pediu um abraço e voltou a dormir, com a respiração ofegante. Pela manhã, lúcido e sério, você me contou o seu sonho.

Era noite, você estava no sítio de um amigo e, de repente avistaram algumas luzes, que começaram a se aproximar. Nervoso e apreensivo, resolveu verificar o que eram aqueles estranhos sinais no céu e, em meio à zombaria dos amigos, saiu da casa e notou alguns seres estranhos – os alienígenas – caminhando em sua direção.

Tomado pelo desespero, começou a fugir na direção da casa, mas um deles conseguiu agarrar a sua perna. Tinha sido abduzido por um ser magro, esguio, com um detalhe vermelho na cabeça, que emanava luz, como se fossem óculos. Os outros detalhes não estavam muito claros, mas as cenas que você me descreveu foram muito intensas, de uma realidade quase palpável. E o pavor tomou conta de você, ao despertar bruscamente sentindo um forte puxão no pé.

Bebendo o seu café, você parecia muito convencido de que aquilo não tinha sido apenas um sonho, mas uma abdução real.

Ilustração: André Braga
Ilustração: André Braga

Eu fiz pouco caso da sua experiência extracorporal, alegando que isso jamais seria possível. Sou muito racional para acreditar que o espírito viaja por dimensões paralelas enquanto estamos adormecidos, você sabe.

Apesar de toda essa descrença, ao longo do dia, fiquei imaginando como seria esse cenário inusitado. Os filmes sobre alienígenas e invasões de seres extraterrestres não são muito animadores. Esses seres costumam ser retratados como hostis, vingativos, devoradores de recursos e sem o mínimo de escrúpulos ou consideração pelos humanos.

E o repertório hollywoodiano é tão vasto que parece difícil acreditar que eles estejam errados, ou talvez seja só uma conspiração para nos fazer temer algo que, na verdade, é inofensivo.

O que me leva a questionar: por que será que temos essa visão tão negativa dos nossos amigos intergalácticos? Pressupondo que realmente exista vida inteligente em outros planetas – o que não é tão difícil de imaginar, visto que o universo é gigantesco – não acredito que eles teriam tanto trabalho em viajar milhões de anos-luz somente para acabar com a nossa raça ou usurpar a nossa Terra que já está tão judiada.

A menos que fossem levados pelo mesmo impulso que às vezes eu tenho de jogar uma bomba nesse planeta e aniquilar toda a maldade que aqui existe, ou tentar nos fazer enxergar que estamos errando feio. Mais ou menos como naquele filme O Dia em que a Terra Parou.

Certa vez você me disse que os alienígenas são espíritos de luz encarnados, com matéria menos densa que a nossa e que visitam a Terra para nos orientar. Será que isso realmente é verdade? Se for, parece que não temos aprendido muito bem a fazer as coisas de uma forma mais excelente.

Comecei a imaginar como me portaria durante uma invasão alienígena. Se fosse uma situação semelhante ao que vi nos filmes Independence DayGuerra dos Mundos, com certeza eu sairia correndo e me esconderia em algum bunker perdido até a segurança ser restabelecida.

Costumo pensar que não sou tão covarde assim, mas, lá no fundo, eu sei que não teria a coragem de lutar contra um monstro cheio de tentáculos ou armas que desintegram pessoas.

Talvez eu me comportasse como os protagonistas do filme Sinais, me esconderia no porão com capacetes de papel alumínio, monitorando via rádio os acontecimentos e tentando prever o próximo passo dos invasores. Torcendo para ter uma chance de sobreviver ao caos.

Se fossem apenas seres cinzentos ou um simpático homenzinho como o fofo E.T do Spielberg, ou aquelas bizarras criaturas dos filmes dos homens de preto, eu acho que ficaria amiga deles. Tentaria trocar uma ideia, argumentar e chegar a um consenso. Perguntaria de onde eles vêm, por que estão aqui, como é a vida deles.

Eu os levaria aos lugares mais legais que conheço e talvez conseguisse fazê-los mudar de ideia sobre destruir nosso planeta – se eles tivessem essa intenção. Deve ser muito legal ter um amigo vindo de outra galáxia, imagina só!

Depois de tanta análise, consegui entender o pavor que você sentiu ao sonhar com essa abdução. E pensei: qual seria a minha atitude, se me deparasse com um ser desses? Correria ou tentaria fazer uma oferta de paz? Eu não gostaria de ser levada daqui, por pior que seja esse mundo. Nasci aqui por algum motivo e enquanto eu não cumprir o meu papel nessa existência, é aqui que eu devo ficar.

Acho que falaria isso para o alien que estivesse prestes a me abduzir. É óbvio que ele não me compreenderia – ou será que os extraterrestres são poliglotas?

Tem muita gente que daria tudo para conhecer outros planetas, viajar pelo cosmos e saber o que escondem essas outras civilizações que julgamos mais avançadas do que nós, mas eu não. Essa nossa Terra tem muitos defeitos, guerras, fome, injustiças, mas é a minha casa e eu pretendo ficar por aqui.

Aliás, quem garante que as coisas lá nos outros mundos são melhores do que aqui?

Se houvesse alguma possibilidade de diálogo com um ser de outro planeta, eu diria: não me leve daqui. Fique com a gente, tente nos ajudar – se você souber como – usufrua da nossa hospitalidade e das belezas naturais que possuímos, mas por favor, não me faça viajar pelas estrelas.

Eu tenho medo de altura. Não sei respirar na atmosfera do seu planeta. Provavelmente minha carne explodiria ou implodiria ao entrar na hipervelocidade e eu ia dar o maior trabalho para você. Meu corpo não deve ser assim tão digno de ser estudado. Gosto muito de ser humana e talvez você também acabe decidindo que seria legal morar por aqui.

Ou, se não gostar do que vê, apenas suba no seu disco voador e volte para sua casa. Eu acho que você terá muitas histórias legais para contar sobre esse pontinho azul boiando no infinito, o qual chamamos de Terra.

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