De volta à essência

Não adianta fugir daquilo que nos move e que constitui a matéria dos nossos sonhos. É como tentar sair de dentro de si mesmo, escapar da sua própria alma, do próprio espírito e dos mais ínfimos átomos que nos compõem.

As palavras me formam, me completam, correm em meus pensamentos, minhas mãos, permeiam os dias de maneira tão intensa que não tem como eu me esquecer de que elas estão ali. Aqui, na verdade, dentro, bem dentro, tão intrinsecamente entrelaçadas a tudo o que eu sou, que não fazer uso delas, não falar, não escrever, é como uma morte a conta-gotas. É suicídio lento e certo.

Ser escritora, retratar o mundo em palavras, sempre foi o meu grande desejo, o mais profundo, do qual eu não consigo me desvencilhar, por mais que eu tente, me afaste ou deixe para lá. É algo que me incomoda e alfineta constantemente, e toda vez que me esqueço desse grande pedaço de mim, parece que os desassossegos se multiplicam e o caos se instala por completo no meu universo interior.  E, é claro, isso acaba interferindo muito em como eu enxergo o mundo e como me relaciono com ele.

A necessidade de dissecar situações, analisar a realidade, olhar tudo de forma crítica e racional era algo muito presente em todas as esferas da minha vida, até pouco tempo atrás. E não bastava apenas que isso tudo ficasse no plano abstrato, era necessário que se concretizasse na escrita. Eu vivia, me portava e sentia como se fosse uma cronista do tempo em que vivo. Como se fosse uma personagem dentro de um conto que era escrito a cada dia. Eu era a narradora e a protagonista de tudo, ao mesmo tempo. Escrevia o tempo todo, em guardanapos de boteco, caderninhos, e até mesmo nas mãos, se não tivesse outro jeito. Muitos rabiscos não davam em nada, porém alguns se tornaram textos muito bons – ou, aos meus olhos tão cegos pela autocrítica, ruins demais para serem mostrados ao mundo. E tantos outros foram parar no lixo ou no limbo dos bytes excluídos do computador.

Na verdade, pensando bem, eu sufoquei a minha mente criativa pelo medo de não ser boa o suficiente, ou por acreditar que eu não tinha, ou não tenho, nada de importante ou relevante a acrescentar nesse contexto tão maluco em que vivemos. São tantas informações, temos acesso a tanto conteúdo, que parece impossível ser inovador ou expressar algo que já não tenha sido dito antes. Parece muita arrogância ou prepotência achar que as minhas palavras farão alguma diferença hoje. Existem tantas pessoas talentosas, escrevendo e criando coisas lindas, incríveis, que eu constantemente me pego refreando os meus impulsos criativos antes mesmo que eles possam se manifestar. Mas, vejam só, que coisa mais triste e pessimista.

Além de tudo isso, tem o fator mais importante: o medo das críticas de fora. Quando eu tinha meu antigo blog, eu vomitava tudo o que sentia, escrevia sem um pingo de filtro, e era muito feliz. As críticas eram boas, algumas ruins, mas o mais incrível era ver que muita gente se identificava bastante com o que eu estava dizendo ali.  Cheguei a receber convites para colaborar em outros blogs, para fazer parte de coletâneas, mas não levei a sério, não trabalhei em busca de aprimorar os meus textos e, pior ainda, esqueci os limites entre o mundo real e o fictício, encarnando a persona que escrevia no blog e me esquecendo do principal propósito de tudo, que era justamente crescer e, aos poucos, conquistar alguns espaços e poder, enfim, tocar no meu sonho, materializado. O resultado de toda essa confusão foi o óbvio – abandonei esse sonho de um dia ser escritora, o qual passei a considerar como ridículo, e que obviamente não iria pagar minhas contas, e finquei os pés no chão.

Desde então, tenho tido muito receio de voltar a compartilhar com o mundo as palavras que me formam, as que me rodeiam, as que me perseguem. Mas, não importa o que eu faça, elas continuam ali. Ou aqui. Elas estão por toda parte e eu não sou mais capaz de ignorá-las ou de mantê-las trancafiadas.

E eu passei muito tempo sem escrever. Quer dizer, não necessariamente sem verter palavras no papel ou na tela do computador, mas sem exercitar diariamente, ou, ao menos, periodicamente, este lado esquecido do meu cérebro, o cantinho escuro, ou quiçá iluminado, onde moram todas as coisas relevantes, onde residem os questionamentos, os anseios, as críticas, as nuances mais sinceras de tudo o que vejo, sinto, faço. Faz muito tempo que deixo às traças isto que só eu sei que existe, a abafada criatividade, o fluxo contínuo de ideias e conceitos. Talvez eles não sejam assim tão importantes, ou não façam sentido algum, mas o fato é: eu preciso escrever. Quantas saudades eu senti dessa luta, dessa dor estranha e maravilhosa que é colocar em trôpegas linhas o que existe aqui dentro e ao meu redor!

Durante muito tempo eu me perguntei: “mas, por que escrever?”. Ou então: “sobre o que escrever?”. E, não encontrando respostas a essas dúvidas, fechei os cadernos, os blogs, os estudos, deixei os personagens morrerem, as estórias se desmancharem ao longo dos anos, restando apenas alguns arquivos perdidos no computador e velhos pedaços de papel amarelados.

Mas agora, sinceramente, nada disso me importa. Essas perguntas não precisam ser respondidas nesse exato momento. O que é preciso, agora, é sentar aqui, colocar os pensamentos em ordem e tentar extrair algum sentido do que vivo, penso, sinto. É deixar que as palavras fluam sem tanta censura, mesmo que não façam a mínima diferença, ainda que não mudem o mundo ou as pessoas. O que basta é que elas mudem o meu mundo.

Eu decidi criar esse blog como um exercício. Como uma obrigação, um compromisso firmado entre mim e o universo, afirmando que eu não vou deixar de escrever. Mil palavras. Todos os dias.

E eu mal posso esperar para ver no que isso vai dar…

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