Hora do Almoço

As gargalhadas das crianças na garagem do prédio anunciam o fim da manhã e o horário do almoço. Com as mochilas balançando nas costas e passos apressados, as mãozinhas sujas, algumas ao lado da mãe ou da avó, as sorridentes meninas e os impacientes meninos narram com detalhes tudo o que aprenderam naquele dia. As tarefas, os desenhos, as brigas com os coleguinhas, os conflitos, “fulano pegou minha boneca”, e outros dramas infantis, que arrancam sorrisos da mãe e da avó. Vejo-as desaparecendo pelos corredores do prédio enquanto caminho em direção ao portão da rua.

O porteiro e o zelador conversam sobre amenidades, algum time de futebol que ganhou ou perdeu o jogo na noite anterior. Uma moradora idosa sobe as escadas que ladeiam a guarita do prédio, falando sobre o frio, “mas ainda bem que está sol”, e o zelador responde alguma coisa entre os dentes, esboçando um tímido sorriso, antes de me cumprimentar. O carteiro se aproxima das grades do portão, tocando insistentemente a campainha do interfone, numa clara tentativa de irritar o porteiro, em tom de brincadeira. Eles se cumprimentam e as encomendas são entregues, sob o olhar curioso da senhora que aguardava sentada no banco em frente à portaria ao ver um grande pacote vermelho, adornado com uma fita cintilante. O carteiro se despede, fechando bruscamente o portão atrás de si, provocando uma série de protestos jocosos do porteiro e do zelador.

Ao meu lado, ajeitando cuidadosamente o pano de chão sobre a lâmina de borracha do rodo, a faxineira lança um olhar estranho para o meu cabelo e comenta “que cor bonita”, fazendo-me duvidar de sua sinceridade. Antes de se abaixar para limpar o chão, ela solta o espesso rabo de cavalo e prende os cabelos num coque bem alto, conferindo ao seu rosto uma beleza não tão óbvia, porém perceptível a um olhar mais minucioso. Com movimentos longos e ritmados, ela move o rodo para frente e para trás, empurrando as folhas secas para a calçada, despertando o interesse do cãozinho que passava por ali. Sua dona, com os cabelos completamente brancos e semblante carrancudo, puxa a coleira com força, fazendo-o desviar para perto de si. O cãozinho rebelde esboça mais uma vez sua vontade de brincar com as folhas amareladas, levando a dona a repetir aquele gesto rude de dominação. Vencido, o pequeno poodle abaixa a cabeça e segue em frente, com passos rápidos, até o poste. Num ato de rebeldia, ele levanta a pata traseira e marca aquele local da calçada como sendo seu, fazendo um movimento hilário de enterrar a poça amarela que se formou no concreto.

Simpático e piadista, o porteiro faz uma brincadeira sobre o portão que sempre emperra quando vou abrir, pergunta se estou indo almoçar, e, incomodada pela noção de rotina, sigo os mesmos passos que fiz no dia anterior.

Ouço os latidos da pequena cachorra do estacionamento. É incrível como ela sempre late no mesmo horário, esganiçando, numa agonia bizarra, em tom de horror, que todos os dias escuto lá do alto do sexto andar. Ao passar por ela, vejo-a correndo em círculos, entoando seu cântico agudo, enquanto a mulher, que presumo ser sua dona, reabastece o pote de plástico com ração. Com uma das mãos, ela espanta os pombos que rodeiam a comida e, com a outra, coloca a vasilha no chão. A cadelinha quase que mergulha naquele mar de comida, agradecendo o gesto da dona com o balançar de seu rabinho cortado.

Alguns metros à frente, os lavadores de carro do posto de gasolina da esquina torcem panos, lustram janelas e realizam as suas atividades ruidosamente. Os frentistas do posto me cumprimentam, um deles pergunta se já estou pilotando minha moto, e refresca em minha memória o fato de que preciso voltar à auto escola para continuar com as aulas. Espanto o pensamento e respondo os acenos amigáveis dos funcionários.

No restaurante onde costumo almoçar, de aparência humilde e com pouca variedade, todos os dias o dono me pergunta exatamente a mesma coisa quando vou pagar a conta. As garçonetes indagam “hoje não tem suco?”, quando estou almoçando sem nada para beber. Os rostos são familiares, os gestos e movimentos são sincronizados e quase imperceptíveis. Na fila para montar as marmitas, dois rapazes se curvam sobre a tela de um celular, lamentando as notícias políticas do dia enquanto indicam à moça que os serve quais serão as misturas e os acompanhamentos de sua escolha. Uma tatuagem de borboleta em vibrantes tons de azul no braço da garçonete chama a minha atenção. A fumaça e os aromas que sobem dos pratos apetitosos embaçam os meus óculos e eu os tiro para limpar com um guardanapo.

A servente do restaurante alinha cuidadosamente os pratos à sua esquerda, enxugando-os com um pano muito branco, depois empilhando-os à direita. Mais talheres são despejados na bandeja, sinal de que o movimento está bom. Os alimentos são repostos, as saladas recebem mais folhas frescas e o arroz, o feijão e a lasanha recém saídos do fogo chegam para dar mais vida à seleção do bufê.

Na mesa, contemplo o meu prato com certo orgulho. Arroz, feijão, saladas, legumes e peixe. Degusto o almoço observando o movimento dos clientes e das funcionárias – curiosamente, somente mulheres trabalham neste restaurante, com exceção do dono. Tudo parece igual a todos os dias, com sutis variações.

No caminho de volta, as mesmas paisagens. Um odor amargo sobe do caminhão que reabastece os reservatórios de gasolina do posto. Os frentistas, dessa vez, apenas acenam com a cabeça. Os rapazes do lava-rápido fazem uma pausa para almoçar. A cadelinha do estacionamento dorme. O rapaz que vigia o estacionamento toca um violão, o que me surpreende. O porteiro fala ao celular e apenas move os olhos na minha direção. A faxineira, agora, lava os vidros do salão de festas, cantarolando. Um silêncio estranho invade a garagem, um vento frio e quente desabotoa o meu casaco e bagunça meus cabelos.

Volto para casa, ligo o computador. Amanhã tudo se repete.

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