O cheiro do seu moletom

amor

Parece que o friozinho resolveu se instalar um pouco mais cedo esse ano. Ou talvez nos anos anteriores ele tenha decidido tirar férias, estava preguiçoso e cansado, transformando o outono em um verão levemente mais fresco e sem muita graça. O fato é que, nessa manhã que tarda a clarear, acordei e senti os ossos gelados.

Nem o edredom pesado, tampouco a manta macia de microfibra, que costumam ser mais do que suficientes para me esquentar, nem a blusa de lã fina que usei como pijama, nada foi suficiente para espantar a sensação de estar trancada numa geladeira, nesse dia tão cinza, quando meus olhos se abriram.

Logo eu, que nunca fui assim tão friorenta – deve ser a idade. Tenho a impressão de que, ultimamente, nada é capaz de me deixar confortável nos dias de frio.

Nada, exceto o seu moletom.

Quando eu o olhei ali, pendurado no cabide do banheiro, tive a certeza imediata de que ele seria o abrigo perfeito. Não me entenda mal, dormir ao seu lado é a maneira mais deliciosa de me manter quentinha a noite toda e eu não troco isso por nada.

Como eu sempre digo, você é a minha lareira humana. Acontece que eu não posso ter você colado ao meu lado, atendendo às minhas necessidades térmicas, o dia todo. Então, o que me resta é esse moletom preto com a estampa do Jack Daniels, que você acabou de tirar do corpo.

Essa peça tão subestimada, que você abandonou sem hesitar,  suspensa em castigo, amontoada sobre sua velha calça do mesmo tecido, ao despir-se antes de colocar a roupa do trabalho. Que se revirou nos lençóis junto contigo enquanto sonhava, que te manteve aquecido na madrugada, e que agora pende rente à inexpressiva parede de azulejos. Essa matéria morta, porém tão cheia de vida, é o que vai me ajudar a esquecer que o sol não quer brilhar nessa sexta-feira com jeito de quarta de cinzas. 

É incrível como eu só consigo me sentir confortável com o cheiro do seu moletom.

Nem precisa ser especificamente esse, que você pouco usa, que sequer tem um capuz, ou bolsos, e que, na verdade, tem uma gola bem chata e que me sufoca um pouco. Não importa, pode ser qualquer um deles, que vez ou outra encontro espalhados pela casa, ou os que desenterro das profundezas do seu armário, mesmo nos dias quentes, só para poder te abraçar à distância. Pode ser o mais surrado de todos, tipo aquele da Harley-Davidson, com a cor desbotada, enorme e quase roto.

Não é a estética que importa, o que me interessa é saber que tem um pouco de você neles e perto de mim.

Os seus agasalhos têm um poder de aquecimento, emanam um calor diferente de todos os outros, transformam os meus blazers, sobretudos, jaquetas – e até mesmo os meus próprios moletons – em meros aprendizes da arte de esquentar. Mas não pode ser qualquer casaco. Já tentei usar suas jaquetas e camisas xadrez, já tentei copiar a sensação que os moletons proporcionam, em vão. Tem que ser um moletom.

Meu armário, tão bem recheado de roupas bacanas, casacos estilosos e blusas de lã, não me atrai. Não hoje. Não nesses dias em que nada me aquece. Mesmo agora, sentindo menos frio, saboreando uma xícara de café quente, pensando que talvez eu esteja um pouco desarrumada para sair de casa com essa roupa masculina – e que você usou como pijama.

Ainda que essa blusa esconda um pouco as minhas mãos, atrapalhando algumas tarefas e me forçando a dobrá-las alguns centímetros para conseguir digitar, com todas essas contrariedades, ainda assim, esse moletom é tudo o que eu preciso e é bem provável que ele permaneça comigo até o fim do dia.

Ao me vestir com o seu perfume, nos dias frios, consigo me esquecer de tudo o que há de ruim. É algo que amplifica o meu amor pelo clima invernal. Ameniza a saudade que sinto ao longo do dia, passando horas e horas envolta numa atmosfera de felicidade.

Eu poderia comprar um milhão de blusões, suéteres, todos os modelos de casacos desse mundo, mas nenhum deles jamais terá a mesma graça, a mesma sutil familiaridade que os seus moletons, especialmente aqueles mais velhos. Acho que foi por isso que sequestrei para mim aquele seu antigo blusão verde meio punk, o qual, aliás, faz tempo que você não vê, e não veste. E é incrível, mesmo após muitas lavagens, o seu cheiro inebriante ainda resiste nele.

É como se, ao vesti-los, você transferisse um pouco do seu calor, da sua essência, do seu amor, e isso os transformasse em mini fogueiras de tecido. É como se eu estivesse com você mesmo, em pessoa, aqui, colado no meu corpo o dia inteiro, me abraçando com carinho. E não é só o material confortável, o tamanho ideal, às vezes até folgado demais, que me envolve com ternura.

É a lembrança de ver você, vestindo-os, despretensiosamente, sem saber o quão lindo você é, alheio ao charme que transmite. É o perfume que eles exalam. O seu cheiro, indelével, impregnado nessas macias fibras de algodão colorido. Eu até poderia pegar um dos meus casacos, borrifar um pouco do seu perfume, para criar o mesmo efeito, mas acredito que não adiantaria em nada, porque a fragrância que sai daquele belo frasco é apenas um amontoado de átomos vazios, quando aplicada distante de você. Ela só ganha vida quando misturada ao aroma da sua pele.

Nada me aquece mais do que os seus moletons perfumados.

Porque eles não agasalham somente a minha pele fina e gélida, o que eles carregam é muito mais profundo e eterno do que um mero pedaço de pano moldado e estampado. As memórias contidas ali, evocadas ao entrarem em contato com o meu corpo, são como vulcões, explodem em fogo e brasa.

E o calor emana da minha alma, exala pelos poros, borbulhando em sentimentos, sonhos, saudades, vontade de fazer esse dia, que mal começou, acabar logo para poder te beijar e abraçar até o fim dos tempos.


Imagem: Freepik.com 

 

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